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Abismo - Capítulo 2 - Cloe Fenix
Três semanas se passam depois daquilo, cada uma, mais preenchida do que a outra. A Carina praticamente se mudou para cá e tem estado hospedada num hotel perto do hospital, mas só vai para lá no final do dia, quando as visitas terminam e volta de manhã cedo. Tal como o detective suspeitava, o meu caso foi arquivado, faz hoje uma semana. Não conseguiram encontrar nenhuma pista e por causa do meu caso de amnésia, a situação era ainda mais complicada. Descobri também, que o hospital onde eu me encontrava, fica a uns 200 km de casa e a 50 Km do local do acidente. No início, a Carina pensava que era melhor eu ser transferida para perto de casa, mas depois mudou de ideias, tirou uma licença sem vencimento e veio para cá. No início, eu ainda tentei a convencer a voltar para casa, não queria que ela perdesse o emprego por minha causa, mas nada a fez mudar de ideias. Descobri também que estou à espera de um menino, a Carina ficou um pouco desiludida, isso até o médico ter ligado o som. Nesse mesmo instante a sala foi preenchida, por uma bela e ritmada melodia, como um pequeno e forte tambor. Desde esse dia, tudo o que ela faz é sugerir nomes, comprar livros sobre bebés, roupinhas azuis… ela anda doida, só não me deixava ainda mais doida, por que tinha de me ajudar com a fisioterapia todos os dias. Felizmente a minha recuperação foi rápida e hoje eu ia ter alta, assim finalmente poderia voltar para casa, o meu lar… lar? — Onde eu vou morar? – Perguntei meia incerta. – Se tu estás casada, então nós não moramos mais juntas no nosso apartamento e também eu desapareci há meses, por isso… onde é que eu moro agora? — Tu vais morar na minha casa, as tuas coisas estão todas lá, ele as entregou já faz algum tempo, pouco depois de… – Interrompeu-se, tapando a sua boca com a mão. – Desculpa. — O senhorio me despejou? Eu não tenho, mais uma casa para onde voltar? – Perguntei, com as lágrimas nos olhos. — Não é bem assim. – Disse sem graça, desviando os olhos dos meus. — O que foi então? – Questionei, enquanto limpava as minhas lágrimas. — Para dizer a verdade nenhuma de nós mora naquele apartamento, já faz um bom tempo. – Suspirou, desviando o seu olhar para as suas mãos unidas. – Apesar de eu e o Xavier nos conhecemos a pouco tempo, ficamos noivos bem rápido e depois veio o casamento. Foi nessa altura que ele te convidou… – Engoliu em seco antes de continuar, enquanto apertava ainda mais as suas mãos, mostrando o seu desconforto. – Vocês já namoravam a um bom tempo e também, o vosso relacionamento, não era segredo para ninguém. Até o S. Alberto… o nosso patrão, tinha aceite o vosso namoro. Tudo corria bem, vocês eram muito felizes, uma equipa imbatível… e depois… tu desapareces-te e ele mandou entregar as coisas, na minha casa. — Ele… ele quem? – Sentia-me totalmente descontrolada, por mais que tentasse era realmente difícil não chorar e a prova disso era o meu corpo que termia. – Quem é ele? — O Paulo… Paulo Melro, o teu namorado ou melhor ex-namorado e pai do teu filho. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, só por ouvir aquele nome, era quase como prever um ataque de pânico eminente. O que esta a acontecer? Mais uma vez na minha vida, eu não tinha um lar, não tinha para onde voltar. Constatar aquilo, foi como se um buraco se abrisse aos meus pés e eu caísse lá dentro, sem para-quedas. De repente o ar começou a falhar, a minha respiração acelerou, o quarto começou a girava sem parar deixando-me tonta e no meio da escuridão. Acordei algum tempo depois, com a voz da Carina no quarto, ela falava distraída ao telefone com alguém. — Não ela não vai mais ter alta hoje… – Fez uma pausa. – Ela desmaiou depois de eu lhe falar do Paulo, gostava de saber o que realmente aconteceu entre os dois. – Outra pausa. – Sim eu sei que é entre eles, mas eu sou a sua melhor amiga, ela é como uma irmã para mim. Ela esqueceu-se de tudo… ela esqueceu tudo sobre ele, a sua última memória é da véspera… a véspera do dia, em que se conheceram. Ela apagou-o da sua mente e também tem o acidente, por que motivos ela fugiria. Porque não me procurou… eu podia ter ajudado… eu podia… Um choro fraco ecoou no quarto, a minha irmã sofria por tudo o que eu passei e por tudo o que eu estou a passar. E isso é mesmo desolador, imaginar que tudo o que aconteceu afecta ou outros, da mesmo forma que me afecta e assim começa outra secção de choro. Até parece que eu não sei fazer outra coisa, desde que acordei passo grande parte do meu tempo a chorar, assim ainda vou morrer desidratada. — O que eu faço Xavier? Eu quero a levar para casa, faze-la retomar pelo menos uma parte da sua vida, mas ao mesmo tempo… eu quero a levar para bem longe. O problema é que eu não sei se o Paulo sabe, se ele sabe que vai ser pai, apesar de tudo… ele merece saber. – Suspirou, naquele momento, parecia que ela tinha o mundo, sobre os seus ombros. – O médico? Ele disse que ela teve uma pequena quebra de tensão, querem a manter sobre observação, mas só deve ficar mais esta noite. Ele disse-me, que qualquer tipo de emoção forte do passado a pode afectar e provocar os desmaios. Principalmente se estes tiverem relacionados com o seu trauma, mas o pior é que não sabemos o que aconteceu, então não podemos fazer nada para evitar o pior. Eu só posso pensar, que algo de muito mau aconteceu entre eles, o que a fez fugir e a levou ao acidente. Agora só falta saber o que aconteceu, desde que ela saiu da casa do Paulo, até chegar ao local do acidente. Esse meio tempo é a chave para tudo, infelizmente não existe nenhuma forma de o saber, não até ela se recordar. Eu realmente não sei o que fazer… ele pode a destruir, mas também a pode ajudar a montar todo o puzzle e ainda tem o bebé. O que eu faço amor… o que eu faço… Sem saber o que pensar e o que fazer, mantive-me em silêncio, olhando para o tecto sem graça. Ela tinha razão, ele merecia saber e quem era eu para negar um pai, ao próprio filho. Ainda mais, quando eu vivi com a dor de não ter um pai por perto. Nunca se quer cheguei a saber alguma coisa sobre ele, nem mesmo o seu nome, como se conheceram, que tipo de relação tinham. A minha mãe não gostava de falar sobre ele, muito menos queria que eu criasse uma falsa ilusão sobre o meu pai. Quando eu perguntava alguma coisa, ela sentava-me calmamente no seu colo e dizia quase num sussurro. Eu não quero que ele não tenha um pai, mesmo que o Paulo me ignore, mesmo que eu tenha passado por horrores ao seu lado. Ao menos o meu filho vai poder ter alguém, a quem pode chamar de pai, alguém a quer abraçar. Ele não irá desenhar para a mãe no dia do pai, ele não vai ouvir os amigos dizer, que é inútil fazer uma prenda para o pai, se não se tem um… E que desenhar para a mãe é algo inútil e sem sentido, que uma mãe não pode ser também um pai. Mesmo que a minha mãe fosse tudo para mim, a minha querida mãe, o meu pai, a minha heroína, a minha melhor amiga… ainda assim sentia a falta dele e não quero que o meu filho sinta o mesmo. — Carina? – Chamei ao fim de alguns minutos em silêncio, depois dela desligar a chamada e acalmar um pouco o seu choro. — Sim. – Disse tentando parecer normal, coisa que era impossível, com a sua maquilhagem levemente borratada e os seus olhos vermelhos. – Ainda bem que acordaste. — Carina eu quero conhece-lo, quero saber o que aconteceu, eu quero que o meu filho tenha um pai. Tentei limpar o meu rosto, mas foi em vão, as lágrimas eram muito mais, do que a minha mão podia limpar. Sem poder mais esconder, a minha irmã do peito também chorava ao meu lado, ela sabia o que eu estava a sentir e os meus motivos. Então ela simplesmente abraçou-me e ali ficamos as duas, a chorar feito duas madalenas sem esperança. No dia seguinte, eu finalmente tive alta e pude conhecer a casa da minha amiga. Era uma casa simples de dois andares, mas bastante confortável, podia dizer ideal para construir uma família. Eu felizmente já conseguia caminhar, mesmo que fosse apenas alguns metros, mas foi o suficiente para chegar ao meu novo quarto sem ajuda e me atirar para a cama. Logo adormeci, já que a viagem foi bem longa e a gravidez, deixava-me mole. Acordei já tinha caído a noite e o meu estômago roncava de fome, desci as escadas e entrei na cozinha. Seguindo um cheiro delicioso e um som baixo de música, a atmosfera na cozinha era descontraída e agradável. Por isso encostei-me no batente da porta, a ouvir a minha amiga cantar baixinho, enquanto vivia um momento fofo de casal. Ela cantava e mexia-se ao som da música, enquanto vigiava o fogão e o homem ao seu lado lavava alguma loiça suja que havia. Em alguns momentos, eles trocavam sorrisos e olhares apaixonados, ou simplesmente ele a abraçava por trás. Deixando a cabeça dela repousar no seu ombro, enquanto se moviam juntos ao som da música e ele aproveitava o momento para beijar a sua testa de leve. Eles estavam tão focados no mundinho deles, que nem deram por mim e assim ficaram algum tempo, enquanto aproveitavam a presença um do outro. — Temos de ir acordar a Lena, ela precisa de comer alguma coisa, não posso deixar o meu afilhado e a minha irmãzinha passar fome. – Mesmo de costas para mim, percebi o seu sorriso enquanto mexia a panela. — Parece que não é preciso. – Disse o homem ao virar-se, para por a mesa. – Parece que a bela adormecida acordou, mas será que está com fome? — Esfomeada. – Disse recebendo um pontapé do meu pequeno, o que me provocou um sorriso. – É parece que ele também concorda. — Então senta-te, a comida já está pronta. – Disse desligando o fogão. – Fiz massa a bolonhesa, o teu prato preferido. — Humm… já estou a salivar, só de pensar. És a melhor irmã do mundo, quero um prato cheio por favor e com muito queijo. – Disse empolgada. — Já tenho preparada a tua mistura preferida, de três queijos. – Disse o Xavier, colocando um pote cheio de queijo sobre a mesa para que eu me servisse. — Eu estou no paraíso… – Disse ao comer uma grafada, fazendo com que eles se rissem da minha cara. O jantar foi agradável, muita conversa, piadas e boa comida, o que poderia querer mais. A minha amiga tinha escolhido um ótimo marido, eu só tenho...