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Hoje atravessei a Turiassu em direção à Germaine Buchard pensando em você. Pensando na sua perda, e em como perder o pai (ou a mãe, suponho) nos atravessa. […]

Fui procurar o Diário de Luto, de Roland Barthes. São as anotações que fez quando perdeu a mãe e que, quando meu pai se foi, me foram salutares. […] Fui encontrar o volume numa prateleira. A capa branca está um pouco cinza de poeira e tem uma mancha amarelada, de algo que caiu em cima. Por um tempo que agora me parece bem longo, não lembro o quanto durou, esse livrinho me acompanhou no meu luto. Encontro dentro dele um pedaço de embalagem de papel cujas letras vermelhas dizem: deliciosas balas de gengibre e limão. Abro na página do dia 18 de janeiro de 1978:

“O Irremediável é, ao mesmo tempo, o que me dilacera e o que me contém”.

Há ainda outra observação, mas penso que não diz respeito a esse e-mail. {Quero dizer que ] nas frestas da dor e da ausência muitas coisas vicejam. Que espero que fique bem.

Quando olho para os dois, [o menino Roland no colo de sua mãe] assim enlaçados, fico certa de que muitas coisas no mundo se perdem, exceto essa coisa poderosa que a gente chama de amor.

Micheliny Verunschk