vovó

Me lembro até hoje do último beijo que dei na minha vó. Ela estava lá naquela cama, tão frágil, já sem forças até pra falar. Só lhe dei um beijo na testa e me despedi. No dia seguinte, minha mãe me ligou e lembro que ela disse algo como: “aconteceu o que a gente já esperava”. Assim que desliguei o telefone, respirei fundo e passou todo um filme na minha cabeça, dos meus 3 ou 4 anos, até o último adeus. Confesso que eu não chorei, não consegui. Eram tantas lembranças boas e divertidas, que eu nem tive tempo pra chorar. Hoje em dia eu choro, mas não é um choro de tristeza, é só um choro de saudade, uma saudade boa, uma saudade que nunca vai acabar. Se eu soubesse que seria a última vez, teria dito o quanto a amo, ou só teria lhe dado um abraço bom. Ah, vovó! E que falta eu sinto do seu abraço, do seu cheiro, de brigar comigo por eu comer pouco… É, hoje me deu saudade. Hoje me deu muita saudade.
—  Maria Luiza

E nada que eu diga ou escreva vai expressar nem um pouco do que eu sinto nesse momento… Você conseguiu vó, você foi pra glória… Venceu todas as tribulações, você foi forte enquanto pôde e lutou até o último minuto… Quem me dera ter pelo menos um pouco dessa sua alegria e coragem, quem me dera ter a capacidade de enfrentar todos os problemas com um sorriso no rosto e sempre dizendo que tudo ia acabar bem… Você não sabe a falta que me faz e vai fazer… Você não tem noção do quanto eu te amo… Agora quem vai sentar comigo só pra bater papo na sala ou na cama, quando você não podia levantar? Quem vai me apoiar em tudo dizendo “vai dar tudo certo, eu confio em você.”? Quem vai me ajudar em tudo? Você acreditou em mim quando ninguém mais acreditou… Eu devo à você tudo o que sou hoje… Você construiu meu caráter e tudo o que eu sou hoje… Com você aprendi o certo e o errado… Você me amou até mesmo quando eu te decepcionava… Era no seu colo que eu ia deitar quando brigava com alguém… Você era uma das poucas pessoas que me via chorar e sabia exatamente o que estava sentindo sem eu nem dizer… Eu amava deitar no seu colo e ficar escutando as batidas do seu coração… Eu temia muito por esse dia, o dia que você me deixaria… Você sempre dizia que eu devia estar preparada, mas há como se preparar? Não existe jeito de eu ficar bem, você se foi e levou contigo um pedaço imenso de mim, um pedaço que nunca irá se reconstituir… Eu sonhava em ver você na minha formatura, no meu casamento, olhando meus filhos, seus bisnetos… Mas sei que onde você estiver, estará sempre comigo… Aah Vó, é impossível pra mim acreditar que nunca mais vou sentir seu abraço, seu cheiro, nunca mais vou ver você, escutar sua voz, até seus sermões… Eu sinto um buraco dentro de mim… É como se eu tivesse ido com você… Você ficou comigo durante todos os meus 16 anos, 16 anos esses que eu morei com você, nunca te deixei, não conseguiria… Acho que por isso minha dor é imensa assim… Porque você era mais que uma avó, você era uma mãe pra mim… Mas Deus quis assim… Ele te levou… E você foi firme Nele enquanto esteve aqui, foi firme Nele durante toda a doença… Foi forte, confiando que Ele tinha preparado o melhor pra você, e Ele o fez, cuidou de você, esteve contigo, te amou e te levou pra junto Dele… Tenho certeza que você será feliz, e espero ansiosa por te encontrar de novo ao lado Dele… Eu te amo, amo muito, amo mais que tudo, amo, amo, amo, amo, amo, amo, amo, amo. E não importa quantas lágrimas eu derrame, terão que ser todas de felicidade, felicidade por saber que você não está mais sofrendo e que está feliz… Mais uma vez: eu te amo. Saudade é uma palavra que não chega nem aos pés do que eu sinto e sentirei pro resto da vida… Eu te amo minha avó…



Nanã Buruquê 

“Salve Nanã, Salve Senhora das Águas..
Salve Nanã que já chegou de Aruanda.
Salve Nanã na sua força e bondade.
Salve Nanã Cacurucaia de Umbanda.”


Sincretizada a Santana, a avó de Jesus Cristo é um dos Orixás menos conhecidos e evocados na Umbanda.
Nossos irmãos africanos explicam que Nanã é um Orixá feminino já avó. Conhecida como a mais velha das deusas do mar, Nanã chefia a falange das ondinas da linha de Iemanjá. Seus domínios são os rios e ribeirões e o ponto de contato entre as águas do mar e a terra, local que chamamos de mangue.
Considerada avó dos Orixás.

Nanã é protetora nas situações tormentosas e nas perseguições kármicas e tem grande atuação sobre as mulheres já avós, embora isso não seja uma regra.
A cor de Nanã é o roxo e o lilás. Nas obrigações são usadas velas roxas/lilás ou brancas, flores brancas ou roxas/lilás e a sua bebida também é água pura. Conhecida no meio umbandista como a senhora da lei e da firmeza, a ela recorrem todos os que estão em dúvidas nas situações tormentosas da vida.

É considerada um dos Orixás mais exigentes na escolha de seus filhos. Embora transmita o exemplo da mãe, procura associar-se mais com a posição reservada aos idosos em qualquer sociedade, por esse motivo na Umbanda são raras as filhas de Nanã. E mais raros ainda os filhos (homens), porém, existem.

A capacidade que Nanã tem de amparar as pessoas nas situações de grande tormento, faz dela um Orixá de grande força, sendo respeitadíssima na Umbanda.

Ela é Mãe de Iansã, Obaluaê/Omulu, Ossãe, Oxumarê..

Seus filhos:
 São pessoas com uma capacidade extrema de entendimento e compreensão com as falhas humanas e por causa disso perdoam e consolam aos que erram com grande facilidade. Vivem voltados para o bem estar da comunidade sempre fazendo o possível para atender as vontades e necessidades de todos.

O filho de Nanã sempre parece ser muito mais velho do que realmente é. É um conservador por natureza e sente com freqüência saudades de um tempo que não viveu sempre achando que as coisas no passado eram bem melhores e, assim, sente-se distanciado da modernidade em que vive.

Às vezes carinhosos até em excesso, se tornam também ranzinzas, preocupados em demasia com detalhes e têm uma forte tendência a criticar tudo e todos.

Saluba Nanã!

Ei, vó, por que a vida é assim? Olha só pra o mundo: nada mais é como antes. Por que eu estou desse jeito? Não tenho sequer vinte anos, mas parece que já vivi uma vida inteira de tanto cansaço e peso que trago nos ombros. Ah, vovó, por que as coisas são tão complicadas? Por que a insônia surge justamente quando tudo está escuro e quando mais preciso descansar? Por que os pensamentos vêm de forma avassaladora durante a madrugada, quando todos os monstros e demônios podem vir me atacar? Eu sei, vó, eu sei. É pergunta demais, é dúvida demais. Mas fazer o quê?! Sabe, vó, eu tenho tanto medo do mundo. Lá fora é tudo tão grande, tão imenso. São tantos caminhos a serem escolhidos, tantas possibilidades de acertos… E mais ainda de erros. Tem tanta gente lá fora, vó. A maior parte deles são gigantes que querem pisar na gente, sabe? Gente sem escrúpulos, que acredita nessa historinha antiga de “ser melhor”. Ah, vó, quando eu era pequena até tentaram colocar isso na minha cabecinha de criança. Mas não deu muito certo, a senhora bem sabe disso. Nunca fui de aceitar as coisas facilmente. Até hoje não entendo porque as coisas são assim: pouca gente com tanto e tanta gente com pouco. A fome na África me assusta, vó. Por que tanta gente morre por falta de alimento, vó?! Como pode isso?! Crianças, adultos, idosos à mercê do capitalismo, com seus braços esguios e seus estômagos vazios. Ai, ai… Por que as pessoas são assim, hein? Competitivas. Capazes de qualquer coisa para conquistarem seus objetivos. Astutas, sagazes. Todo dia, vó, quando eu volto da escola, eu vejo uma fila de carros invadindo as ruas. Um misto de luz dos faróis, com buzinas, com as lâmpadas dos postes e toda a imensidão dos prédios e apartamentos que imperam sobre a cidade. Ninguém tem mais tempo pra nada: correm sem destino, aceleram os motores e o ritmo da vida como se nada mais importasse. Pessoas espremidas nos ônibus e outros transportes coletivos, lotados de corações sedentos por uma parada pra respirar. Enquanto muitos estão ali, presos à essa rotina frívola e sem sentido, eu vejo mendigos pedindo dinheiro nos sinais de trânsito. Vejo crianças tentando sobreviver a qualquer custo, com suas roupas desgastadas e seus olhares vazios, à procura de uma referência nisso que a gente chama de mundo. A vida me assusta, vovó. As fotografias da bomba de Hiroshima me petrificam de tanto temor. Os registros sobre o Holocausto me enchem os olhos de lágrimas ao saber que milhões foram mortos por nada. Me explica, vó, como pode um só homem condenar tanta gente ao fim?! Eu não sei, eu não sei… Afinal das contas, por que a gente tá aqui? E aqueles que não estão, por que se foram? Por que tantas mulheres matam os seus filhos sem que eles sequer vejam a luz? Não são também seres humanos, vovó? Ou a gente só é gente de verdade depois dos dezoito? Eu não tenho sequer vinte anos, mas já vi tanta coisa nessa vida. Todos falam de aquecimento global, seca, assassinatos, estupros, corrupção… Não tem uma notícia boa pra acalmar a alma. Não tem quem dê um sorriso sincero no elevador. Não entendo porque deixo um pedaço meu em cada lugar ou em cada pessoa. Não sei porquê eu sou assim, vó. A primavera árabe me dá um pouco de esperança, sabe? Talvez o mundo ainda tenha algo que preste. Onde já se viu alguém achar que pode controlar os desejos de outrem? Não, não… Isso não entra na minha mente. Talvez ainda tenhamos um pouco de forças pra lutar contra essa ditadura disfarçada de democracia, e, às vezes, nua e crua, exposta e estampada nas manchetes dos jornais do mundo inteiro. Mas me diz, vó, por que tem tanta religião por aí e tão pouca fé na própria humanidade? É tanto deus, é tanto Alá, tanta igreja e tão pouco amor. Por que a gente tem tanta pressa? Queria parar um pouco e esfriar a cabeça. Eu posso completar vinte, trinta, quarenta anos, vó, mas nunca vou conseguir compreender essas coisas todas. Faz assim, vó. Volta. Por favor, volta. Entra, de mansinho, no meu quarto. Me prepara uma xícara de achocolatado. Me deixa dormir no teu colo e só me chama quando tudo tiver voltado ao normal. Acaricia meus cabelos. Canta pra mim aquela canção de 1999.
—  Marina (florescer)
É triste quando Deus tira aquelas pessoas que a gente tanto ama das nossas vidas. Passar os dias só vivendo de lembranças não é nada fácil. De repente você está sorrindo, quando lembra de algum momento, a lágrima escorre. É tão complicado conviver com uma pessoa durante anos ou meses e de repente quando olha para o lado, cadê? Mamãe sempre diz para eu não chorar, porque aonde eles estiverem estão olhando, cuidando e me protegendo. Assim eu espero, porque o coração fica tão apertado. Um dia espero que posso reencontrar aqueles que já se foram…
—  Juliete Vergatti.