zona-sul

Saí de casa as 8 da manhã claramente ótimo para os meus 36: carro alto e emprego na zona sul. Largando os privilégios do luxo, entrei num ônibus público. Os homens se achavam tão elegantes com suas barbas salpicadas que me sentia posudo por ter passado um dia sem retocar as bordas da minha. “Obrigado, Deus!” gritou um tirando do bolso xadrez rasgado um resto de dentadura. A baba escorreu no saco acomodado no colo dele. Duas paradas depois, uma senhora vendendo muamba entrou cantando Elis Regina e eu não sabia se sentia pena ou paralisava. Acho que vou voltar a ser pobre. A miséria é lírica.
—  Sued Nunes, A pobreza veste paletó.

eu disse que eu vou continuar procurando alguém interessante nas ruas da lapa, nas esquinas da zona sul, quando eu sair no baixo gávea, quando eu beber um pouco depois da faculdade. eu disse que vou seguir em frente, supostamente dar meus pulos, não me envolver muito, me apaixonar cada vez que vir alguém bonito no ônibus. mas, pra ser honesta, faz tempo que eu sigo em frente e é puta cansativo. eu já achei alguém, ok? alguém que pode ver quadros do manet e chorar vendo senhor dos anéis comigo. alguém que ri quando eu faço piadas escrotas e que não pega pilha com a minha mania de reclamar de absolutamente tudo. eu achei. e eu não vou fugir disso só porque não é recíproco. eu tô aqui, não tô? não é uma despedida ou um ultimato. só queria dizer que faz muito tempo que eu não tenho vontade de ficar em lugar nenhum, mas contigo eu sinto. e permaneço. e não é eterno e eu também não vejo prazo. só não quero estipular limites agora. quero sentir até se desmanchar. porque eu amo ter encontrado isso contigo. e enfim, eu precisava dizer isso.