velhotes

Me devolve, por favor

Me devolve, por favor
A alegria dos meus dias
Aquele velho sabor
Envolvido em fantasia
Da mais vibrante cor
Quando a vida era vida
Quando tudo era nós dois

Me devolve, por favor
Pois tudo que me sobrou
Não está dando para o gasto
E todos estes tortos pedaços
Só me fazem sentir dor
Não há mais cor, nem sabor
Nos pedaços que sobrou

Edison Botelho

Eu nos vejo nas crianças que brincam na rua, nos velhotes de mão dada passeando na avenida. Eu nos vejo no banco do jardim relembrando histórias, compartilhando memórias. Eu nos vejo em cada canto, em toda a pessoa, todo o tempo. E você sabe que essa é a verdade nua e crua: inegavelmente estou na tua.
—  Pedro Freitas.

não te sinto. não te vejo, nem te reconheço a mudança de feições há mais de doze anos. há exactamente doze anos, um mês e onze dias. eu não sei quem te levou mas sei que fui eu quem te perdeu. sou fraca a matemática, mas a aritmética das emoções sempre foi o meu forte. os gomos de laranja em cima da mesa da sala depois do almoço e já depois de lavar os dentes. as noites a contemplar as estrelas e o teu esforço, ainda que em vão, para que eu aprendesses a identificar as contelações. os teus tímidos e temidos “vai-te lá embora margarida mas tu volta, volta sempre para os braços do teu velhote preferido” e inevitavelmente, os meus regressos de cara feia e orgulho debaixo do braço. desde pequena a não querer demonstrar o meu afecto por ninguém, nem mesmo por ti. foi talvez o meu maior erro. talvez não. este foi, definitivamente o meu maior erro perante ti. foste demasiado cedo e eu nunca tive tempo. e o fim aconteceu. uma sala de espera repleta de macas, a mãe de lágrimas nos olhos e eu ali, de coração na mãos e a fazer figas no cantinho da sala para que tudo aquilo fosse só mais um sonho mau. depois disso seguiu-se o ficar sem chão. de seguida a aceitação, a revolta. novamente a revolta mas nunca, nunca a aceitação. eu aprendi contigo que a morte e a aceitação jamais estão de mãos dadas. e aqui continuo sem saber quem te levou mas com a única certeza de que fui eu quem te perdeu