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Presta atenção, menina. O mundo não é mais sua casinha de boneca que você pode montar e desmontar quando quiser. As coisas mudaram, você cresceu, tem que lidar com seus sentimentos agora. É século XXI. Não vai aparecer um príncipe num cavalo branco te salvando do vilão malvado. Muito pelo contrário, hoje em dia é bem capaz de você até preferir o vilão. Parece que hoje em dia gostar de príncipes é cafona, então você provavelmente vai aderir a moda. Seus cabelos não vão estar mais sempre perfeitos como quando sua mãe os arrumava. Vai ter dias em que eles vão estar tão horríveis que você vai desejar arrancar um por um. Mas vai passar. Seus iogurtes gelados e cereais matinais vão ser trocados momentaneamente por vodkas, cervejas e cigarros. Mas depois você percebe que isso não adianta de muita coisa, e volta pros iogurtes. Você tá crescendo, bonequinha. Mas vai com calma, vai ser pressa, sem expectativa. A vida é maravilhosa quando sabemos nos surpreender, esperar demais é burrice, desistir de tudo é covardia, ache seu meio termo e siga em frente, que você achará seu caminho.
—  Laiza Brunett
Hoje apareceu no meu trabalho uma menina de 6 ou 7 anos, não sei ao certo. Estava junto com os pais pra resolverem algum problema. Entretanto, cada vez que eu levantava ela me olhava com uma admiração terna, um brilho nos olhos, encantada pelos meus sapatos altos, ou pelo batom vermelho, ou pela minha forma de atender ao telefone, não sei ao certo, mas vi encanto naqueles olhos. E de repente ela me disse: “um dia vou ser adulta e bonita como você, usar sapato de salto e ter batom vermelho, e vou ser a mulher mais feliz do mundo”. Me encantei de volta, e lamentei por ela em meus pensamentos. Pobre menina, se soubesse o que a vida aguarda pra ela. Respondi de volta: “e um dia, eu vou ser igual a você, com esse sorriso inocente e essa esperança de que tudo vai mudar, e quero também esse seu cabelo preso em dois lados, pra ver se fico mais menina, e deixo de ser bicho.” Ela olhou e sorriu. Sorriu com sinceridade. Ela me entendeu, assim como eu entendo ela. Pobre menina.
—  Laiza Brunett
Olha só que irônico: nós nascemos para perder. Perder tudo, até o que nem sempre ganhamos. Desde o nosso nascimento perdemos tempo. Cada segundo que se passa é um segundo a menos. Ganhamos dentes, para perde-los. Ganhamos amigos, familiares, irmãos, animais de estimação, para perder com o tempo, ou com a morte. Ganhamos amores, para a luxúria ou o ódio tirar de nós. Perdemos a beleza com a qual nascemos, perdemos nossa inocência quando saímos do útero de nossas mães. Nossas mães, perderemos também um dia. Perdemos a cor dos nossos cabelos com o tempo, assim como a viscosidade da pele junto com a audição e visão. Perdemos nossa dignidade. Nascemos reis, morremos mendigos, sem o amor que nos foi dado, sem a beleza que nos encanta e sem o poder que conquistamos. Chegamos com tudo, saímos com nada. Nadinha. E mesmo assim ainda vale a pena viver.
—  Laiza Brunett
Ele tem um olhar rápido, destemido e feroz, que faz com que eu me sinta nua. Sinto como se ele conseguisse me desnudar de corpo e alma, só com aqueles olhos castanhos. E pelo canto do olho ele diz: “você ainda vai ser minha.” Mal sabe que já sou dele há muito tempo.
—  Laiza Brunett
Meu coração é seu? Não meu querido, meu coração é meu. Só meu e de mais ninguém. Minha pele pode ser sua, meu nervos, minha carne, minhas mãos trêmulas, meus olhos nervosos, meu estômago embrulhado, minha boca seca, meu cabelo desarrumado. Mas meu coração não. Esse é meu, e dele eu faço o que bem quiser.
—  Laiza Brunett
Deixo minha marca de batom vermelho pelos copos. Deixo meus estragos pelas ruas. Deixo minhas cinzas de cigarro pelo chão. Deixo meu amor pra quem faz por merecer. Deixo minha antipatia pra quem se acha superior. Deixo minhas verdades pra quem sabe ouvi-las. Mas o meu melhor, eu deixo pra mim, sozinha, despida de conceitos, sem julgamentos alheios, sem preocupações desnecessárias. Eu, sozinha, sou o meu melhor.
—  Laiza Brunett
Bicho estranho esse tal de ser humano. Só gosta do que não possui, só deseja o que não pode ter, só valoriza o que é dos outros. Quando perde lamenta. Quando ganha não é suficiente. Quando abandona se desculpa. Nunca é bom, suficiente, admirável. Gana demais, inveja demais, podridão demais. Passam a vida desejando o material, e quando por vez encontram, começam a lamentar o tempo perdido. Nos criaram e esqueceram de nos ensinar a viver. A vida tão rica, cheia de gente tão sentimentalmente pobre. As vezes tenho a ligeira impressão de que esse mundo foi povoado pelos seres vivos errados. Mas, que posso eu fazer, além de reclamar? Pobre eu.
—  Laiza Brunett
Mas eu não sou romântica, porra. Até tento, as vezes, mas não sou o que os caras querem que uma mulher seja. Bem tentei uma vez ser fresca e mulherzinha, mas não consegui, acendi logo um cigarro de tão estressada que fiquei pela tentativa falha. Não vou lembrar do dia que te conheci, olhe lá se eu lembrar do seu aniversário, a vida me presenteou com uma memória péssima e infelizmente não tenho o que fazer. Não acho flores a coisa mais romântica do mundo, porque sei que por muitas vezes tem um péssimo motivo por trás delas, não vou ficar de conversinha no telefone, e essa história de ‘desliga você primeiro’ termina com o tumtumtum de minha parte. Se for pra me conquistar, venha com uma pizza, um cd bacana, ou me fale que ouviu uma música e lembrou de mim. Mesmo que eu não goste de você, vou ouvir quantas vezes puder até tentar me identificar com a música. Não me dê presentes em datas comemorativas, isso é tão clichê e ultrapassado. Prefiro ser surpreendida por uma flor vermelha em plena terça-feira as 14 da tarde. Não me ligue, apareça de repente na minha casa e me ache descabelada enrolada numa toalha ouvindo Lana Del Rey. Mas não se fabricam mais pessoas assim. Digo, pessoas que suportem pessoas não-românticas. É um caso do qual já abri mão. Tenho que me contentar com esses caras machomanqueachamquesabetudodavida. Oh, vida, você me sai com cada uma as vezes…
—  Laiza Brunett
Ah, sério que ainda tem gente atrasada assim? Ouvi alguém comentar do meu lado que mulher falar de sexo é feio, que mulher tem que se dar o respeito e concentrar em “assuntos femininos”. Provavelmente essa pessoa também deve achar que homem que cozinha é gay. Pra não discutir com gente desse tipo, me afasto. Vivo em um mundo em que não é o sexo de uma pessoa em que define o assunto a ser falado. Foi-se o tempo em que homem falava de futebol e mulheres ficavam na cozinha criando receitas. Resta apenas aguardar que o resto dessas mentes antiquadas enxerguem que nos dias atuais, pouco importa se você é homem ou mulher, se você tem boca, fala o que quer.
—  Laiza Brunett
E o mundo tá virando uma eterna falta do que fazer
ninguém interessante
nenhuma novidade
pessoas vazias
conhecimento raso
amores superficiais
atitudes forçadas
amigos convenientes
e pra acabar comigo de vez
bebidas mais fortes e corações mais fracos
vida.
—  Laiza Brunett