Você deveria voltar e enxugar as minhas lágrimas. Tirar esse peso dos meus ombros e esse sentimento de culpa do meu peito. Levar os seus cigarros e as cinzas desse sentimentalismo barato que você alimentou durante todo esse tempo. Porque você não vai dizer que houve sentimento. Você não vai dizer que foi amor ao próximo cara que aparecer para dividir a cama ou a vida com você. Não vai dizer que foi amor mesmo que não apareça ninguém e você tenha certeza disso. Eu te dei o lado direito da cama e o esquerdo do peito. Te dei metade da tv, da geladeira, da cômoda, da sacada, do box do banheiro, da pia do banheiro e da cozinha. Você me deu meio sorriso e eu passei a acreditar que éramos metades. Passei a acreditar nesse clichê todo e nesses romances bobos que você vive lendo. Passei a acreditar que pela primeira vez na vida, eu não estava em um barco sozinho, sendo levado pela correnteza. Pela primeira vez eu estava me doando sem me sentir menor por isso. E você partiu. E eu troquei o colchão, os lençóis, o travesseiro e o seu cheiro continua lá. Continua impregnado na minha cama, no meu nariz, nas paredes e em todas as minhas roupas. Esse cheiro de passado que me embrulha o estômago. Esse teatrinho de que superei você me dá náuseas. E o que ficou, eu só queria colocar pra fora, como faço quando como algo que não me fez bem, mas que na hora matou a minha fome. Você matou a minha fome de tentar ser algo, e agora eu só queria vomitar tudo isso. Colocar para fora da forma mais repugnante. Porque o amor às vezes consegue ser assim… nojento, asqueroso - e todos sinônimos possíveis - e o corpo parece querer expulsá-lo a todo momento. Cada pedacinho. Cada pedacinho dele que você matou quando juntou os seus e foi embora. Você conseguiu negar que foi amor, eu não.