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O certo no incerto - Capítulo 19 - Cloe Fenix
Nada na minha vida se mostrou fácil. Desde que voltei, descobrir que era pai, redescobrir a minha mulher. Tudo mexeu muito comigo, acredito que uma certa distância foi necessária, para perceber o quanto a amava. Para perceber quem eu era e o que queria da minha vida, mas… a que custo? Perder a infância da minha filha, perder a mulher que eu amo, assinar aqueles malditos papeis… tudo porque me armei em galanteador e agora, apenas estou paralisado na frente de uma arma. Sabendo que ela não está apontada apenas a mim, que o verdadeiro alvo é a Leandra e a Lídia. Não sei à quanto tempo, eu me pergunto quem é a mulher na minha frente. Quantas vezes já me perguntei, se a minha ex-amante tinha alguma irmã gémea, alguém com uma personalidade diferente da que eu conheci. Eu não sei mais quem ela é, não sei dizer se ela sempre foi louca, ou se apenas ficou assim. Simplesmente não sei nada apenas não a imaginava, como sendo alguém, capaz de tirar a vida a outra pessoa. A matar… Foi por momentos, que tomei consciência do sentimento de perda e vazio, que senti minutos antes. Deixando-me um sabor amargo da boca, teria sido aquele momento uma verdadeira despedida? Eu realmente nunca mais vou ver, a minha pequena chefe de cozinha e a minha escritora favorita? Fiz uma pequena oração mental, pela segurança delas e uma breve despedida, antes de encarar a mulher na minha frente. — Eu vou contigo, desde que me prometas, que nunca irás tocar num fio de cabelo da Leandra ou da Lídia. Muito menos estares a menos de 5 metros delas e não vale de todo mandares alguém para lhes fazeres mal. – Eu estava a arriscar, mas eu quero as seguras, mesmo depois da minha morte. — Humm… eu ia gostar de dar uma liçãozinha naquelas duas, principalmente a vagabunda que resolveu enfrentar-me. Eu perdi o meu filho por causa dela e ainda me chamaram de louca? O que eu posso dizer a esta psicopata, que não a faça disparar contra mim e correr para as matar? Eu tenho de a fazer mudar de ideias, tenho de a afastar daqui, quando estivemos longe aí eu posso agir. Posso a enfrentar e talvez a internar em alguma clínica. Eu não sei até que ponto eu sou o culpado pelo seu estado mental, se ela já era maluca, ou se a deixei assim. De qualquer forma não importa, eu também a envolvi nesta história, é minha obrigação resolver o problema. —Júlia, amor… – Chamei a sua atenção, tirando-a do seu transe vingativo. – Vamos apenas esquecer que elas existem, nós vamos morar a quilómetros daqui, não há hipótese de nos cruzamos com elas. – Aquela simples frase, foi como um punhal que se cravou no meu coração, mas continuei o mais impassível possível. – Vamos casar-nos, ter os filhos que quisemos, ter uma casa grande e nada nos vai impedir de sermos felizes. — Casamento com carruagem e cavalos brancos? – Perguntou sugestiva. — Tudo o que quiseres amor. – Engoli em seco, era como se aquela palavras arranhasse a minha garganta. — OK. Vamos ter o mundo aos nossos pés, bombom. – Aproximou-se de mim de forma sensual, já perto de mim, passou a sua pequena mão pelo meu peito. Enquanto segurava com a outra mão a arma, que roçava levemente no meu pescoço. – Vamos ter uma menina, eu quero uma linda princesa, mais bonita do que aquela pirralha, arrogante. Uma princesinha digna de um castelo, depois podemos fazer um pequeno príncipe, para herdar os negócios e a fortuna do papá. — Que negócio? – Perguntei sem pensar. — Tolinho… – Sorriu, mas o seu sorriso já não me animava, apenas me aterrorizava. – Pensas que não, sei que vais receber uma promoção na empresa? Depois disso, é só mais um passo até seres o vice-presidente ou até um dos sócios. Claro que o nosso filho, vai seguir as pisadas do pai e se tornar um grande homem. — Um homem cobarde, isso sim. – Murmurei. — O que disseste? – Senti alguma raiva na sua voz. — Nada querida. – Respondi rapidamente. — Então entra no carro, vamos para casa. – Afastou-se levemente de mim, fazendo com que o ar regressasse aos meus pulmões. — Era melhor dás-me essa arma, pode ser perigoso. – Tentei tirar-lha da mão, isso ajudaria no meu propósito. — Eu posso ser carente, mas eu não sou burra. – Aproximou-se novamente, apontando-me a arma. – Não me vais enganar, vais entrar naquele carro bem caladinho e voltar comigo para casa. Caso contrário… – Apontou para a direção da casa. – São elas que vão pagar, até que um teste não faria mal. Que tal eu dar um tiro de aviso? Se acertar em alguma janela, será que consigo ferir uma das duas? — Eu entro no carro, ele está aberto? Queres que eu conduza? – Perguntei atrapalhado, tentando sair dali o mais rápido possível. Eu tinha de me afastar, eu tinha de ir embora, tinha de levar esta louca comigo. – Vamos querida? — Claro. Sorriu feliz, mas o seu sorriso só me dava arrepios e mais uma vez, senti aquele sabor amargo na boca. O frio que sentia dentro de mim aumentou, deixando-me desconfortável, talvez fosse mesmo o meu fim. Talvez eu nunca mais as visse e quem sabe, este não será o melhor. Assim que entrei no carro, coloquei o sinto e observei novamente a casa onde vivi. A mesma onde partilhei os melhores momentos da minha vida e onde eu deixo o mais importante para mim. Recordei cada minuto, cada segundo, cada doce lembrança e até as mais amargas. Tudo parecia tão bom, tão verdadeiro e real, mas estava tão distante de mim. Como um verdadeiro pesadelo, daqueles que acordamos do sonho e encontramos uma realidade completamente diferente. Fui tirado dos meus pensamentos, quando o carro ultrapassou outro a alta velocidade, fazendo-me baloiçar no meu acento. Quando prestei atenção a estada, percebi que foi insensato da minha parte deixá-la conduzir. Ela não só ima me matar, mas como levar alguns inocentes connosco, de tal forma que seria o acidente que estava prestes a provocar. — Podemos ir mais devagar Júlia? – Perguntei verificando que ela circulava a 100 quilómetros por hora, numa estrada cujo limite era 70. — Eu quero chegar rápido a casa, já demoramos muito a retomar a nossa vida. — Não podemos retomar nada, se estivermos numa cama de hospital ou pior mortos. – Tentei argumentar. — Isso não importa, desde que estejamos juntos. Riu de forma ainda mais sinistra e continuou a conduzir, alguns carros buzinavam perante a sua condução desenfreada. Enquanto outros, batiam ao tentar se desviar dela, felizmente não provocando mais do que danos materiais. Logo estávamos a entrar na autoestrada, ela fazia isso sem reduzir a velocidade mais do que suficiente, para poder controlar o carro. Eu temia pela minha vida, mas mais do que isso, temia que louca sobrevive-se. E depois da minha morte, ela corre-se atrás da Leandra e a matasse, juntamente com a nossa menina. Ou então que rapta-se a Lia e desta vez, não a devolve-se… eu não quero que uma psicopata crie a minha filha, não mesmo. Eu tinha de avisar alguém, tinha de pedir ajuda, mas como posso fazer isso sem levantar suspeitas? Já sei. — Júlia amor, importas que use o telemóvel? – Perguntei com calma. – Eu preciso avisar a empresa que amanhã não vou trabalhar e claro, tenho de pedir a transferência, não quero voltar para aquela cidade. E também preciso de enviar uns emails, tenho de delegar alguns negócios que tenho em mãos, não posso colocar a minha promoção em risco. Sabes bem como o chefe adora, pessoas profissionais e que se preocupam com a empresa, quem sabe consigo a minha progressão de carreira mais cedo do que o esperado. Não era uma ideia de génio, mas ao menos esperava que funcionasse. Pelo menos, se ela se preocupava com a minha carreira e o meu dinheiro, isso a faria ceder. E daria a oportunidade para pedir ajuda, criar um plano e talvez sobreviver. — Claro, não queremos colocar o nosso futuro em risco. Mais uma coisa que descobrir, além de louca, ela é contraditória e de que maneira. Pelo menos ajudou com o meu plano, agora só o tenho de pôr em ação. — Podes é só diminuir a velocidade um pouquinho querida, eu não consigo escrever direito quando o carro balança tanto. Pedi e como resposta ela reduzir um pouco a velocidade, mesmo assim ainda voava, como uma lunática pela estrada fora. Então tirei o telemóvel do bolso e em primeiro lugar mandei uma mensagem para a Sofia, ela tinha de as manter seguras. “Não tenho tempo para explicar, neste momento estou a voltar com a Júlia para a casa onde vivíamos. Ela esta louca por favor, leva a Lea e a Lia para um local seguro, mantém as em segurança. Eu vou fazer os possíveis, para internar a Júlia num local seguro, de onde não seja capaz de sair. Até lá, por favor maninha, mantém nas vivas e diz-lhes que as amo. Adoro-te.” Assim que terminei mandei outra para os pais da Júlia, eles tinham de me ajudar, o manicómio era melhor do que a cadeia ou até mesmo a morte. Ao menos eles ainda teriam a filha viva, para a poderem visitar. “A Júlia está comigo e tem uma arma, ela ameaçou a minha ex-esposa e filha de morte. Ela precisa de internamento urgente, antes que cometa um crime. Vamos para a nossa antiga casa, por favor estejam preparados, caso contrário o destino dela vai ser a cadeia ou até a morte.” Assim que enviei a mesma, mandei uma mensagem ao meu chefe, informando-o que por motivos pessoais precisava de tirar alguns dias. Felizmente não tinha nenhum projeto importante em mãos o que facilitava e muito, a minha ausência. O início estava traçado, eu fiz o que podia até agora, só me restava esperar que tudo corre-se bem. Só desejava sair vivo desta, se o fizer… se eu poder voltar para a minha família, eu nunca mais as vou abandonar. Nunca mais as deixarei tristes, eu serei a muralhas que as protege do mundo, apenas darei a minha vida… cada dia da minha existência, para que o mais pequeno sorriso possa surgir nos lábios delas. Despertei do meu transe quando mais uma vez, a Júlia aumentou a velocidade. Circulávamos agora a quase 300 quilómetros por hora, ultrapassando tudo e todos. O carro termia pelo excesso de velocidade, o vento zoava pelos vidros fechados. Todos os meus sentidos estavam em alerta, enquanto o meu coração batia desenfreado e a minha respiração mantinha-se irregular. Não sei a quanto tempo eu estava naquele carro, quantos quilómetros tínhamos feito, apenas sabia que estávamos a cada segundo, mais perto do destino. O que me deixava ainda mais nervoso, era por isso que observava o meu telemóvel a cada instante, eu precisava de uma confirmação. Que alguém me desse segurança para continuar, para enfrentar o meu destino. Foi aí que eu vi, tudo o que antecedia o fim, rapidamente voltei a olhar para o meu telemóvel. Onde não existia nenhuma mensagem, mas também neste momento já não importava mais, o fim estava próximo. Seriam minutos, talvez alguns segundos, seja como fosse queria que o rosto delas, fosse a última coisa que eu visse. Então eu simplesmente observei a foto de fundo do meu telemóvel, o meu pequeno tesouro, que a Júlia nunca poderia ver. Aquela foto era felicidade genuína, tudo o que eu mais desejava, tudo o que eu estava a perder. Lembro-me bem daquele dia, foi dos primeiros que passamos juntos, como uma família de verdade. A Lia tinha andado meia doentinha nos últimos dias, então como ela já estava melhor, fizemos um pic-nic no jardim. A diversão começou, como sempre na cozinha, nunca vi uma criança gostar tanto de...