versos seus

O médico me diagnosticou com uma grave doença chamada amor, os sintomas são dores de cabeça, insônia, choros no meio da noite e uma dor constante no peito. Sua cura é a poesia, é por isso que os meus versos são seus.
—  Metáforas sobre nós.
Não sei se sinto em lhe dizer, mas seus versos que ecoavam sobre o meu elmo protetor de suas palavras, ardentes, emudeceram. Aqueles meus medos de ser desestruturado por suas mansas frases tocantes que cercavam-me sentimentalmente numa prisão ilusória em que eu só enxergava você, desapareceram. Minhas folhas, essas que eu tanto rabisco, não perguntam mais sobre a moça que eu tanto escrevia. Aos poucos você foi sumindo, e sumiu da minha escrita. Meus sentidos criaram uma espécie de proteção contra você. E além de protegido, estou sendo regado de novas inspirações, novos ares. E, esses versos que semeio, não será você quem os colherá. Não mais. Sofra e agonize a seca que te atingiu. Sinta o gosto amargo do fel de versos fantasiados que você me ofereceu e coloque na sua cabeça vazia que meus próximos textos não serão mais seus.
—  Kenedy Vinicios.
Versos ilusórios

As palavras não podem descrever o vazio em meu peito, sigo vagando pelas fronteiras das páginas em branco, acabei fazendo do silêncio o meu melhor amigo.
Todos os momentos felizes não passaram de uma ilusão, tudo o que restou foi um coração despedaçado, uma alma que acreditou cegamente nos seus doces versos ilusórios.
As lágrimas acolhidas pelo travesseiro estão marcando os dias de transição, pois vivo entre sussurros, tentativas patéticas de sobrevivência, lutas infinitas pelo próximo segundo de existência.
Construí um labirinto, acabei me cercando de dúvidas, tudo para prolongar os fatos inevitáveis, tudo para postergar o pesadelo semeado pela sua indiferença.
As chagas são visíveis, os esforços são hediondos, cada tempestade é um martírio, cada suspiro um novo começo.
Entre a luz e a escuridão eu trânsito diariamente, caindo e levantando sempre, tentando transpor os obstáculos forjados pelo medo, batalhando na loucura dos gritos abafados pela solidão.

Jundiba

A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte.
O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons de duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade.
—  Hermann Hesse, in ‘O Jogo das Contas de Vidro’
sou o que sou

eu quero uma licença pra dormir
sonhar que sou capaz de voar
sair pela janela e partir até bem perto
das nuvens e não cair nesse planeta.

eu quero uma licença pra dizer
todos os lixos e mentiras que guardei
escalar pontes malabaristas na cidade
soprar baixinho onomatopeicos caninos.

eu quero licença pra amar
qualquer mulher linda que passe
o rapaz e seus versos incorretos
os saguis que surgem entre as faces

da flor
no jardim
sobre o céu

e ser exatamente o que sou.

Elisa Bartlett

Olhei pro céu e senti sua falta

a lua está cheia
quem me dera
estar assim também
entretanto sem você
o vazio me absorve

Dá a entender que me ama, mas não se declara. Fica mastigando grama, rodando no dedo sua penca de chaves, como qualquer bobo. Não me engana a desculpa amarela: ‘Quero discutir minha lírica com você’. Que enfado! Desembucha, homem, tenho outro pretendente e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio que esse seu verso doente.
—  Adélia Prado
Me sinto vazia, desrespeitada
Por ter amado alguém que não valia nada
Parecia um conto de fadas
Mas foram histórias mal contadas.
Você dizia me amar
Mas não sentia nada
Foram somente palavras ao vento
Éramos o casal perfeito aos olhos da sociedade
Mas dentro de seu coração só havia infidelidade
E eu tola não enxergava sua maldade
Você agiu com desonestidade
Não teve coragem de me contar a verdade
Todos os momentos felizes não passaram de ilusão
E tudo o que restou foi um coração despedaçado
Uma alma que acreditou cegamente nos seus doces versos ilusórios.
—  W.Louren