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Abismo - Capítulo 15 - Cloe Fenix
Que declaração foi aquela? Que sentimento é este que toma o meu coração e explode dentro de mim, em mil imagens nostálgicas. Sim, eu pude me recordar um pouco do passado, do dia que nos conhecemos, do amor que vivemos. Pouco a pouco, cada uma das recordações que eu pedi, retomam para mim num sentimento caloroso, mas ainda assim distante. O que eu posso fazer, para recuperar o meu passado, a vida que eu pedi? Ser quem eu era, mas sobretudo, o que preciso de fazer para ele voltar a ser quem era? O homem amável, apaixonado e cheio de vida, sempre com um sorriso no rosto. Sempre a mimar-me de forma exagerada, me abraçando com força enquanto dormíamos, sempre me beijando quando nos cruzávamos em casa ou no escritório. Que sorria carinhosamente para mim, que me observava com orgulho e desejo… Eu quero esse Paulo de volta, quero ver o jeito que ele vai olhar para o nosso filho. Como vai cuidar dele, como o vai amar e proteger… Sinto que tudo não passa de um disparate, um simples desvaneio, quando ele desaparece da sala, logo após expulsar todos os convidados. Não sei o que raio de passa na sua cabeça, porque ele tem de ser assim. Será que se preocupa realmente comigo, ou porque estava cansado de fingir? Mais do que isso, o que ele estava a fazer com ela? Porque será que me incomoda tanto que a Rute esteja próxima dele? Ela é a sua secretária é normal que sejam próximos, pelo menos profissionalmente, mas então? Porque não consigo largar esta insegurança? Ou mesmo ignorar os sentimentos conflituosos, que tenho perto dela? — D. Marília. – Chamei-a, aproximando-me calmamente. – Desculpe por tudo, não queria que as coisas terminassem assim. — Querida, o único que tem de pedir desculpas é o meu filho. Ele foi o único que agiu errado esta noite, mesmo assim ele fez o seu papel e te entregou um lindo anel. Mesmo contrariado, escolheu algo que combina com a tua personalidade. – Fez uma pausa, olhando para a minha fina aliança. – Por mais que ele negue, sem dúvida que ainda te ama, disso eu não tenho nem uma dúvida. Agora aproveita e vai descansar, não quero o meu neto demasiado agitado e tu tens de guardar forças para o grande dia. Dito isso sorriu e se afastou para se despedir de mais alguns convidados, pedindo desculpa pelas atitudes do filho. Por vezes eu sentia pena dela, por o filho agir assim, ainda mais quando eu era a culpada de tudo. Infelizmente, por mais que tentasse remediar a situação, nada podia fazer. Era quase impossível recuperar tal memoria, mas também… não podia deixar de me sentir atormentada pela verdade, já que não sabia o que me aguardava. Afastei-me, em direção ao local que eu pensava que o Paul estaria, enquanto um outro convidado me parava para se despedi. Só estranhava o facto do Mário, não se ter despedido de mim. Alias não o via desde o pedido, o que será que deu nele, para sumir assim? — Rute? O que fazes aqui? Questionei-a, ao a encontrar na porta do escritório onde o Paulo provavelmente estava. Isto estava a se tronar cada vez mais estranho, não sei porquê… será só impressão, ou o meu sexto sentido a falar, mas eu acho que ela está a tentar roubar o meu noivo. Que o quer seduzir a todo o custo, mas porquê agora? O que a levou a esperar até ao meu regresso? O que raio anda a planear? — AH? – Pareceu meia atrapalhada, mas logo recuperou a postura. – Tinha alguns assuntos para terminar com o Paulo, mas podemos resolver na segunda. Quando ele regressar ao escritório… Enfatizou a última palavra, enquanto esfregava o lábio inferior com o dedo, como se tivesse a limpar o batom. Ela não o podia ter beijado? Não ela nem teve tempo de entrar na sala, como o podia ter tido algo com ele, a menos que se tivesse encontrado com outra pessoa, mas com quem? Entrei irritada no escritório encontrando um Paulo bêbado e distraído. Não consegui evitar descontar, tudo o que estava a sentir nele e logo tive obtive a tão esperada resposta. O motivo para tanto ódio, desprezo e confusão. Ele acreditava que eu tinha roubado a empresa, que tinha colocado o dinheiro no nome do meu amante e que ele tinha fugido com tudo abandonando-me grávida. Por isso ele que ele não acredita que o filho seja dele, que eu só voltei para o enganar, para o roubar. — Como foste capaz? Tu traíste-me, traíste a empresa, todos os que confiavam em ti. – Uma versão de um Paulo mais jovem e energético apareceu na minha frente. – Como foste capaz? E pensar que eu te defendi na frente do meu pai, que te fiz passar por pura e inocente. — O que estás a insinuar Paulo? Eu não te enganei, eu nunca faria isso, além disso nós… — Não existe mais nós, acabou Helena, acabou tudo. – Olhou-me com desprezo caminhando até a porta para a abrir. – Eu nunca mais te quero ver na minha vida, para mim és passado e acabado. Nem o dinheiro que tocou nas tuas mãos quero voltar a ver, nada que seja teu, nada que me ligue a ti. — Paulo tens de me ouvir. Tentei desesperadamente suplicar, como ele podia pensar tal coisa de mim? Eu não o reconheço mais, ele nunca me julgou por nada, porque agora? Porque assim? E ainda me acusar de ladra? Quando eu nunca roubei nada, nem um doce quando era criança. — Por favor Paulo, tens de perceber que é tudo um engano, que não sou capaz… — Tu não me enganas, nunca mais vais me enganar na vida. Agora desaparece daqui e não te esqueças de levar tudo o que é teu o meu apartamento. Não quero tua, nem uma simples lembrança, muito menos o teu cheiro. — Ahhhhhh… As imagens sumiram da minha mente, sendo substituídas por uma dor aguda no meu ventre. Um líquido quente, escorreu pela minha perna, deixando-me ainda mais desesperada. O meu filho estava em risco, a minha vida podia estar em perigo, era por isso que eu temia a verdade. Que tinha medo de cair do precipício e perder tudo, o que eu tinha de mais precioso. — Helena? O que se passa Helena? – Perguntou a minha sogra aflita, agachando-se ao meu lado. — Ahhhhh… doí… doí…o meu filho… eu não quero perder o meu filho… Choraminguei dobrando-me sobre a minha barriga, enquanto sentia as minhas pernas fraquejar. Levantei um pouco o meu vestido, o meu vestido vendo que a barra do mesmo estava ensopada em um líquido qualquer. — A bolsa estourou. Oh meu Deus a bolsa estourou, o meu neto vai nascer… Falou meio em pânico, meio empolgada, enquanto mais pessoas chegavam ao escritório, atraídas pelos meus gritos. Que agora trabalhavam, para me levar ao hospital o mais rápido possível. — O que se passa aqui? Estás bem Helena? – Perguntou o Mário aproximando-se de mim. – O que tu lhe fizeste Paulo? Não achas que já a magoaste o suficiente? Tu… — Mário, chega. – Chamei-o parando-o. – Esse assunto é meu e do Paulo, agora por favor, levam-me para o hospital. Ahhhh Gemi mais uma vez com dores, quando veia um frio de sangue a escorrer pela minha perna. Rapidamente a minha sogra aparou-me, chamando de seguida o Paulo para o fazer, mas mais uma vez ele nem se mexeu. — Eu ia te contar sobre o Martin. – Disse enquanto era pegada ao colo, pelo Mário. – Eu soube que estava grávida naquele dia, estava tão feliz que marquei uma consulta na mesma hora para confirmar. Só que quando… ahhh… só que… tu acusaste-me de roubo. Ainda tentei te contar, mas tu já tinhas a cabeça feita e ignoraste-me por completo. Posso só ter recuperado a memória agora, mas eu nunca te traí, muito menos te roubei. — Roubar? Que conversa é essa? – Perguntou a D. Marília. — Não é altura para conversas, temos de levar a Helena para o hospital. – Interrompeu o Mário. – E tu vais também e podes começar por levar a tua mulher para o carro. Eu vou buscar a mala da maternidade. Dito isto passou-me para os braços do Paulo e saiu apressado, sendo acompanhado pelas restantes pessoas que lá estavam. Apenas o Paulo ficou no mesmo sítio, como se não soubesse o que fazer ou para onde me levar. No entanto, estar no seu colo foi uma sensação reconfortante, quase como se estivesse numa quente cama de algodão. Agarrei na sua camisa e abafei um gemido no seu pescoço, sentindo as lágrimas banhar o meu rosto. Porque tudo tinha de ser assim? Porque o meu filho corre riscos e o seu pai não estar feliz pelo seu nascimento? — Eu te amo. – Sussurrei, sentindo-me fraca. – Eu sempre te amei, tanto que nunca te trairia, nem que a minha vida dependesse disso. Foi tudo o que consegui dizer, antes de tudo escurecer. Só esperava, que esse não fosse um adeus. ֍CF֍ Se eu achava que o dia ia ser difícil, eu não podia estar mais enganado, ele está a ser um verdadeiro inferno. Primeiro o pedido de casamento, depois o confronto e agora ela esta desmaiada nos meus braços, logo depois de dizer que me amava. Será que eu estava enganado? Que a culpei por algo, que ela não fez? Mas então… como… — PAULO… PAULO ONDE ESTÁS? Temos de levar a Helena para o hospital. – Disso o meu amigo, aparecendo novamente na porta. – O que raio estás tu a fazer, aí especado? Perguntou fazendo-me acordar do meu franze, enquanto sentia pela primeira vez o meu braço a ficar molhado. Olhei para o seu colo, apercebendo-me que o seu vestido bege, estava pouco a pouco a ser tingido de vermelho e entrei em pânico. Nem senti quando dei o primeiro passo, muito menos quando comecei a correr até ao carro. Quanto tempo durou a viagens ou quando ela foi tirada dos meus braços, sendo levada para além das portas automáticas. Eu não ouvia nada, muito menos eu sentia alguém. Não ouvi quando o Mário foi chamado para doar o seu sangue para ela, nem quando o nascimento do meu filho foi anunciado. Eu apenas fiquei parado no tempo, desejando voltar ao passado e retomar o meu presente. Feliz, genuíno, de aliança no dedo e um bebé no meu colo, chorando por atenção. Infelizmente esse não era o destino que conquistei e a culpa por um possível engano, estava-me a matar por dentro. Levantei-me do meu assento, em modo automático, sem perceber que estava a ser arrastado pela minha família para o berçário, muito menos me apercebi que me tinham colocado um pequeno ser nos meus braços. A minha pequena bolha apenas explodir, com o som estridente do pequeno a pedir atenção, que logo se calou quando eu o olhei pela primeira vez. Foi apenas em um instante, que eu aprendi pela segunda vez na minha vida, o que é amor à primeira vista. E ainda temi, como eu nunca tinha temido nada na minha vida, que ela o levasse embora. — Meu filho se tinhas dúvida sobre a paternidade desta criança, então hoje elas terminaram. – Sorriu para mim, acariciando de leve a cabeça do menino. – Ele é a tua cara, os mesmos traços, o mesmo jeito preguiçoso e sonolento de bebé. — Acha mesmo isso mãe? — Não tenho dúvida alguma meu filho, uma mãe não se esquece da primeira vez que vê a sua cria. É amor para toda a vida, mesmo que um dia eles num desiludam e nos façam questionar, o que fizemos de mal na sua educação. Olhei mais uma vez para o pequeno, envergonhado pelas palavras da minha mãe. Ela tinha razão, era amor à primeira vista e hoje eu...