vèlo

Marquei na agenda o compromisso: reunião comigo mesmo. Chegando a hora me sentei na cama e comecei. Primeiro chorei pelo corte no dedo, pelos amigos que partiram e pela família distante. Chorei pela fome, pela dor e pelo sofrimento. Aos soluços chorei por aquilo que não volta, por aquilo que não veio e por tudo o que não tive. Pelos meus fracassos, por minhas frustrações e pelos dias que perdi na vã tentativa de ganha-los. Chorei como uma criança sem mãe, como um taciturno com pouco tempo e como quem chora porque o amanhã não existe. Chorei a vida e a morte, pela alegria e pela tristeza, os débitos e os créditos. Chorei de medo e de saudade, de dor e de coração. Derramei lágrimas pra lavar o peito e a casa. Chorei sorrindo e ainda sofrendo, como se o choro remediasse toda a mágoa antiga, como se remendasse todos os pedaços de mim que estão por ai espalhados. Aos urros e me condoí como quem nasce chorando porque já sabe que a vida não é nenhum conto de fadas. Chorei desabafos que se expostos, fariam com que muitos outros viessem chorar comigo. O choro é acúmulo, muitas coisas pra um despejo só, ninguém chora por pouco, o choro tem muito, pra que a lágrima seja pesada e caia, como se todo sofrimento do mundo pudesse escapar pelos olhos. O celular apitou no meio da tarde, hora de voltar pro trabalho, me lembrei de chorar pela rotina, mas já não da mais tempo fica pra próxima.
—  Gael Oliveira.