uns olhos

“tinha uns olhos de uma tal profundidade que, a princípio, uma pessoa sentia que podia cair lá dentro como num mar, um mar de sentimento. e em seguida, deixavam de ser um mar absorvente para se transformarem em faróis dotados de uma extraordinária intensidade de visão, de consciência e de percepção. onde pousassem aqueles olhos, todos os objectos adquiriam significado. eram ao mesmo tempo tão vulneráveis e tão sensíveis que tremiam como a chama delicada de uma vela ou como o diafragma de uma lente fotográfica muito sensível, que se fecha subitamente quando a luz do dia é intensa demais. percebia-se que havia dentro dela uma câmara escura, tal como num laboratório de fotografia, na qual a exposição à luz do dia, à crueza e à brutalidade causava o aniquilamento instantâneo da imagem. aqueles olhos davam a impressão de terem uma visão do mundo mais apurada. se a sensibilidade os levava a retraírem-se, a contraírem-se rapidamente, isso não acontecia porque se protegessem cegamente, mas para poderem regressar a essa câmara interior onde se desenrolava a metamorfose, através da qual a dor pessoal se transformava na do mundo todo, e a experiência pessoal da fealdade se transformava na experiência que o mundo dela tem. ao aumentar e situar o acontecimento insuportável na totalidade do sonho, transformavam-no numa compreensão da vida, ampla e arejada, e era isso que lhe dava aos olhos um poder essencialmente triunfante, que as pessoas tomavam erradamente por força, e que era na realidade coragem.”

anaïs nin, escadas de incêndio

Universos particulares

Nesses tempos corriqueiros, afazeres forçados, sorrisos amostrados, faz-se simpatia momentânea. Coisas que afugentam gente doída, que foge das altas conversas com várias batidas sonoras como pano de fundo. Umas mesinhas de bar e umas latas de cerveja. Quando não se é com quem se quer que seja, acaba em peça de teatro. Mas em conversas paralelas há algo de proveito que merece atenção despretensiosa. Banalidades pessoais, alguns ticos de sofrimentos para o lado do sensível. Conversa que maltrata o peito e permite lágrimas matutinas.

Pude notar na véspera, envolto de gente do bem, aroma da juventude, gritaria. Sentado num canto rindo à toa, a sanidade já cambaleando, consequência de poucos copos nas mãos. Teu sorriso num retrato perfeito. Tradicionalismo das artes plásticas, eu voltei no tempo. Sentado noutro canto da alforria, compartilhavas ao ar uns sorrisos bonitos e uns piscares de olhos já pouco lentos. Não me deixo ser piegas diante das tais situações, mas parece-me que fui feito para isto.

Quanto tempo não te observava, discreto, com copo descartável entre os dentes, eu não lembro. Meses seguiram-se depois do último carnaval, efervescência dos calores encontrados. Já faz tanto tempo… Sinto tanto pelas distâncias e pelos desencontros. Esses universos particulares que nunca se chocaram antes causam-me agonia. Poderia, por horas, naquela quina de parede onde te encontravas, reparar-te a tal ponto de levar-te para um lugar que fosse só meu. Até derramo uns terços de lágrimas; impossibilidades são as grandes causadoras destas divagações. Eu só gosto de olhar assim, de longe. Dou-te uns poderes emblemáticos, volto décadas e mais décadas só para ter o prazer da imaginação de enfrentar o mundo ao teu encalço, figurar nossos enlaces, apalpares de mãos… fissurar teus olhos deliberados, debruçar-me em tuas roupas cheias de adornos, moço outrora respeitado, que vive no berço de sentimentos mal olhados.

O dia insistiu nos primeiros raios solares. Roupas úmidas de madrugada que embola, hora da despedida. Te vi rápido, mais precisamente o teu sorriso. Retrato último que carreguei debaixo dos braços. Nas insônias que me acompanham, boto crença no encolhimento do universo, esperando que, num dia próspero, tu colidas em minha alma.

A vida é, intrinsecamente, uma tremenda aceitação inconsciente. Aceitou totalmente os seus olhos? Aceitou totalmente o seu corpo? Aceitou totalmente a vida que leva? Esta ideia de aceitação total que nos é imposta torna-nos infelizes, porque está continuamente a fazer comparações. Há sempre alguém que tem uns olhos mais bonitos, um corpo mais forte e que possui mais conhecimentos. E a pessoa sente-se sempre inferior e esta inferioridade vai-nos corroendo o coração. Tornamo-nos cada vez mais infelizes, mas o motivo foi criado desnecessariamente por nós. Não há necessidade de nos compararmos com os outros, porque não existe ninguém com quem nos possamos comparar.
Cada indivíduo é único. E seja o que for, é dessa maneira que a existência quer que esse indivíduo seja. Desfrute disso.
Substitua a palavra «aceitação», porque não é uma palavra muito feliz. Aceitação é uma coisa que tem de se fazer, não há alternativa. Há pessoas mais bonitas, há pessoas mais ricas, há pessoas mais fortes. E o que é que podemos fazer? Aceitar.
Eu não ensino a aceitação desta maneira. A minha ideia de aceitação é completamente diferente da de todas as religiões.
Eu proclamo a sua unicidade.
Cada um de nós é apenas aquela pessoa particular e não existe ninguém - nem no presente, nem no passado, nem no futuro - que seja exactamente igual a nós.
A existência confere-lhe uma individualidade única, alegre-se com isso. E dessa alegria virá a aceitação; com isso não tem de se preocupar. Eu nunca senti que devia ser alguém na vida.
—  Cada Indivíduo é Único, Osho, in ‘Acreditar no Impossível’

Pena que você tem um maxilar tão marcado quando sorri
uns olhos pequenos que se fecham quando a boca se abre para mostrar os dentes numa saudação de felicidade
que pena, eu poderia viver bem sem essas coisas
mas você tem um maxilar marcado quando sorri
E eu acho isso lindo.

Hoje eu vi uns olhos
tão lindos, tão escuros
que pensei que a noite
morava naquele rosto…
Mas, os dois pedacinhos
da noite, eram tristes…
Por que seria?…
Mal de amor - Pensei
Mas os olhinhos negros
passaram, assim como
as nuvens no céu:
Chegam, deixam-se admirar
e fogem sem um adeus,
sem um sorriso…
Deixam apenas
uma saudade pequenina
que se junta às outras
Saudades!
—  Olhos, Eneida.
Pai, eles falam tantas coisas, cada um diz de um modo. Uns dizem que pode, outros que é abominável aos teus olhos, uns julgam e repreende, outros abraçam e acolhe, aceitam, lançam fora, uns gritam, outros se calam, uns esperam, outros vão de encontro. Eles te dizem “Sim”, e dizem também ao mundo, uns gritam dizendo que não me é licito, e outros me diz que não convém, uns que sou pó, e apenas a tua misericórdia me permiti viver, outros, que o teu amor me sustenta. Quem sou eu Senhor em meio a multidão que fez do teu nome denominação de templo? Quem sou eu Senhor que vive em um mundo em que o teu Santos Espirito é blasfemado? Quem sou eu Senhor no meio de todos esses que não tem o teu discernimento? Quem sou eu Senhor? De tudo isto, lhes digo, sou apenas um servo que não quero seguir por doutrina do homem, e sim por teus conselhos.
Envia-me a mim o teu Santo Espirito.

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

— Fernando Pessoa. 

formigas

aqui as formigas migram
de um lado para o outro lagos de poças
já secas de açúcar cravadas no concreto as negras
formigas fragmentos nesgas de uns olhos negros
trilhando tinindo mitigam a dor
desse branco

liossi

Uns queriam um emprego melhor; outros, um emprego…
Uns queriam uma refeição mais farta; outros, apenas uma refeição…
Uns queriam uma vida mais amena; outros, apenas viver…
Uns queriam ter pais mais esclarecidos; outros, apenas ter pais…
Uns queriam ter olhos claros; outros, apenas enxergar…
Uns queriam ter voz bonita; outros apenas falar…
Uns queriam o silêncio; outros, ouvir…
Uns queriam um sapato novo; outros, ter pés…
Uns queriam um carro; outros, andar…
Uns queriam o supérfluo…
Outros, apenas o necessário…
—  Chico Xavier