Love (2015)
Nunca gostei de lamber, a frio, a superfície de um corpo. Sinto-o murcho ao gosto, acre ao odor. Mas, se pousas um pé no meu seio e levantas os braços deixando cair o cabelo, penso que é um pé de escrita dividido em dedos que procura a minha emoção. Que me provoca. No fim, mordo-lhe. É esta a minha retribuição de escritora viva.
Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia? (fragmento)
“estou a subir com o amor ao colo - o Amor está quase a cair. É com o que eu sonho, o amor de pé, o amor falcão, Aramis, o amor sem a resistência do ar, ou da gravidade e, alguém, talvez tu, me diz, a meu lado: «queria fazer amor contigo, e ando à procura de outra coisa.»”
— Maria Gabriela Llansol, in O Raio Sobre o Lápis
ESPAÇO E AMOR
Dedicado a Gilbert & George
O estar-parado-muito-tempo pode provocar no espectador mais movimento do que uma corrida de 100 metros. O que importa não é a velocidade do que se vê, mas a velocidade de quem vê. E a velocidade aqui não é uma componente física, mas uma componente dos argumentos sentimentais. Isto é: o coração balança de um modo primitivo, como há seis mil anos, e, no entanto, as mãos contactam com elementos do mundo bem mais organizados e inteligentes do que há uma semana. O Homem mudou do coração para fora; do coração para dentro: a mesma inabilidade e o mesmo entusiasmo. Apaixonado ainda, como um imbecil Homo Sapiens das flechas, o Homem vai de automóvel para o encontro marcado; a mesma paixão incalculável, mas mais tecnologia.
Quanto aos dois homens que falam de modo pausado e um de cada vez – como se fossem as duas partes da mesma frase – eis que a mesma circunstância – o mundo – os separa: essa catástrofe, que é o espaço, faz com que um corpo ao lado do outro possa por vezes ser admirável e outras vezes repugnante. O espaço permite a aproximação e o afastamento. Sem a noção de espaço estaria tudo no mesmo sítio, não haveria, portanto, distinções, separações: acabaria o amor: se nada está afastado de mim, como pode o meu coração (sentimental) funcionar?
Que Deus proteja aquilo que nos afasta.
Abri curiosa o céu. Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar, coração ante coração, inteiriça ou pelo menos mover-me um pouco, com aquela parcimônia que caracterizava as agitações me chamando
Eu queria até mesmo saber ver, e num movimento redondo como as ondas que me circundavam, invisíveis, abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria (só) perceber o invislumbrável no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria apanhar uma braçada do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria captar o impercebido nos momentos mínimos do espaço nu e cheio
Eu queria ao menos manter descerradas as cortinas na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal.
Ana Cristina Cesar, Fagulha Voz/ read by: Elsa Pires Cabral



