verbalizada

Sabe, às vezes tem que deixar os cabelos soltos, mesmo, tem que sorrir um pouco, dormir até uma da tarde, ver o pôr do sol, sair de casa sem saber que horas vai voltar, deixar as músicas tocando no modo aleatório, se olhar no espelho e gostar do próprio reflexo, se agarrar às cobertas antes de dormir como se elas fossem te proteger do mostro imaginário, vestir uma camisa amarrotada, dormir com a televisão ligada, esquecer o guarda-chuva na casa de alguém, tropeçar numa calçada plana e se matar de rir por isso, atender o celular quando já tiver parado de tocar, tirar uma foto espontânea e amá-la, deixar o vento bagunçar os cabelos, pegar chuva de verão com os olhos fechados, quase cair no ônibus e ferver de vergonha… Às vezes tem que ser você, mesmo, porque é só aí que você vive de verdade. Escute o que digo, estou certa. Uma vez me contaram a história de uma menina metódica que não se permitia errar nem conseguia relaxar nos finais de semana. Ela teve uma vida com cento e dois anos mal-vividos, desgastantes, sem conclusão, sem finalidade. E, no fim, a pobre coitada não havia sido nada além do protótipo infeliz de perfeição que havia planejado para si mesma. Então, seja você, cometa seus erros se tiver que cometê-los, aprenda, sonhe, magoe, perdoe, descanse, lute, ensine, grite, faça, viva! Ou cale-se para sempre.

(verbalizada)

Ah, aquela menina alí, com a cabeça apoiada sobre as mãos, olhando para o nada, divagando? Ela está sonhando acordada, querido, sonhando em alto e bom som, entretida nos próprios pensamentos, viajando sem se mover. Não, não é maluquice, muito menos loucura; a menina continua com sua sanidade mental. É apenas uma desconexão provisória do mundo, das pessoas, do corpo, da própria vida. Às vezes sair de dentro de si é fundamental, compreende? Porque ser quem é para sempre e não conseguir se desprender de si mesmo é cruel. Tem que se desligar um pouco, mesmo, ser uma abelha feliz e alegre que espalha pólen pelas flores, ou até uma sereia cuja missão é descobrir os mistérios do mar; ir para algum lugar imaginário onde amor, compaixão e solidariedade vivam em todas as pessoas, onde o mundo seja bom, onde se esbarra com a felicidade em cada esquina. E também precisa continuar com o sorriso no rosto quando voltar para a realidade, porque só assim dá para continuar. E não há outra opção, você sabe, não há como fugir. Então deixe-a alí, não tente acordá-la. Ela só está tentando ser feliz.

(verbalizada)

Eu queria ter perdido o medo de encarar a imensidão dos teus olhos e ter lhe dito que eles completavam o vazio dos meus. Ao invés disso, engasguei com as palavras que não tive coragem de pronunciar e padeci sofrendo dessa asfixia interna. Me machuquei. Só o tempo pôde curar minhas feridas; ele não foi capaz, porém, de me livrar dessas marcas, desses traços e cicatrizes. Mudei, enfim. Agora suas metades não me satisfazem mais. Agora eu te quero por inteiro porque me entrego por inteira; sempre me entreguei. Agora, não quero mais voltar para casa; quero fugir daqui porque esse lugar me lembra o passado que não tive, as memórias que insistem em não se perder, as cartas que eu deixei para queimar. Teus olhos não quiseram somar aos meus, nem você a mim, e só me resta destruir nossa trilha para poder construir a minha. Não é que eu não te queira mais, amor. Eu te quero, e muito. Mas não te disse? Me machuquei. Mudei. Então tire esses olhos de cima de mim e me dê licença, porque agora eu vou seguir.

(verbalizada)

Agora eu vou falar na primeira pessoa do singular porque cansei do plural. “Nós” nunca serviu, nunca existiu, nunca coube no contexto; não que a conjugação ficasse errada, eu que sempre acabava sozinha, mesmo. Mudei. Não quero mais seus subsídios, amor, nem suas esmolas, suas migalhas, nada. Juro, prometo fingir que sempre fui só eu comigo mesma nessa vida, e também parar de usar o imperativo, como se de alguma forma você fosse obedecer as minhas súplicas de “venha, preciso de você” ou “fique comigo”. Mas em troca preciso que você me deixe em paz e pare de perturbar meu sono frágil. Eu tinha medo de te abandonar, amor, medo de viver a minha vida por mim mesma, de correr atrás do que eu queria, de ser feliz, porque estava presa a ideia sem nexo de que só poderia encontrar a felicidade se estivesse ao seu lado. E advinhe? Me soltei. Estou livre. Estou partindo, inclusive. Seguindo em frente e deixando o “nós” para trás, deixando você para trás. Não que em algum momento da nossa jornada, tivéssemos ficado lado a lado. Mas nada importa agora. Porque já que juntos, nós não alcançamos a felicidade, estou indo ser feliz sem você.

(verbalizada)

Eu quero comprar uma passagem para um lugar imaginário e ingressar no primeiro trem das onze. Quero viajar para bem longe - nem que por um ou dois segundos - e poder me sentir bem comigo mesma, feliz, em paz. Não é nada pessoal, é que esse mundo é muito pequeno para mim, meus pensamentos não cabem, não se assentam, querem fugir. Acordar todos os dias e vestir nos pés uma meia de cada par é estranho por aqui, mas vai que descubro que as pessoas de outro lugar apreciam a minha criatividade e ousadia? Eu quero é voltar voando para casa, para onde eu vim, porque não sou capaz de me adaptar à sociedade da Terra. Ela me sufoca, me reprime, corta minhas asas, sabe? E é tão cruel olhar pela janela e perceber que até os semáforos estão piscando vermelho para mim… Pode ser à pé, de ônibus, avião, nave espacial, à cavalo, ou pela mente, mesmo; só quero sair um pouco daqui, inclusive de dentro de mim. Eu quero conseguir ignorar os olhares de reprovação que me perseguem, querido, quero parar de usar “querido” ou “amor” como vocativo em todos os meus textos como se eu tivesse algum amor por aí, me esperando, e ser forte o suficiente para adotar o lema do “dane-se” na minha vida. Sério, quero tanto que estou até treinando: não gosta de meias trocadas, fora de moda? Dane-se. Fica aí com as suas opiniões ignorantes e me deixe comprar minha passagem, hoje, agora. Só vou deixar um recado amassado sobre a cômoda da cozinha: tô de saída.

(verbalizada)

Os fantasmas do passado me perseguem; essa é a mais dura, espantosa e triste verdade. Eles bagunçam os meus sonhos e me lembram o tempo inteiro que o tempo de felicidade já passou e jamais voltará. Aconteceu, então, o inevitável: guardei as lembranças numa caixinha, tranquei-a com cadeado e sete chaves, cerquei-as, usei tela protetora e tudo mais que pudesse conservá-las para sempre. Secretamente, quero-as intactas, por mais que sejam os motivos das minhas lágrimas; almejo guardá-las para que possa revê-las vez ou outra e sorrir por instantes, mesmo sabendo que a dose de tristeza vem logo depois. Masoquismo, meu amor? Talvez, mas prefiro chamar de esperança. Esperança de que um dia o amargo dessas lembranças perca a essência e o perfume do nosso amor seja apenas doce.

(verbalizada) e (ecstasydeamor)

Sou feita de fases. Às vezes fria, outras sentimental. Tão instável que acordo sorrindo e durmo chorando. Tão variável que passo um mês sem escrever e depois escrevo cinco textos em duas horas. Quatro da tarde me traz felicidade e também me entristece. Meio-dia soa bagunçado e monótono. Segunda feira é tão chata quanto sexta. Chega a ser cômico: questiono os sentimentos alheios e digo ao mundo que problemas têm solução. Depois me pego rasgando, frustrada, a folha de exercícios de matemática. Pareço até com a lua: crescente, cheia, minguante, nova. É, difícil de entender. Mas continuo sendo eu, ainda estou aqui. Só vez ou outra fico diferente.

(verbalizada)

Dê-me esses pincéis limpos que eu vou mergulhá-los no azul, misturar com vermelho e laranja e completar com tons de verde. Não precisa de cuidado, deixe cair, deixe sujar, porque na arte o espontâneo é bonito e perfeccionismo, sem graça. Não tente traçar linhas retas ou círculos simétricos, deixe torto, deixe caído, porque a essência está nesses riscos coloridos e nos vãos pretos e brancos. Aprende comigo: se não fizer sorrindo, se não fizer chorando, não tem valor. Se não tiver emoção e coração aberto, não é arte, é palavra oca impressa em papel sem vida; e desses papéis o mundo já está cheio, lotado, transbordando. Sei que esses meus imperativos soam prolixos e inúteis agora, mas fixe-os na mente e tão simplesmente obedeça-os. Porque enxergar amor em palavra sem hiato e alegria em pintura abstrata é incrível, querido. Então se entregue de bom grado para a vida e liberte essa essência brilhante que há em você. Agora, aqui, uns pincéis para começar…

(verbalizada)

Eu derreti em seus olhos, anjo meu, e esqueci do som das palavras. Logo eu, que sempre andei tão bem munida, fui desarmada pelo timbre da sua voz - tão doce que parece retirada de favo de abelha - e pelo olhar tão penetrante que parece sugar de mim o equilíbrio das pernas, que bambas, bambas, só fazem-se desabar. Já lhe pedi para não me encarar no meio da rua, atrás dos semáforos, no ponto de ônibus nem em lugar nenhum, porque eu enrubesço e acanho como criança, e o rubor que sobe pelas minhas têmporas me incomoda. Por favor, obedeça, afaste seu semblante da minha vista e responda com “não” ao invés do tão torturante e incerto “talvez”, pois não há decepção maior do que aquela que sucede esperança. Meu coração não aguenta mais esses saltos repentinos, entende? Eu derreti e continuo derretendo em seus olhos, e em todos os mínimos detalhes que compõem o seu ser. Você é tão pouco e ao mesmo tempo tão tanto que temo não ser mais capaz de suportar-lhe dentro de mim. Acabam me restando duas penosas opções - ou expulso você, ou expulso a mim mesma. Então, saio. Me retiro da minha própria alma, só para lhe abrigar com maior conforto. Morar dentro de mim é o preço que se paga por não ter desviado o olhar quando pedi, pois ao fitar-me, capturei-lhe, registrei-lhe, tomei-o para mim. Infelizmente, fiz-lhe meu sem antes perguntar se gostaria de ter dona, e agora sofro as consequências dessa minha precipitação; você não quer viver dentro de mim. Quer cultivar a liberdade, ser acalentado por outra alma, adormecer em outros colos. Compreendo, obviamente, mas não aceito; não aceito porque vi amor em seus olhos quando compartilhamos um olhar adocicado. Então tranco as saídas e sufoco-lhe com “eu amo você”, pois sei que, em algum momento, você reconhecerá que algo dentro de você me ama também. Anjo meu, entenda, não quero nada demais, apenas fugir com você em uma arca de Noé. Essa paisagem com nós dois, o vento suave e o infinito mar azul é bela demais para escapar-nos pelos dedos do coração. E como fiz-me sua, quero que cubra-me com ternura antes de pôr-me a dormir, beijei-me nos lábios com carícias ilimitadas e permita-me cativar-lhe o afeto mais benévolo. O que me diz, querido? Aceita a reciprocidade inevitável ou desata, de vez, nossos olhares?

VerbalizadaAna F (salt-waterroom)

Ah, é tanta gente sofrendo por amor. Tanta juventude sendo desperdiçada com o mesmo problema. Pare, acalme-se. Seu coração não vai ficar partido para sempre. Na verdade, ele vai se despedaçar muito, mas vai se restaurar também. Então respire fundo. Pare de se preocupar com essas tolices; viva, apenas viva, faça, desfaça, aproveite.

(verbalizada e nossosroteiros)

Solte esses cabelos, menina, seje mulher provocante ou criança inocente, transforme seus lábios num sorriso torto e levante o olhar devagarzinho quando lhe apontarem o céu. Esse desejo insaciável por flores, abraços, gaivotas e paz que te persegue e sua mania de ser intangível só te fazem especial, só te faz mais você. Grite com vontade para o vento, deixe-o bagunçar os seus cabelos e a sua vida, feche os olhos e sinta um pouco de paz, porque com a mente tranquila você se torna tão sábia, tão jovem… Chame a chuva de verão, embriague-se com todas as doses de felicidade, sonhe alto, sonhe intenso, porque a sua força de vontade é poderosíssima e você pode percorrer muito mais do que imagina ao longo dessa vida travessa. Coloque os fones no ouvido e escute as músicas no último volume como sempre faz, porque essa sua ligação com música é coisa mágica - nunca vi igual - e mantem forte a tentação de conhecê-la e o enigma que gira em torno de você. Querida, neste momento lhe falo sério; quero que olhe para mim e escute-me com atenção: terá que aprender a ignorar a sociedade para conquistar o mundo. Sugiro que guarde essa bondade e inocência para que possa usá-las quando todos parecerem maus e destrutivos e quiserem enfiar a estaca no seu peito. Peço que reserve o amor que vive dentro de você e compartilhe-o mais tarde com quem não teve oportunidade de conhecê-lo. Entendeu, registrou? Então não perca tempo; corra, faça suas malas e vá. Meu anjo, lembre-se sempre que nessa viagem o céu é o seu limite, e sua missão é, além de brilhante, se fazer eterna.

Beijo, vá pela sombra.

(verbalizada)

Deixe-me usar os verbos no presente porque estou completamente esgotada das lembranças do passado e das expectativas para o futuro. Deixe-me criar um vocativo qualquer para usar em minhas declarações; preciso de alguém a quem dedicar tão sofridas palavras… Ah, querido, venha cá, sente-se ao meu lado e escute-me, pois não sei se já compartilhei tamanha revelação: essas músicas depressivas e cartas amassadas arrancaram mais do que eu estava disposta a doar e agora só resta um quarto de mim. Então, por favor, peço que também deixe-me em paz com meus pedaços para que eu possa reconstruir-me com cuidado e atenção, e só assim talvez não cometa os mesmos erros assombrosos do passado. Eu peguei alguns vícios de linguagem como chamar-lhe de amor, anjo ou querido, mas quero descartar tais manias infelizes; esses cognomes não lhe são dignos. Agora eu mesma sou meu amor, minha vida, minha razão; cansei de viver por outro alguém  e de embriagar meu sofrimento com suas esmolas. E me desculpe, de verdade. Nunca quis ser empecilho ou muro de granito, apenas desejei um amor e sua correspondência. Mas já aprendi a lição e é fato: não cairei na tentação de conjugar o verbo amar no tempo errado.

(verbalizada)

Mergulhei na nostalgia mais profunda e agora não vivo, só passo o tempo. Lá fora o mundo parece mascarado, artificial, ilógico e contraditório, e aqui dentro só cai chuva gélida e faz frio no aquecedor. Desenhei minhas metáforas num pedaço de papel e deixei-o queimando sobre o sofá, junto com todas as outras lembranças infelizes; e o crepitar soou como música para os meus ouvidos, como banho quente para um corpo hipotérmico, como ideia nova para sofredores de graforreia. Tentei perder a mania de entrelaçar minha vida ao passado e comecei a desatar os nós, a apagar a memória, mas não deu, falhei. Olhei pela janela e não enxerguei nada além de pessoas comuns atravessando o sinal na piscadela amarela do semáforo, conversando em alto e bom som sobre o final de semana passado, escolhendo o sabor da pizza que pretendem comer no jantar, saindo da padaria com uma sacola de pão e presunto, jogando as cinzas de tabaco no chão, vivendo suas vidas. E não consegui afastar o pensamento assombroso que ocupou minha mente: eu não me permito ser feliz. Talvez por ter me acostumado a tristeza e tê-la abrigado dentro de mim, talvez por medo, talvez por não querer, talvez porque a infelicidade me traz, de alguma forma, uma sensação prazerosa; em todo caso, pouco importa. Dormi com expectativas de acordar em um mundo melhor e subitamente concluir que tudo está bem e assim ficará, mas acordei com o pijama amarrotado e a certeza de que nada havia mudado. Então escrevi palavras sem sentido em folha de rascunho e me senti melhor, mais completa, mais viva. Ao menos entre as vírgulas e pontos finais, pude personificar-me no que eu queria ser, mas não fui capaz. E alí, com as narinas cheias de fragrância da página e a mente muito longe do mundo real, padeci asfixiada, mas viva.

 (verbalizada)

Cansei de escrever bonito, soar prolixa, titubear e caçar ditongos mais abertos para que o som levemente adocicado possa acalentar, enobrecer e adornar minhas singelas palavras. Eu sempre gostei e continuo preferindo a essência, os desenhos amassados, os rascunhos riscados e o que não cabe, transborda. Talvez porque a perfeição seja só um reflexo de máscaras e de máscaras só os monstros sejam feitos, ou porque espontaneidade me lembre poesia e de poesia quem seja feita sou eu. Ainda que muitos não entendam minha construção frásica e que ela não faça sentido, não só faz parte de mim como também é o que transmito de olhos fechados e coração aberto. Não adio, não escondo: se é meu, admirarei e amarei, porque se eu não fizer isso ninguém mais fará. Infelizmente agora, eu que sempre tive horror da escuridão, das salas vazias e da penumbra me vejo sozinha nesse mundo argumentando sobre idéias que não convém a ninguém, recusando a desculpar-me: sou contra comercialização de sentimentos e a favor da proliferação do amor; sou amante das reticências e gosto da mistura de azul e marrom, vermelho e chocolate, pão e flor. Se tu não gostas, respeites; está faltando quem levante e pergunte, gritando, sobre o paradeiro da valorização das emoções. Se está aqui ou lá, na polo norte ou sul, na boca de crocodilo ou garras de leão não importa: eu vou buscar.

 (verbalizada)