vila sol

VII – Capitulo

- Sim – ela respondeu sem jeito com um olhar de desconfiança.

- Mano… – comecei, mas não sabia como terminar.

Sim, era ela, a menina que me despedi 17 anos atrás, que eu nunca pensei que viria novamente, ultima lembrança que tenho dela era baixinha com os cabelos negros e um olhar triste. Agora estava ali, deslumbrante, uma loira de tirar o folego de qualquer pessoa, seus traços mudaram bastante, eu nunca iria reconhecer. Agora com os braços cobertos de tatuagem, os peitos fartos, a única coisa que não mudou que reconheci de certa forma era o olhar, ele continua o mesmo só que muito mais alegre do que antes.

- Vanessa o que foi? Cê tá me assustando. – ela pegou meu braço.

- Você d-disse que não mora em São Paulo, certo? – perguntei

- Sim, eu moro nos estados unidos, me mudei quando tinha-

- Nove anos! – falei junto com ela

Bom se ainda havia uma certa duvida, agora era tudo obvio, botei a mão no rosto não acreditando que ela estava de volta, como podia? Depois de todos esses anos sem contato, eu nunca esperava um retorno, nem lembrava, agora com apenas duas palavras, ela trouxe tudo de volta…

- Van…Peraí , você… – ela começou depois balançou a cabeça tentando clarear os pensamentos.

- Você também lembra? – perguntei

- Caralho mano, eu nem, eu nem acredito nisso. – ela levantou o rosto para me olhar – É você mesmo?

Puxei ela para um abraço forte, se eu pudesse paralisava o tempo, voltava e buscava a imagem do ultimo abraço para coloca-la ao lado dessa, era uma mistura de sentimentos, saudade magoa, e agora mais as coisas que senti quando a vi apenas como uma estranha. O que não cabia em mim no momento, pensar que Clara era minha melhor amiga, a pessoa pela qual eu sofri e fiz tratamento boa parte de minha infância, um trauma, que agora estava ali, parecia que só seu abraço poderia remover tudo de mim. Me senti como uma criança mesmo naquele momento, engoli o choro ao pensar que…sei lá que realmente era a Clara.

- Alguém pode me explicar? – Edu observava a cena com um copo na mão e a outra amiga do lado também com uma cara esquisita.

- Nós éramos amigas de infância, ante de eu me mudar para a Califórnia. – Clara disse me olhando com um sorriso

- Porra mano! Um reencontro, isso requer uma comemoração. – falou levantando o copo.

- Claro. Mas não com bebedeira.  – disse – Devíamos dar uma volta. – depois olhou pra mim.

- Agora? – perguntei

- Sim! – falou rapidamente – Você tá de carro?

- Não eu vim com meu amigo, no carro dele. – respondi

- Então vamos, e eu largo você em casa depois. O que acha?

Assenti e ela sorriu. – Mas antes tenho que avisar Erick. Prometi voltar com ele. – na verdade eu havia prometido varias coisas naquela noite inclusive voltar cedo para casa, pois eu tinha trabalho na segunda.

Entrei no Bar procurando Erick , agora estava mais vazio então não tive muita dificuldade para encontra-lo estava na fila esperando para comprar outra bebida. Me aproximei dele e ele passou os braços nos meus ombros.

- E ai, e a loira? – perguntou direto

- Então, a história é longa, prometo contar pra você assim que possível, vim aqui avisar que vamos dar uma volta, então se não se importa de voltar para casa sozinho. – falei

- Eu tô meio alterado, mas vou parar de beber então. – disse saindo da fila e me levando para fora ainda com a mão nos meus ombros.

- Toma cuidado, não vai correr. – o alertei.

Ele me deu um beijo no rosto, depois tirou os braços de mim. – Boa noite. – e deu uma piscada.

Voltei para onde estavam Clara e Edu, ela batia o pé e girava a chave nos dedos. Quando me viu se aproximando se despediu do amigo e da moça que estava com eles. – Vamos! – olhou pra mim

Entrei no carro e botei o cinto, ela parou para me observar um momento, fiquei meio sem graça. – O que foi?

- Só não acredito que é você mesmo. – ela ainda me olhava com um olhar penetrante, que fazia eu mesma me assustar com as intenções que meu corpo criava.

- Tem alguma ideia para onde ir? – perguntei e ela negou

- Não sei, talvez aquela praça? – ela se referia a praça onde brincávamos quando éramos criança, a praça que eu frequentava até hoje, andava de skate com Erick, e passava os fins de tarde pegando um sol.

- Vila lobos?  Sim é um ótimo lugar.

Então ela deu partida no carro e se dirigiu a praça.

POV Clara

Sentia seu olhar em mim às vezes enquanto eu fitava o transito calmo daquela noite, as ruas estavam praticamente vazias naquele horário, madrugada de segunda mais especificamente.

Não era como se estivéssemos sem assunto para ir o tempo todo – aproximadamente cinco minutos – em silêncio no carro. Era mais como se estivéssemos sem palavras, tudo aquilo era muito estranho, mas a forma como aconteceu ao mesmo tempo foi tão natural. Eu nunca reconheceria Vanessa se ela não tivesse descoberto pelo meu sobrenome isso, ela estava mudada demais, e boa parte da minha infância e vida no Brasil estava apagada. Passei uma borracha nas coisas ruins quando me mudei, tentei esquecer tudo que me prendia a esse lugar, tentar ser feliz. Quando finalmente consegui restaram poucas memórias boas.

- Chegamos! – falei e estacionei o carro em frente à praça, só tinha dois casais no lugar. Um mais para o fundo que se beijavam loucamente, e mais outro sentado na grama tomando algo.

- Ali no banco. – ela apontou para o banco de madeira de frente para uma parte da praça que tinha um lago.

Sentamos perto e paramos para sorrirmos novamente uma para outra. O mais estranho era que eu não conseguia vê-la como uma amiga muito próxima como era, mas também não a via como uma estranha.

- Por onde quer começar? – perguntei

- É tanto assunto atrasado que eu nem sei, mas me fala sobre sua vida em L.A. – ela pediu.

Comecei falando que assim que cheguei tive um tratamento intensivo para me acostumar com tudo aquilo, e aula de inglês, acabei atrasando dois anos da escola por isso. Falei sobre May, minha prima que me apoiou o momento todo que estive lá, e que meus tios me acolheram como uma filha. Falei sobre o trabalho de stripper, e ela quase nem acreditou, mas Van cabeça aberta, não agiu de modo estranho quando eu contei, apenas ficou surpresa.

Cheguei na parte do casamento de dois anos com o Frances compromissado e bem sucedido, a relação desgastada que se tornou depois de um tempo, e nosso filho Max.

- V-você tem uma criança? – perguntou surpresa

- Sim, ele tem 2 anos. – falei orgulhosa.

- Caramba não consigo ver você como mãe de jeito algum. – falou

- Você tem que conhecer Max, eu trouxe ele, estou ficando na casa de minha mãe. – ela sorriu animada.

- Claro, não vejo a hora de conhece-lo. – seu celular interrompeu a conversa por um momento, ela tirou do bolso e visualizou a tela por uns segundo com um suspiro.

Trocou algumas palavras curtas com algum rapaz que se referia como ‘’amor’’, nada demais, apenas explicou sobre onde tinha ido essa noite e que agora estava na praça com uma velha amiga que tinha reencontrado.

- Seu namorado? – perguntei quando ela desligou

- Sim. – ela assentiu meio sem animo.

- Tendo um momento difícil? – perguntei quando ela respondeu desanimada.

- Não ele só fica chateado quando saio até muito tarde, ele é bem liberal sabe, em muitos sentidos… Mas ele sabe que no outro dia fico exausta. Mas Alexandre não é difícil de lidar.

- Alexandre? Aquele Alexandre? – perguntei

~Flashback

- Van você parece uma tosca hipnotizada olhando ele? – falei enquanto Van observava o garoto.

- Cala boca tosca é você. –Van respondeu fazendo uma careta.

- O Alexandre? Sério ele é cabeludo demais. – falei me referindo ao menino que Van gostava

- Você tem ciúmes Clara, pode admitir. – ela disse rindo enquanto me oferecia o pacote de biscoitos e ainda observava o menino que descia de skate na rampa.

Alexandre tinha mesma idade de Van, 11 anos, ele era loirinho e tinha  pequenos cachos, sua pele era branca com as canelas cobertas de marca roxa pelas batidas de skate.

- Por que eu teria ciúmes dele? – perguntei mesmo sabendo que eu tinha medo de perder minha melhor amiga para qualquer menino, havia ciúmes envolvido sim.

- Por que ele queria me beijar. – ela respondeu com um sorriso sapeca.

- O quê? Mentira. – falei não acreditando

- Verdade, de língua. – ela disse

- Eca, isso é nojento, você fez?

- Não. – respondeu rapidamente – Nem sei como se faz isso.

~Fim do Flashback

Ela riu da minha pergunta.

- Claro que não. Meu namorado era do Rio de Janeiro, se mudou alguns meses para cá.

- Ah tá, achei que estava falando do nosso amigo aquele.

- Não. – ela disse – Pra falar a verdade nem sei que fim levou dele, nunca mais o vi, e faz muitos anos desde o ultimo contato. – falou observando o céu

- Bom saber que pelo menos seu relacionamento da certo. – falei me lamentando um pouco com os últimos acontecimentos de minha vida.

- Ha-há, finalmente! Se soubesse o quanto que eu já tomei no cu. – falou rindo

- Somos duas então.

- Sério principalmente com mulheres, estou traumatizada. – falou, e então olhou pra mim.

Não tenho certeza exatamente o porquê que me falou aquilo, mas algo dizia que ela queria que eu soubesse que se envolvia com mulheres, algo que eu percebi no primeiro olhar comigo quando entramos naquele bar horas atrás.

- Você também então? – foi mais uma afirmação do que uma pergunta, ela balançou a cabeça positivamente e me olhou.

- Mulheres não são fáceis, às vezes são piores. – falei sincera – Mas percebi isso em você desde que me olhou na boate.

- Eu olhei? – ela protestou – Só eu? – ela começou a rir.

- Não, eu também. – falei doce – Não posso negar que chamou minha atenção. – falei sem me importar com sua reação que ainda me encarava.

Seu olhar encontrava o meu de forma diferente, às vezes sem graça, e eu também sentia vergonha, mas ela parecia pior. Então desviou o olhar.

- Não devia me olhar assim. – disse encarando o chão.

- É difícil evitar. – respondi – Acredite, eu tento.

Na pequena vila da realidade, o sol desabrochava da maneira mais feroz quanto a de um leão inquietante a procura de sua caça. Entretanto, à noite sempre vinha com sua doçura que saciava as vísceras das trevas.
—  - Alguém