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Dear Father.

“eu sempre quis o melhor para você, eu, eu rezei pela sua paz, mesmo que você tenha começado toda essa guerra em mim”

  • Ouça “Father” da Demi Lovato. [A Q U I]
  • a história é TOTALMENTE INDEPENDENTE,  não tem nada haver com a cantora e o convívio com seu pai. É tudo meramente FÍCTÍCIO. 

O toque incessante do celular, fez com que S/N se levantasse da cama e caminhasse até a sala, o toque cessou e sua voz calma e serena o chamou. Durante alguns minutos eu não ouvi sua voz, mas esses minutos se tornaram em muuuuuitos minutos e fizeram meus olhos se abrirem definitivamente. A sala estava toda escura e nenhum sinal dela por ali, acendi a luz e um montinho soluçante estava instalado no chão. Passei meus braços por sua cintura a levantando do chão, e fazendo ela se abraçar ao meu corpo. Ela chorava de forma sinuosa e descontrolada, seu corpo todo tremia e não respondia a nenhuma de minhas perguntas. Me sentei no sofá e a puxei para meu colo, fazendo ela me encarar.

– O que você tem? – sussurrei baixinho permitindo que ela olhasse atentamente para meus lábios enquanto eu perguntava – Quem foi que ligou?

– Mamãe – resmungou baixinho, sem forças e com medo do que ela estava falando. – Foi o papai, ele, ele não aguentou Zayn, ele não aguentou e..

– Diga amor – resmunguei baixinho e segurei sua mão que estava em meu peito nu e a beijei – Você tem de dizer, não guarde pra si.

– Ele morreu, Zayn – confessou baixinho e desatou a chorar novamente. – O coração dele parou, ele, Jesus…

Não conseguiria dizer quanto tempo nós ficamos ali na sala, ela estava desolada e eu não conseguia achar uma maneira de fazê-la parar. Fazê-la parar de se culpar. Agora com ela deitada ao meu lado, respirando serenamente e com as pálpebras pesadas e de algum modo conturbados, eu conseguia ter um minuto para poder pensar. O que eu faria depois disso tudo. Dei um beijo em sua testa e me virei para abraçar seu corpo de lado. Se ajeitou em meu abraço e deixou que seus lábios descansassem em meu pescoço, apertou o beijo mordendo minha pele e a puxando. Sua mão desceu de meu abdômen pra barra da minha calça adentrando minha boxer e tocando minha virilha. Droga.

– Amor – chamei ela, sentindo sua mão adentrar mais ainda meu moletom. – S/N, por Deus, amor.

– Ugh – gemeu baixinho e seus lábios tocaram os meus, procurando por consolo. Isso era tão errado. Sua mão em minha boxer se apertou contra meu membro e eu a repreendi, distanciando meus lábios dos seus e tirando suas mãos da minha boxer. Seus olhinhos me encararam confusos e magoados.

– Nos não podemos, meu amor – resmunguei enquanto ela se sentava na cama e eu a seguia, a abraçando enquanto deixava com que ela deitasse corpo em meu peito. – Você só está tentando se esquecer. Vem, eu vou ficar com você aqui o quanto precisar.

No dia seguinte, quando eu por fim acordei do pequeno cochilo que havia tirado, o barulho do chuveiro me indicou onde ela estava e eu desci até a cozinha, preparando o café. Meu corpo estava todo dolorido e eu sabia que nada iria aliviar hoje. Nós teríamos de ir no velório do pai de S/N e isso não iria acalmar as coisas, eu podia estar sendo insensível e egoísta, mas vê-la tão mal assim, desde que soube que ele estava com uma doença terminal, estava me matando aos poucos. Durante muitas noites eu a ouvi orando e dizendo o quanto tudo que estava acontecendo era sua culpa, que se ela não tivesse dado tanto desgosto ao pai ele estaria melhor agora, às vezes ela implorava para que Deus desse a ele uma segunda chance, mas logo ela O agradecia e começava a chorar, nunca notou que eu a observava quando fazia essas coisas, ela não me permitiria. Seu corpo entrou na cozinha e ao me ver, se encolheu abaixando o rosto, eu devia saber que ela estaria envergonhada hoje. Caminhei até ela é a envolvi em meu abraço, por baixo de seu robe eu sentia o calor de sua pele e sua respiração derrotada.

– Ei – sussurrei em seus lábios e a selei demoradamente.

– Me desculpa – murmurou e deitou seu rosto em meu pescoço, passei a mão sobre suas costas e ela se afastou, me observando prestes a dizer algo

– Eu fiz café, vou tomar um banho e nos – enquanto ela colocava o café, senti minhas palavras falharem. Como podia ser tão vulnerável? Era normalmente uma mulher forte e decidida, estava tão abalada que mal forças pra falar ela tinha. – Eu vou cuidar de você. – murmurei baixinho – Eu vou cuidar de você. 


Debaixo do casaco de lã que ela usava, minhas mãos tocavam sua pele e a faziam suspirar mais forte. Tínhamos acabado de chegar e ela estava ponderando os prós e os contras de ir ver o corpo do pai. Se afastou do meu corpo e caminhou até ele, seu corpo se curvou perto do túmulo já coberto pela terra e com alguns flores e coroas de flores sobre ele. Perto de sua lápide uma foto de quando servia o exército, como podia ter feito tanto mal a ela? como podia ter sido um crápula e a condenado a tudo isso. Me aproximei dela e a pude ouvir, e tudo que ela dizia quebrava mais um pouquinho meu coração, por coisas que eu já sabia e coisas que eu não sabia.

– Eu só queria dizer obrigada. – murmurou baixinho e interrompeu, se permitindo chorar – Mesmo que toda essa guerra dentro de mim seja sua culpa. Eu quero dizer isso com todas as minha certezas. Eu sei, eu sei que você não teve a chance de mostrar o seu melhor – resmungou puxando uns matinhos perto de seu joelho – Eu espero que Deus esteja te dando uma segunda chance. Você era um homem com tantos problemas, nunca pode ser o seu melhor. – sussurrou e cerrou as mãos em punho – Muitas vezes eu te odiei e me desculpe por dizer isso, mas você me machucou tanto. Na maioria das vezes, era melhor quando você me batia até eu não sentir mais, por que quando você me magoava com palavras, eu queria que você morresse, eu queria que você me matasse ao invés de dizer essas coisas.

Fechei meus olhos e senti as lágrimas rolando sobre minhas bochechas, queria ir até ela, queria abraçá-la e dizer coisas confortáveis, mas o que?

Eu orei tanto por sua paz, mas com tudo que você fez comigo, eu acho que não vai ser possível – continuou e jogou a rosa que estava em suas mãos perto do retrato dele – Eu nunca deixei de te amar, mas nunca pude te admirar, não com tanto mal, papai. Você se lembra das noites que você bebia? e então fazia coisas horríveis comigo, e eu nem sequer sabia o porque, você me dizia coisas, me batia e fazia eu sentir nojo de mim mesma e eu não sabia porque eu era merecedora de tudo aquilo. Ei papai – murmurou e suas unhas se cravavam na palma de sua mão – Eu era sua filha ou um prêmio de caridade? Todos esses anos eu tentei te ajudar, achar um pouco de amor em você, e tudo que consegui foi suas mãos egoístas em mim. Não podia deixar a garrafa pro lado pelo amor de uma filha? Não se lembra que eu sou sua garotinha – sua voz tinha raiva e ela apertava mais ainda suas unhas contra a palma de sua mão, me aproximei dela com cuidado – Eu não tive culpa de nada. COMO VOCÊ PODE ME TIRAR DE SEU MUNDO DESSE JEITO?

– S/N… – sussurrei baixinho me ajoelhando ao seu lado

– Me manipulando depois de tantos “Eu te amo” e começou a soar como uma mentira. – cuspiu as palavras com força e nojo do falecido a sua frente, passei meus braços em sua cintura – Me fez viver com medo do amor. Eu te odiei tanto, por isso papai.

– Vamos embora, meu amor – murmurei e ela assentiu se abraçando a mim e desabando.

Ficamos um tempinho apenas sentados no carro, eu a abracei e deixei com que dissesse as coisas que lhe vinham a cabeça. Na recepção na casa da mãe dela, S/N apenas passou e conversou por um tempo com a mãe, disse que não estava bem e nós fomos embora. Não conversou com ninguém, eram poucas excessões. Em casa ela já estava mais calma, se permitiu sorrir pra mim enquanto tirava os tênis. Ela tomou um banho e ficou brincando com os cabelos enquanto me esperava para me deitar. Logo após sair do banheiro e me vestir, desci até a cozinha e fiz alguma coisa para ela comer. Seu corpo estava fraco, mas dizer aquelas coisas provavelmente a libertou de alguma coisa no passado, tirou um enorme peso de seu peito. Tirei a bandeijinha de seu colo e coloquei sobre o criado-mudo, agora me deitando perto de seu corpo e dando um beijinho em seu ombro desnudo.

– S/N – sussurrei baixinho e peguei em sua mão, os furinhos das unhas estavam ali, e uma vermelhidão também se apresentava ali – Eu nunca percebi que você fazia isso.

– Não faço mais – murmurou baixinho, me deixando ouvir sua voz depois de várias horas. – Eu costumava fazer quando tinha vontade de gritar ou chorar, mas não podia.

– Você nunca mais vai fazer isso, tudo bem?

– Ew, eu acho que sim – resmungou baixinho – Esqueça de tudo que você ouviu, eu não quero mais pensar nisso. Eu só não pude segurar, tudo bem?

– Eu tenho medo de que se souber de coisas, comece a sentir algo bruto – murmurei e ela sorriu, como podia. Era o sorriso mais lindo que eu podia ver. – Mas se você sentir, escute bem meu amor, se você se sentir sufocada por isso, eu quero que converse comigo mesmo que eu não possa fazer nada.

– Eu prometo – murmurou baixinho e seus lábios se formaram em um lindo sorriso. Seus dedos estavam sobre minha nuca e puxavam a raiz de meu cabelo, como uma criança faz com a mãe.

Tive tanto medo de que não pudesse vê-la sorrindo mais uma vez, medo de que toda a esperança fosse perdida, mas no meio de tanto escuridão e maldade, ela conseguiu achar algo que em muito tempo estava perdido. Ela achou seus próprios sentimentos. Se libertou da sua raiva e magoa. Ela se mostrou mais forte que um dia eu pude imaginar.