velho-logan

Capitulo 24 {Tudo ou Nada}

POV VANESSA MESQUITA

Sai como um furacão do apartamento de Clara. Provavelmente eu deveria estar feliz naquele momento, mas a raiva que eu estava sentindo de Kadu não deixava que eu raciocinasse direito.

Entrei no primeiro ônibus que passou, logo pegando o meu celular e discando o numero de Kadu. O celular caiu na caixa postal em todas as vezes.

Ah, mas se ele pensa que vai ficar assim, não vai.

Fiz o caminho mais curto para a casa dele. A raiva me consumia de uma forma tão avassaladora que nem me dei conta e já estava na porta de sua casa. Toquei a campainha e esperei.

Uma senhora de meia idade atendeu a porta e quando me viu, sorriu docemente.

- Vanessa! – exclamou me puxando para um abraço.

- Bom dia, Senhora Stromberg não está em casa esse final de semana.

- Ah, não? – perguntei, sem entender.

- Não. Ele simplesmente não voltou pra casa – ela disse, com um meio sorriso. – Como ele sempre faz isso, imaginei que você soubesse onde ele está.

Senti meu rosto corar de vergonha. Era de se imaginar que a namorada sempre soubesse onde o namorado estava, entretanto, minha relação com Kadu era diferente. Eu não sabia se eu era liberal demais ou se eu só não ligava para o que ele fazia.

- Entendo. Já que ele não está aqui…bom… eu já vou indo.

- Certeza, querida? – minha sogra perguntou. – Não quer comer alguma coisa? Você está parecendo pálida.

- Eu sou pálida! – brinquei, e ela riu.

- Oh! É verdade! – ela disse, sorrindo.

Despedimos-nos e eu parti para o ponto de ônibus novamente. Eu ainda estava atordoada demais para ter alguma direção para tomar. Por isso, fiquei por uns bons minutos sentados ali, apenas olhando para frente.

A chuva logo veio o que era de se esperar. São Paulo era imprevisível. Quando você menos espera, uma chuva fortíssima aparece do nada, ficam alguns minutos e depois vai embora. E então volta o sol como se nada tivesse acontecido.

As lagrimas vieram a partir do momento que senti a primeira gota caindo no meu cabelo. Eu não sabia por que diabo estava chorando. Se era por eu não ter conseguindo proteger Polly, se era por eu estar me sentindo uma idiota por aquilo ter acontecido bem debaixo do meu nariz, se era por eu estar me sentido estúpida por ter confiado em Kadu ou se era pela confusão de sentimentos que se instalava na minha cabeça quando o assunto era Clara.

Depois de alguns segundos, me veio algo que eu podia fazer em mente. Eu podia saber de uma vez por todas o que diabo tinha acontecido naquela noite.

Liguei para minha mãe e pedi para que ela conseguisse a todo custo o numero de telefone de Logan. Ela, após pedir para Polly dando um pretexto qualquer, conseguiu o numero e me passou. Agradeci e liguei imediatamente para o garoto.

- Alô? – ouvi a voz dele do outro lado da linha.

- Logan, é a Vanessa. Irmã da Polly.. – eu falei.

- Olha.. Eu não sei o que Kadu falou pra você, mas… – ele começou, mas eu interrompi.

- Eu quero saber o que aconteceu naquela noite. E eu quero saber por você. Pode me encontrar?

- Ah… Claro… Você pode vir aqui na minha casa, lá pelas 16:00? É que.. minha mãe não me deixa sair a não ser pra ir na sua casa.

- Ok, Só me passa o endereço.

Anotei o endereço dele no meu celular mesmo. Olhei meu relógio de pulso. Ainda eram 12:00. Resolvi ligar para Mari.

- E aí, Van! Sumiu da Bubu ontem, hein? Se deu bem com alguém que não seja o Kadu? Porque olha.. já ta na hora de você dar um pé naquele garoto chato.

Seu meu humor não estivesse tão amargo eu juro que riria, mas ao invés disso, suspirei.

- Onde você tá? – perguntei. – Tem um tempinho pra mim?

- Eita! Já vi que é problema. Eu to indo no Parque Ibirapuera com a Julia. Me encontra lá, ok?

- Ok, Mari!

Desliguei e peguei o respectivo ônibus.

A chuva já havia parado e o sol já reaparecia. Depois de uns vinte minutos viajando em meu próprio mundinho, sentada no banquinho de frente com o parquinho de diversão que Julia sempre ficava, senti alguém se aproximar de mim. Meus pensamentos atordoados deram uma pausa quando olhei para o lado, esperando ver Mari ou Julia, mas ao invés disso encarei uma garotinha pequena com os olhos mel. Ali, ao meu lado, estava a minha princesa do outro dia. Sorri sem precisar fazer esforço.

- Que dia lindo encontrar uma princesa no parque! – exclamei.

-Vany, o que você tem? – ela perguntou. – Parece triste.

Sorri novamente, e foi ai que percebi que meus olhos estavam marejados. Olhei para cima, tentando conter as lagrimas. Respirei fundo.

- Nada, meu amor.. Foi só um desastre que aconteceu na minha vida – eu disse.

- Mas tem como consertar? – ela perguntou.

- Eu acho que sim. – respondi.

-Então conserta e para de reclamar! – ela exclamou.

Eu não resisti e ri. De onde tinha saído aquela criança que falava como um adulto?

- Vany! – ouvi Julia gritar do outro lado do parque correndo até mim para me dar um abraço. Mari estava logo atrás dela.

- Heeeeey, baixinha! – exclamei, sendo abraçada por Julia.

- Veio fazer castelos de areia comigo hoje?

Sorri.

- Hoje não, meu amor! Hoje a Vany que ficar paradinha, ok?

Ela me encarou com um olhar decepcionado, mas afirmou que entendia com  a cabeça. Então, ela puxou a minha princesa e foi até o parquinho para que elas brincassem juntas.

Olhei elas se afastarem e as lembranças de Polly gritando comigo me atingiram novamente e eu senti como se fosse um soco no estômago. Mari sentou-se ao meu lado sem falar uma palavra. Colocou seu braço esquerdo atrás do meu pescoço e puxou-me para mais perto. Permiti-me ser abraçada, encostando minha cabeça no colo de Mari. A mesma apoiou seu queixo na minha cabeça e começou a afagar meus cabelos. Não sei quando eu comecei a chorar, só sei que estava chorando.

-Quer conversar sobre o que quer que seja que te deixou assim? – perguntou. Eu apenas neguei com a cabeça. Mari suspirou. – Ok.. Fica calma, eu ti aqui pra qualquer coisa, viu?

Apenas afirmei com a cabeça e continuei ali naquele contato com Mari. Não sei quanto tempo ficamos daquela forma, só sei que foi ótimo receber algum carinho. Eu estava mais do que agradecida por ter Mari como amiga. Ela não me pressionava de forma alguma e sempre estava ali quando eu precisava.

As horas passaram que eu nem vi. O choro já tinha cessado há tempos, mas eu não quis me desfazer do contato com Mari. E nem ela fez menção de desfazê-lo. Então ficamos naquela posição durante todo aquele tempo.

- Van – ela me chamou, eu desenterrei meu rosto do seu colo, sentindo alguns músculos do braço doer pela permanência ali. – Eu ficaria aqui numa boa contigo, mas já ta ficando tarde eu acho que a chuva vai voltar. Tenho que voltar por causa da Julia.

Puxei meu relógio de pulso e olhei o horário. Já eram 15:30.

- Tudo bem – respondi. – Tenho que ir em um lugar mesmo.

Mari sorriu para mim. Aquele sorriso dela parecia o de uma criança. E irradiava como o de uma criança. Abracei-a uma ultima vez e me despedi de Julia. Minha princesa, pelo jeito, já havia ido embora.

Encaminhei-me até o ponto de ônibus e peguei o caminho até a casa de Logan.

Cheguei lá quando batiam 15:55. Uma senhora me atendeu com um sorriso mais do que simpático no rosto. Pelo jeito Logan não recebia visitas que não fossem de Polly.

- Boa tarde, senhora Lerman. Logan está?

Ela sorriu mais ainda.

- Está sim, querida. Entre. Vou chamá-lo.

Fui até a sala e esperei. Logo, Logan desceu as escadas e veio ao meu encontro.

- Vanessa – ele cumprimentou com as mãos no bolso. Ficamos nos encarando por um tempo. Ele não tinha ideia di que dizer, e eu achei até graça. De certa, forma eu entendia o porquê de Polly gostar daquele garoto. Ele era todo descuidado, é claro. Mas por baixo de tudo aquilo, era um garoto dócil. Bonito até, quando tirava aqueles óculos, penteava os cabelos e vestia roupas não tão serias.

- Então, podemos conversar sobre o que aconteceu naquela noite? – perguntei quebrando o silencio.

- Podemos – ele respondeu. – Mas… não aqui. – Ele encarou a porta da cozinha. Provavelmente a mãe dele estaria ali com os ouvidos abertos. – me acompanha, por favor?

- Claro.

Acompanhei-o até os fundos da casa. Ele abriu uma porta de vidro e saímos em um lugar aberto. Um jardim bem cuidado se encontrava do lado direito e uma piscina enorme estava logo a frente. Arregalei os olhos. Eu não tinha ideia do que Logan vinha de uma família com dinheiro.

Ele sentou-se em uma espreguiçadeira e fez um gesto com a cabeça para que eu me sentasse também. Retirou os óculos, deixando seus olhos azuis a mostra.

Respirou fundo.

- O que você quer saber? – ele perguntou. Parecia desconfortável por estar falando aquilo.

- Tudo o que aconteceu naquela noite.

Ele coçou a nuca.

- Bom… Depois do filme, você e o Kadu foram dormir no quarto que você dividi com a Polly. Ela foi dormir no quarto do Rafa, porque ele não estava em casa. E eu, ia dormir no sofá. Eu não tenho sono muito pesado, e nem durmo tão rápido, por isso ouvi quando você estava discutindo com aquele moleque. – Ela fez uma cara de nojo ao se referir a Kadu que chegou a ser engraçado. Também era engraçado o fato de ele chamar Kadu de “moleque”, quando ele era mais velho que Logan uns anos. – Eu o ouvi saindo do quarto. E então, eu ouvi o barulho vindo do quarto da Polly e fui até lá… – Ele parou de falar, a dor estava estampada em seus olhos.

Levei minha mão até o ombro dele e o encorajei a continuar.

- O que você viu? – perguntei.

- Kadu… Ele.. ele.. estava em cima da Polly… – Ele fez uma pausa.- Ele tava com a mão em cima da boca dela, pra ela não gritar. E ela se debatia… – Outra pausa. – Quando eu vi que a calça dele estava arriada, eu parti pra cima dele sem nem pensar direito.. Ele era mais alto e mais forte.. Mas eu tava com muita raiva.. Então consegui tirar ele de cima dela… Ele pareceu assustado por alguém ter visto.. Saiu do quarto, mas antes disso me ameaçou.. Disse que se eu contasse a alguém, ele vinha atrás de mim.. – Ele respirou fundo. Vi que seus olhos estavam marejados. – A Polly… Ela tava chorando.. Ai eu fui até ela e ela me fez prometer que não falaria nada pra ninguém, porque ela queria lidar com aquilo sozinha… Então.. foi por isso que eu não contei.

- Mas você ia contar, não ia?

- ia sim – ele disse. – Quando fui na sua faculdade e encontrei com você.. No dia que o Kadu me bateu… Eu tinha ido lá pra contar tudo, porque eu tava preocupado com a Polly. Com a saúde dela…

- Entendo…Você ficou sabendo do que aconteceu com ela esse final de semana?

Ele me encarou com curiosidade.

- Não… O que aconteceu?

- Ela tentou suicídio – respondi, e ele se levantou da espreguiçadeira em um salto.

- Meu Deus! – Logan exclamou, arregalando os olhos. Como.. Como assim?

Ele começou a andar de um lado para o outro, e eu achei aquela atitude realmente fofa. Ele se importava de verdade com Polly. Senti-me mal por um momento por tê-lo julgando de acordo como o que Kadu disse…

- Eu preciso… Eu preciso… – ela gaguejou. – Preciso.. vê-la… Preciso vê-la…

- Vai até a minha casa. Ela precisa de você. Eu não posso ir ainda, porque a Polly, tá brava comigo. Eu preciso resolver as coisas com Kadu antes. – Levantei-me da espreguiçadeira. – Eu já vou indo. Falamos-nos depois, ok?

Ele concordou com a cabeça e me levou até a porta.

Peguei o primeiro ônibus que passou e fui direto pro metrô. Eu precisava muito de um banho. Eu precisava muito de um banho.

Cheguei ao meu dormitório e já corri pro banheiro. Ângela não estava, como sempre. Depois do banho, voltei ao dormitório e me joguei na cama. Mas eu estava sem um pingo de sono. Senti meu celular vibrar embaixo do travesseiro e o peguei na mão. Desbloqueei a tela  e li a mensagem:

lovespizza: e aquele encontro que a gente ia marcar?

Sorri com a mensagem.

blackeyes: que tal agora?