Você tinha só quatorze anos, quando o seu pai chegou mais uma noite bêbado em casa; quebrando todos os móveis, gritando por todos os quartos com o insuportável hálito de álcool, olhando para os seus inocentes olhos negros, enquanto segurava, com violência, as golas da sua camiseta amarela e implementava demônios na sua cabeça. Aquelas palavras começaram a criar raízes, por toda a sua casa, perseguindo você por todos os cômodos, amaldiçoando a sua vida, aonde quer que ela estivesse. Às vezes, na tentativa de diminuir o sofrimento, os seus joelhos se ajoelhavam no assoalho do seu quarto, e você, em silêncio, pedia para Deus que o seu pai morresse. Mais uma noite com pesadelos, mais hematomas pelo corpo da sua mãe, mais fúria incessante no seu coração, mais tapas no seu rosto, mais medos, mais socos na sua costela, mais coragem crescente, mais palavras penetrando em sua cabeça. A primeira vez que eu te vi, prometi para mim mesmo, que jamais deixaria de olhar para os seus grandes olhos tristes. Você e eu conversávamos por códigos, eu ainda tenho todos os doces sorrisos daquele campo ensolarado. A vida inteira você foi ensinado a arrancar as flores da terra, mas, a primeira coisa que você fez quando me viu; foi colocar sementes no fundo do meu ser. O passado é algo que não conseguimos tirar da nossa cabeça e existem coisas que nunca mais vão embora. Mas, toda vez que você me tocar, eu quero que se sinta curado. Seus lábios nos meus; mais uma cura. Seus braços nos meus: mais uma cura. Seus olhos nos meus: mais uma cura. Suas mãos nas minhas: mais uma cura. Nossas almas em conjunto: mais uma cura. Nada pode ser desfeito e chorar não resolve as coisas, então, por favor, siga em frente como um soldado de guerra. Diga o seu próprio nome em voz alta e não tenha medo disso. Ame o máximo que o seu coração puder e se orgulhe dele pulsando.
E, lembre-se, sempre que estiver com medo… saiba que juntos, nós estamos colocando fogos em nossas antigas casas, e estamos rindo ao vê-las queimar.