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O certo no incerto - Capítulo 9 - Cloe Fenix
Duas semanas haviam se passado, desde que eu voltei com o propósito de me separar, desde que descobri a existência da minha princesa. Quando decidi, voltar a morar com a minha esposa, forçando-lhe a minha presença no seu dia-a-dia. Imaginei todo o tipo de cenários e nenhum foi o que encontrei, nada passou perto do que eu encontrei. A minha filha era uma menina alegre, inteligente, educada, meiga e atenciosa, eu sabia que se parte destas características não foram herdadas geneticamente. Então elas só podiam ter sido aprendidas, com os melhores concelhos e exemplos que podia existir. E como sempre, a prova chegou rapidamente as minhas mãos. Ainda me lembro daquele dia como se fosse hoje, da expressão alegre da Lia, quando atravessou a porta. Primeiro eu pensei que a Leandra tinha feito de propósito, para chegar a casa tão tarde, para evitar que eu estivesse com a minha filha. Ela queria castigar-me, por tudo o que a fiz passar e não podia lhe tirar a razão por isso, mas ainda assim eu tinha os meus direitos. Estava pronto para discutir com ela, quando a Lia começou a contar-me o seu dia. Ela tinha conhecido duas sem abrigo, mãe e filha, foi na companhia delas que passaram toda a tarde. Como eu podia julgar a pessoa que deu uma nova oportunidade, aquela família. Que lhes deu um lar, um emprego, uma nova vida e ainda ensinou uma preciosa lição à filha. Devo admitir que a admirei pelo seu gesto e, mas do que isso, recordei-me do motivo que me apaixonei por aquela mulher. Nesse mesmo dia, também chegamos a um acordo, foi mais fácil do que eu imaginei. Algo nela tinha mudado desde aquela manhã e eu não sabia o que foi, mas estava agradecido pela paz que se instalou entre nós. — Eu vou permitir que fiques nesta casa, até ao aniversário da Lídia no próximo mês. – Disse, assim que a Lia adormeceu e a deixamos no seu quarto. – Durante esse tempo, podes conviver com ela, participar nas suas brincadeiras e até vou permitir que a leves à escola. No dia seguinte ao seu aniversário, vamos até ao escritório do Filipe, ele vai lá estar com os papeis do divórcio prontos. Assim que os assinamos, despedes-te da Lia e voltas para a tua casa, para a tua nova mulher e deixa-nos em paz. — E se eu não quiser, me afastar da Lia? Se eu não quiser, deixar-vos em paz? – Perguntei, sentindo um estranho desespero crescer no meu peito. — Eu vou permitir, que ligues para a Lia e também que a visites. – Suspirou cansada. – Claro que tens de ligar com antecedência e peço por favor, que nesta primeira fase, não tragas a tua amante. A Lídia ainda é muito nova e a nossa história é muito confusa para a sua cabecinha, por isso, peço-te para teres mais calma desta vez. Não magoes a Lia, como me magoaste no passado. Pensa nela, pensa na sua felicidade e toma uma decisão sensata, por favor. Sem dizer mais nada, entrou no seu quarto e deixou-me pensativo, no meio do corredor. O tempo passou calmo depois disso, por vezes parecíamos uma verdadeira família feliz e o passado era apenas um pesadelo esquecido. O problema dos sonhos, é que desaparecem quando acordamos e a realidade, é um pequeno fragmento do pesadelo que tanto quero esquecer. — Olá amor. – Ouvi a voz do outro lado da linha, cumprimentar. – Tenho saudades, quando voltas? — Em breve. – Respondi indiferente, observando a Lia a brincar no baloiço, com a mãe. — Sempre respondes o mesmo. – Respondeu chateada. – Eu quero saber quando, quero uma data amor. Já estas aí há duas semanas, não pode ser assim tão difícil conseguires a aprovação da tua família e o divórcio dessa mulherzinha. — Não chames a Leandra de mulherzinha. – Respondi irritado. – Eu vou ficar o tempo que for preciso e não adianta fazeres birras, porque isso não vai apressar nada. — O que se passa Carlos? O que raio tu tens? Tu não eras assim, nunca me respondeste dessa forma. – Resmungou alterada, do outro lado. – Tu mudas-te deste que partiste, não és mais o homem por quem me apaixonei, estás diferente. Mais frio, mais distante, o que aconteceu? O que ela te fez, para mudares assim? — Ela não fez nada Júlia, não sejas paranóica. – Respondi também irritado, mas logo mudei o meu tom de voz, quando percebi a atenção da Lea em mim. – Eu volto quando terminar aqui, não vale a penas discutir pelo telefone, só vamos piorar tudo desta forma. Quando voltar conversamos com calma, agora tenho de desligar. — Tu estás diferente, eu sei que algo mudou. – Porque ela tem de complicar tudo? – Desta vez vou desistir, mas para a próxima… não te escapas de me explicar tudo, o que está a acontecer. — Sim, sim eu sei. – Respondi sem paciência alguma. — Agora só te perdoo, se me disseres o quanto me amas. – Disse com a sua voz meiga. — Tu sabes que eu te amo. – Respondi baixo, virando as costas para as duas mulheres. Principalmente, para fugir do olhar curioso da Lea, eu sei bem que nada lhe escapa. — Que resposta frouxa, eu quero um “eu te amo” sentido, bombonzinho. — E foi sentido. – Suspirei, afastando-me ainda mais do baloiço. – Eu te amo. Está bom assim? — Não digas isso dessa forma, parece quase que te estou a apontar-te uma arma. – Resmungou. — Desculpa querida, é que ando meio cansado e cheio de trabalho. — Ok, desta vez, apenas desta vez eu te perdoo. – Respondeu amuada. – Volta rápido para casa… — Vou fazer o que puder. – Interrompia, deixando-lhe com mais uma resposta vaga. Ultimamente era tudo que eu lhe dizia, meias verdades, meias notícias, meios assuntos. – Quando eu voltar, eu prometo que te vou contar tudo, agora tenho mesmo de ir, beijinhos. Sem esperar por a sua resposta desliguei o telefone, eu sabia que esta a arriscar-me a fazer algo assim. Ela não ia aceitar facilmente que lhe escondam algo, ela tem um sexto sentido e sabe bem que se passa alguma coisa. Afinal ela é mulher e as mulheres sentem, quando não estamos a ser totalmente honestos. E sinceramente, nem eu sabia mais quais eram os meus sinceros sentimentos, dizer que a amava… não era mais o mesmo. — Papá… Papá… Olha… Olha… eu estou a voar… – Gritou feliz baloiçando bem alto. — Agarra-te bem Lia. – Disse preocupada, enquanto se divertia com a empolgação da filha. — Estás quase a tocar no céu. – Sorri. — Eu vou tocar no céu. – Riu, feliz. Este era um dos momentos, que eu mais gostava de passar com elas, como uma verdadeira família. Este era a única certeza que tinha, nos últimos tempos e aquela que eu realmente, não queria perder. Depois de brincamos muito no jardim, preparamos juntos o lanche, quando terminamos sentamo-nos em frente da televisão. A Lia escolheu um filme de animação, que eu não conhecia e ficamos a vê-lo juntos, enquanto comíamos. O filme já estava a terminar, quando a Sofia chegou com os meus sobrinhos, ou melhor sobrinha e afilhado. Que logo correram para o quarto da minha filha, sem me cumprimentar. Ok, eu compreendia que a minha sobrinha não me conhecia, eu não estava cá quando ela nasceu e não voltei para a conhecer. Já o meu afilhado, simplesmente tratava-me como um estranho. Ele era pequeno quando eu parti, mas devia ser o suficiente para saber quem eu era. Pelos vistos, isso não era verdade. Duas horas se passaram, deste que a minha irmã e os seus filhos chegaram. Duas horas, deste que me tranquei no meu quarto a ver um jogo de futebol qualquer, sem muita atenção. A minha filha ainda brincava com os primos e a minha mulher estava em alguma parte da casa, com a melhor amiga. Pode parecer estranho, eu não ter passado nenhum tempo com a Sofia, mas a verdade é que a nossa relação não andava nada boa. E só tinha tendência a piorar, a cada segundo que passávamos na mesma divisão. Ela sempre foi muito protetora, desde pequena sempre teve um lado maternal e protetor. No passado estava tudo bem, no entanto hoje eu era o inimigo a abater. Tudo porque abandonei a Leandra, a trai com outra mulher e abandonei uma criança que não sabia que existia. Ela culpa-me por cada lágrima que eles derramaram e pelas que vão derramar, mesmo que eu não seja o verdadeiro culpado. Tronei-me o seu bote expiatório e nada vai mudar, não tenho como a convencer, que estou em paz. O jogo já tinha acabado a um bom tempo, quando resolvi sair do quarto. As crianças estão no seu próprio mundo, de faz de conta e o resto da casa em absoluto silêncio. Parecia até que estava sozinho em casa, apesar de saber que elas nunca abandonariam os filhos, sem pelos menos me avisar. — Andas perdido, maninho. – Perguntou irónica. — A casa é grande, mas não é para tanto. – Respondi irritado. — Era para ter piada? — Sofia por favor, dá para deixares de ser assim? – Eu já estava cansado de toda esta raiva e mágoa, eu só queria paz, era pedir muito? – Podemos por favor, enterrar o machado de guerra? — Enterrar o machado, dizes tu? Odeio quando ela faz aquela cara, uma mistura de ironia, malvadez e incrédulo. Ela parecia capaz de tudo e mesmo assim continuava de um jeito irritante, vagueando calmamente a meu redor. — Tu abandonas a minha amiga, arranjas uma amante, voltas para pedir o divórcio e em vez disso. – De repente ela para há minha frente, fazendo uma cara estranha. – Simplesmente decides ser pai, voltar a morar nesta casa sem seres convidado. — Eu devo-te lembrar que esta casa, também é minha. Eu ainda sou casado com a Leandra, sou o pai biológico da Lídia e… — Disseste bem, és o pai biológico da Lídia, porque pai mesmo nunca foste. – Au, está doeu. – Nunca estives-te presente, quando eles precisaram de ti. Quando a Lea estava grávida, quando ela entrou em trabalho de parto, quando a Lia passava horas a chorar de dores. Quando teve febre e a Lea teve de passar a noite com ela no hospital, quando disse as primeiras palavras, quando deu os primeiros passos. — Sim eu não estive presente, mas a culpa não é só minha. – Sentia toda a mágoa e raiva circular pelo o meu corpo, alterando o meu tom de voz e talvez ate mesmo a cor do meu rosto. – Eu não pedi isso tudo porque quis, a infância da Lídia foi me roubada. — Roubada. – Riu irónica. – Eu também pensei assim, nos primeiros meses da gravidez da Leandra. Também achei que ela estava errada, que não era certo esconder-te a verdade, mas depois… – Pensou um momento. – Depois o tempo passou, eu vi as suas lágrimas, a sua solidão e tu nada. Nem parecia que existias mais, foi quase como tivesses falecido, talvez se tivesses mesmo ela teria sofrido menos. Engoli em seco com aquelas palavras duras, finalmente ouvia outro lado da história e ela nem era nem um pouco melhor. Eu não sei o que a Sofia pretendia, mas se era fazer-me sentir culpado estava a conseguir. — Não era essa, a minha intenção. — A tua intenção não importa, nada do que pensas ou julgas pensar importa. Nada vais apagar o passado, nada vai justificar os teus atos, a menos que arranjes uma máquina do tempo e corrijas a dor que causaste a toda a gente. E quando me refiro a toda a gente, estou a falar também de mim, do teu afilhado, dos nossos pais, da nossa irmã. Deves imaginar, que cara nos fizemos na...