walbers

No quinto andar espiava quem passava. Via um palhaço decadente de avenida urbana fazendo malabarismo no sinal com quatro laranjas e um limão. Na certa faltavam laranjas para o espetáculo completo. Um vendedor nordestino gritava empurrando sua carroça com cacarecos. Uma mulher apressada com muitas sacolas entrava em um carro estacionado, mas com o pisca alerta desligado, infligindo qualquer lei de trânsito ou do bom senso. Um homem de óculos que comprava cachorro quente e manchava a camisa azul, aparentemente nova, de molho especial para cachorro quente da carrocinha do Walber. Uma criança tomando sorvete, depois comendo a casquinha. Um ônibus lotado de estudante com marca da prefeitura municipal e adesivo de “como estou dirigindo hoje?” cortava um caminhão pela direita. Na cozinha, meu café esfriava e a torradeira trabalhava para me dar pães quentinhos e café fresco só para uma pessoa, pois morava sozinho e minha diversão, como a de muitos, era inventar a vida dos outros da varanda do meu apartamento. Isso era uma segunda, na terça faria a mesma coisa e na quarta, repetiria. Esse negócio de vigiar o vizinho vicia, de ver desconhecidos também, de julgar cada um deles, deduzir suas vidas sem o menor pudor de estar errado no mais das vezes. Tudo é uma doença que metade do mundo, inclusive eu, conhece muito bem. Arte dominada. Ninguém pensa que o decadente de hoje pode ser o palhaço malabarista do sinal da sua própria avenida. Se percebesse, não ligaria. Não importa o amanhã, nem o depois de amanhã, nem o próximo. Os livros de autoajuda só falam do hoje. Viva o hoje, olhe para o hoje, faça o bem hoje. Isso sim, hoje, mas para o amanhã. No quinto andar espiava o que se passava na rua, do décimo, o espiavam os outros. Porque há olhos atentos e línguas ferinas por toda parte. Gente pequena precisando da atenção de mentes vazias.
—  Theu Souza