uns olhos

desculpe o transtorno, preciso falar sobre um relacionamento abusivo

Aos quinze anos é tudo um mausoléu. As coisas nos atingem com o dobro da intensidade do que quando se tinha doze e dói. Aos quinze anos com aquelas espinhas na cara, um casaco de general e o caderninho de poesias no bolso eu escrevia poemas sobre como o amor poderia curar. Porque aos quinze anos tem muito disso, se apaixonar por alguém e achar que isso vai nos salvar das noites mal dormidas chorando. 

[lembro de quando eu tinha uns cinco anos e vi um casal se beijando na rua, e achei aquilo asqueroso. minha babá riu, e disse que quando eu crescesse aquilo seria a coisa mais natural do mundo pra mim. Com sorte amor faz aquilo com a gente ela disse.]

Eu estava infeliz pra caramba, mas mantinha a pose de durão. Porque não havia no mundo coisa que o amor não podia curar. Eu acreditava nisso.

Foi aí que eu conheci o Tiago. Eu estava no segundo ano, lembro bem, eu tinha acabado de mudar de escola e lá estava ele, de longe o cara mais incrível e influente de lá. Tiago tinha um cabelo engraçado com uns tons de grisalho uns olhos castanhos claro meio puxadinhos e umas sardinhas no rosto. No quinto dia de aula eu tomei coragem pra conversar era aula de filosofia eu fingi não ter entendido e ele me explicou de maneira ilustre ficamos conversando o dia inteiro sobre n coisas sobre a vida sobre o universo o tempo voou. 

Na segundo Tiago não foi à aula. Na terça também não. O que haveria acontecido? Fiquei louco. Na quarta durante a aula de educação física eu cai e bati a cabeça. Até então nunca havia sentido tanta dor na vida. Tiago surgiu do nada me ajudou a levantar e buuuum. [a dor passou ao vê-lo] 

Aos quinze anos o amor cura tudo.

Na quinta Tiago me chamou pra lanchar. Na sexta me ligou chorando no meio da noite e ficamos conversando por horas. Ele me falou das suas bandas favoritas: me fez gostar de the doors, U2, simple plan e oásis. Eu lhe falei de los hermanos, the calling, kid abelha e creed. O poeta favorito dele era o Leminski assim como eu, ele até tinha uma tatuagem no antebraço “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.” Tiago adorava contar piadas bestas que só ele ria, mas era tão gostoso ouvir aquela risada que eu nem me importava. Fomos dormir depois de umas três horas.

Escrevi o primeiro poema de amor pra Tiago. Aos quinze anos o amor cura tudo. Ah mas Tiago já tinha quase dezessete. 

Duas semanas passadas era a festa de aniversário de Tiago bebemos demais a noite inteira e até que Tiago me beijou

pausadamente.

Tiago não falou o dia seguinte inteiro comigo e na semana seguinte também não. No domingo me ligou bêbado chorando, se desculpou por não ter falado comigo e disse que não entendia porque não o procurei e que não se lembrava de nada da noite de seu aniversário.

Quase um mês depois num momento de distração meu Tiago pegou meu caderno de poesias e leu as coisas que escrevia. Tiago saiu esbaforido e sumiu por semanas. Nada nunca tinha doído tanto. Por que aquilo estava acontecendo comigo? 

Aos quinze anos o amor cura tudo.

Lembro que já era tarde da noite e chovia tanto, Tiago correu até minha casa e me deixou um bilhete “o destino quis que a gente se achasse, na mesma estrofe e na mesma classe, no mesmo verso e na mesma frase. – Leminski” [o nosso poeta favorito].  Eu nem acreditava em destino, mas acreditava em Tiago. Caralho o Tiago me amava. No dia seguinte fomos ao cinema e assistimos “medianeiras” [Tiago amou, falamos sobre ele por semanas] no mesmo dia aconteceu o nosso primeiro beijo [dessa vez sóbrios] foi doce e delicado [me lembrei de quando tinha 5 anos e vi aquele casal se beijando, agora eu entendia o que o amor fazia]

Aos quinze anos o amor cura tudo.

Na caminhada pra casa Tiago me recita um poema de um poeta novo nosso amor é impuro como impura é a lua e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo. Minhas pernas são água, as tuas são luz e dão a volta ao universo quando se enlaçam até se tornarem desertos e escuros. E eu sofro de te abraçar depois de te abraçar para não sofrer. “E toco-te para deixares de ter corpo e o meu corpo nasce quando se extingue no teu – Mia Couto” e no meio do sorvete sorrindo me pediu em namoro.

Aos quinze anos o amor cura tudo.

Três dias depois Tiago dês entrelaça nossas mãos nas ruas.
seis dias depois Tiago me renega aos amigos.
no dia seguinte ri de um comentário estúpido de um amigo sobre mim.
(na minha cabeça era tudo normal e eu o escrevia poemas)

Tiago me deixou plantado na porta do cinema pra curtir com amigos e me culpou por cobrá-lo. Tiago me culpava pelos comentários dos amigos. Tiago se embebedou numa festa e me culpou por não tê-lo impedido. Tiago me disse: cheira ai e me largou sozinho num lugar desconhecido completamente louco e me culpou por ter ficado louco. Eu me culpava e escrevia poemas bonitos pra Tiago na vã tentativa de que ele me perdoasse.

Aos quinze anos o amor curaria tudo

Tiago me anuncia na véspera da partida que iria morar em outra cidade e me culpa por estarmos naquele estado; Tiago viaja e some por seis semanas, (na minha cabeça era tudo normal e eu o escrevia poemas) na véspera do meu aniversário Tiago reaparece e me culpa pelo sumiço e por termos chegado ao fim. Tiago põe relacionamento serio horas depois numa rede social com outro e me culpa pela traição.

Agora aos dezesseis o amor curaria tudo?

Eu ligava e ele não atendia
Eu ligava e ele não atendia
Eu ligava e ele n ã o  a t e n d i a

Eu chorei incessantemente durante seis dias e seis noites e escrevi os mais tristes poemas e me culpava por aquela merda toda. Aos dezesseis eu não queria sentir nada, mas de algum modo esperava que o amor dos quinze me curasse de tudo. Quatro meses depois eu pesava dezesseis quilos a menos seis meses depois Tiago retorna a escola após a morte do pai. Dois dias depois a gente discute e Tiago me empurra na escada e me culpa por ter sido tão agressivo. No mesmo dia Tiago me liga pedindo desculpas e diz estar com saudade. E eu só conseguia pensar que aquilo era o amor curando tudo (na minha cabeça era tudo normal e eu o escrevia poemas bonitos).

Aos dezesseis anos o amor cura tudo

Tiago agora ria dos meus poemas.
Tiago agora detestava Mia Couto ou Leminski.
Tiago agora sumiu freqüentemente por dias.
Tiago deixava escancarado que não se importava com o que eu sentia.

Aos dezesseis anos o (meu) amor (me) curaria de tudo

Eu já não acreditava tanto no amor que Tiago me oferecia naquela sala de cinema. [mas acreditava que ele me curaria]
parei de escrever poemas romantizados sobre ele.
Tiago agora era alguém que eu não conhecia, mas sentia falta de amá-lo [isso não doía].
Tiago agora era alguém que eu não conhecia e aqueles olhos castanhos claros e cabelos grisalhos logo logo seriam substituídos por outro.
Tiago agora era alguém que eu não conhecia e os poemas de Leminski já não eram como antes.
Tiago agora era alguém que eu não conhecia de cabelo loiro e piercing no nariz.
Tiago agora era alguém que eu não conhecia e a lembrança vaga não doía.
Tiago agora era alguém que eu não conhecia.

Aos dezessete meu amor me curou de tudo.

Da porta pra dentro

É tudo poesia.
Teus olhos
a me fitarem
incessantemente
Mãos entrelaçadas
Pernas enroladas
Boca que não cala
Palavra dita
Palavra não dita
Entrelinhas
E os olhos…
Uns
nos
outros
É tudo poesia.

Lá fora
existe o mundo
e os seus poréns
e as suas incertezas
e as problematizações
e objetificações
Mas aqui,
da porta pra dentro
É tudo poesia.

(Tua)
Júlia.

(penso em você) somos página virada?


imaginava um contato mais afetuoso, caloroso, na verdade não sei qual palavra usar, mas eu esperava um contato diferente depois de tanto tempo sem um diálogo.
penso que talvez tenha sido maravilhoso esse fim “sem fim”. é gostoso pensar que um dia, talvez, a gente se encontre, já que o adeus não existiu.
no fundo eu sei que o “o mundo é pequeno demais pra nós dois”.

sua complexidade, minha simplicidade.
minha complexidade, sua simplicidade.

nosso amor inventado e extremamente real.
talvez você tenha sido o homem mais importante pra mim até esse momento da minha vida, talvez não, você foi! mas repito: até ESSE momento da minha vida.

as vezes eu só quero te escrever, escrever porquê sinto vontade de agradecer, mas as gente faz mais sentido quando a pele encosta uma n'outra e quando meus olhos encontram a luz que seus olhos brilham, como o perfume que exala da rosa, as vezes fraco e quase imperceptível, mas presente.
bom, seus olhos foram um dos mais bonitos e expressivos que já vi, se não o mais. e talvez seus lábios sejam os mais saborosos, tanto quanto, o café que amo tomar às 17h da tarde.
você sempre falava que café faz mal, seria um aviso?

as vezes me pego em uns flashs: seus olhos, sorriso, você fumando, você virando os olhos, você saindo do banho, você.
você ao som de Jimi Hendrix.
você ao som de Tupac.
você no silêncio.
como uma pessoa pode ser tantas coisas, digo, como você pode ser tantos Philippes e ser tão único?

você sempre me dizia que era um labirinto, seria um aviso?
quantos avisos você me deuu ao longo desse curto tempo em que estivemos juntos?

as vezes eu queria saber se você ainda lembra de mim quando escuta “Sweet Child O Mine”, sei lá, só queria saber porquê eu lembro de você quando escuto “I Need You” e sinto saudade dos seus lábios.

as vezes eu só queria mais um pouco de você, o seu sofá, e um beijo que durasse o tempo dessa música (i need you). é como se esse beijo fosse recarregar uma “bateria" em mim, ou talvez só fizesse eu me sentir viva.

me sinto estranha quando lembro de você. por que acabou?
omissão minha?
desejo do destido?
karma da nossa vida?
não importa. hoje já não é. não foi, ou foi?

“o que é bom dura tempo bastante pra se tornar inesquecível” é o que dizem, torço pra que você tenha sido um péssimo acontecimento na minha vida, Deus que me livre lembrar de você pra sempre e não poder te tocar. Deus que me livre.

Será que todas essas pessoas que andam por aí parecendo bem e felizes estão realmente bem e felizes? É uma pena que ninguém consiga diferenciar a felicidade verdadeira da felicidade forçada. Às vezes seus olhos dizem bem mais, clamam por ajuda, mas ninguém olha neles. Somos uma geração que vive com os olhos em uma tela e se esquece de olhar nos olhos uns dos outros.
—  M.

Segundo dia sem você


Hoje acordei pior que ontem, na ordem natural das coisas, achei que estaria melhor, mas isso só me faz lembrar o quão distante estamos, e isso me deixa louco. Acordei cedo e respirei fundo parar encarar o dia la fora, e acredite, ele estava lindo, mas algo dentro de mim não conseguia curti-lo, e foi quando o cheiro do café me repugnou que eu percebi que tinha algo completamente errado (como se te perder não fosse o suficiente) mas me reviro ao sentido literal das coisas, o cheiro do meu café me repugnou, e isso me assustou, tu sabe mais do que ninguém que café e a minha segunda coisa preferida no mundo, porque quem fica no topo da lista tem um sorriso lindo e uns olhos castanhos de tirar o fôlego. Foi então que eu lembrei, na verdade percebi, que não tinha jantado a noite, ando sem fome sabe? Na verdade perco a noçao meio de espaço e tempo, acho que ja emagreci alguns cinco quilos so nesses dias, por um lado é bom ne, ja posso ouvir você dizer “Ta bom pra você que é neurótico com peso”, eu iria rir e dizer que você tinha razão, na verdade você sempre teve ne, você sempre tão bem resolvida me assusta, me faz perceber que tu pode viver sem mim e isso me enlouquece, da ultima vez que eu mandei tu me esquecer a quatro anos atrás, tu realmente foi embora, mas eu sabia que tu ia voltar, mas agora a incerteza me consome. Há e o café continua sendo o segundo da lista ta.

—  Plutão 
Ei, moça? É você mesma, você deve estar se perguntando até agora se eu estou falando com você, sim, é com você, sabe aquele seu amigo que está sempre ao seu lado e você vive falando ” nós somos só amigos nada mais” já parou pra pensar que esse seu amigo por ser o cara que você está procurando? Você vive reclamando dos otários que já passaram em sua vida, vive falando que homem nenhum presta, mas você já olhou ao seu redor? Já notou que aquele cara que aguenta você falando dos seus ex, que está sempre conversando com você, te dando vários conselhos, já notou que ele pode ser o melhor namorado que você pode ter? Ei menina, abre os olhos, enquanto uns não lhe da o devido valor, tem um querendo lhe dar todo amor.
—  Quando o cara presta vocês querem só amizade 
todo astronauta aprende logo cedo que somos solidão

sento no braço do sofá e assisto animações depois da meia noite,
eu falo sozinha e rio sozinha também.
tô cansada de tentar me colocar pra cima
quando tá tudo indo pra baixo.
olho para o teto a porta a cortina fora do lugar
me pergunto em que canto me perdi.
as paredes ecoam o meu caos:
nenhuma grade pode prender o silêncio no meu peito.
e o pássaro azul já não canta mais.

passam os anos se acumulam os danos
a vida é um borrão.
há esperança em ter esperança?

o chão dança sob meus pés:
vou fechar os olhos
não vai doer
se eu não me ver
cair

estou caindo pela toca do coelho,
essa queda não parece findar,
eles dizem que o Chapeleiro é maluco
mas quem não é nesse lugar?
vou pintando rosas de vermelho
equilibrando cartas
eu não gosto de chá
os relógios estão no congelador

queria encolher até entrar por uma porta e encontrar outro lugar.
mas minha querida
isso não é o País das Maravilhas
e você não é Alice.

quando tudo é confuso
não é preciso pálpebras cerradas para o mundo parar de girar.
não tenho muitos medos
nem pesadelos
a realidade sufoca qualquer réstia de pureza
falta oxigênio no ar.

meus poemas são fagulhas no escuro

eu tenho que manter o controle
eu tenho que manter o controle
eu tenho que manter o controle

enquanto buracos negros colidem
mas a Teoria da Relatividade não explica
porque eu consigo implodir a partir do vazio.

e se eu morresse agora,
nem um grão da galáxia se moveria.
isso me conforta.
o ser humano quer viajar no tempo
mas não sabe lidar com o tempo que tem.

e nós olhamos a poeira estelar
caímos ao mais leve sopro
reagindo ao toque mais suave
o universo não se importa conosco.
o espaço é vazio frio e escuro
como os nossos sonhos são.
mas há certa beleza na inexistência.
esquecer é se deixar levar.
e esse não é um poema sobre tristeza,
decerto é um poema triste
mas sobre a esperança que reside nas manhãs.

porquê eu consigo esquecer que estou quebrada por uns instantes
quando olho o céu e vejo estrelas por todos os lados.

e se todas as estrelas que vemos já estão mortas há tempos?
mas nós nascemos para morrer.
e nada disso é importante.
afora a âncora que te segura
e não te deixa flutuar no espaço.

esse céu estrelado é um pedaço da liberdade que procuramos.

Sobre o amor

Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.

Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.

O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem atraídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma Coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.

Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério - o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.

Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.

A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.

Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda­roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tUdo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar­se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.

E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas… Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!…

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.

—  Ferreira Gullar

gabriel-fantin  asked:

Olá, só passando pra avisar que estava vendo seu Tumblr e acabei vendo suas fotos. Queria dizer que você é um fator maravilhosa, com olhos lindos. Não tem como não se encantar com você. Uma pena que suas fotos sensuais parecem ter mais reconhecimento do que suas fotos normais, faz parecer que ninguém aprecia nada além de bunda KK mas você é linda, tem uns olhos que me apaixonei neles. Adorei, parabéns ❤

Aaaaai meu deus, obrigadaaa amor ♡
É, minha bunda é mais conhecida q meus olhos aqui no tumblr mesmo ashuahsuahs
Mas é isso, não ligo pq amo a minha bunda e se tem mais gnt q acha bonito, ótimo!
Mas você é o primeiro q fala dos meus olhos aqui, obrigada de verdade e seja sempre bem vindoooo ♡♡♡

Irmão da melhor amiga.

Amigas durante uns 4 anos, temos muita intimidade. Conversamos sobre tudo, inclusive e principalmente sobre experiências sexuais. Certo dia durante uma aula, algumas amigas ao nosso redor falam sobre Juliano, irmão dela. Até que eu resolvo chama-la de cunhada. Ela, claro, chegou em casa e foi correndo contar para o irmão o acontecido. Ele, por sua vez não perdeu tempo, me chamou no facebook e disse: “Então tens chamado a Cláudia de cunhada?” Nossa conversa rendeu muitas indiretas e insinuações e logo me vi completamente molhada por uma simples conversa. Ele, loiro, alto, grandão, com uns braços enormes, olhos azuis, e daquele tipo cafajeste que a gente faz tudo por ele. Conversa vai, conversa vem, ficamos de “marcar algo qualquer dia!”. Acabou que não marcamos nada, mas continuávamos conversando regularmente, com muuuuita safadeza.

Certo dia, tínhamos um trabalho pra fazer sobre qualquer coisa e Cláudia viria a minha casa. Na maior parte do tempo estou sempre sozinha em casa, o que já me rendeu inúmeros orgasmos. Cláudia me ligou quando estava perto daqui para que eu abrisse a porta. Assim que desliguei o celular fui para a porta espera-la. E foi então que eu vi um carro já visto muitas vezes antes parando na frente da minha casa aparentemente para deixa-la, no entanto duas criaturas desceram do carro. Sim, Cláudia e Juliano desceram do carro e vieram em minha direção. Naquele instante mil pensamentos sacanas vieram a minha mente. Óbvio que não iria deixa-lo ir embora tão cedo né… Em menos de 1 min os dois estavam na minha sala. Os cumprimentei com um beijo, claro que o dele foi mais demorado e envolvente, já que me abraçou e “sem querer” deixou a mão deslizar pelas minhas costas repousando um pouco acima da minha bunda. Cláudia obviamente estava com tudo esquematizado, me deu uma piscadinha e disse “Amiga, vou lá no teu quarto, preciso usar seu computador, ta?” Eu prontamente assenti e disse a senha para ela. Me voltando a Juliano, disse pra ele ficar a vontade, fiz todas as boas maneiras de uma anfitriã. Ele prontamente sentou no sofá e me chamou para sentar ao lado dele. Sentei perto o suficiente para sentir seu perfume e ele logo passou a mão pelas minhas costas me puxando pra perto. Até tentamos conversar, mas não resistimos, assim que nos olhamos começamos a nos beijar. Os beijos eram acompanhados de várias caricias e malícias, com muita pegada. Tudo muito intenso, aquela altura eu já estava pingando e ele completamente excitado.

Não demorou muito até que ele arrancou minha blusa atirando-a para longe fazendo o mesmo com a dele. E assim ficamos nos excitando por pouquíssimo tempo, já que não aguentávamos de tanto tesão. Foi então que ele me propôs ir para o meu quarto. Eu, prontamente gritei para Cláudia ir para o outro quarto.

Subindo as escadas, eu indo na frente e o puxando pela mão, e degrau que outro parando e empinando mais a bunda, ele instintivamente me puxando para perto para que eu pudesse sentir seu membro, cada vez mais volumoso na bermuda. Com nossos corpos colados, ele chupava meu pescoço e nos olhava no espelho que tinha no final da escadaria, e me dizendo o quanto eu ficava gostosa com aquele short curtíssimo e colado que deixava a mostra a poupa da bunda.

Não perdendo mais tempo chegamos ao meu quarto, onde ele foi logo arrancando o resto de minha roupa. Nem eu nem ele aguentava mais, então ele colocou minha calcinha para o lado, e ainda brincou comigo, passando a cabecinha de seu pau delicada e estrategicamente por toda a minha bucetinha, que a essa altura pingava. Eu já não aguentando mais, implorei para que me penetrasse, queria sentir todo aquele grande membro dentro de mim de uma vez por todas. Implorei para que me fodesse todinha. E foi o que ele fez, majestosamente. Eu gemia, gritava, pedia pra ele me bater, pra me foder cada vez mais, e ele me mandava calar a boca já que a irmãzinha estava no outro quarto, eu o fitei e disse que tinha certeza que não haveria problemas, pois ela sabia muito bem como era. Ele então, deu de ombros e me pôs de quatro, enquanto me fodia forte e me batia eu rebolava cada vez mais louca de tesão. Já havia gozado múltiplas vezes, foi então que ele me perguntou se podia gozar dentro de mim, disse que ele podia fazer o que bem entendesse. Quando disse isso, ele ficou completamente louco, me fodeu demais, e a cada passo que ele metia mais forte, eu ficava mais louca na cama e pedia mais. Ambos gozamos de novo, dessa vez ele me puxou pelos cabelos me forçando a ficar sentada na cama enquanto ele de pé colocava todo seu generoso membro dentro da minha boca, eu como sou louca por boquete não pensei duas vezes e comecei a chupa-lo. Não demorou muito para que ele me desse a recompensa por um trabalho bem feito. Gozou na minha boca, e eu amando tudo engoli e só parei de chupa-lo quando ele me puxou pra cima dele enquanto deitamos na cama. Nós dois exaustos deitamos e ficamos um bom tempo conversando e olhando pro teto. Sabíamos que no momento em que ficássemos olho a olho de novo, não aguentaríamos e partiríamos para o próximo round. Não deu outra, ficamos assim o resto da tarde. E minha amizade com Cláudia depois disso, só aumentou mais ainda, e até hoje quando ela vem aqui, ele se oferece para traze-la.  

only exception

Se você soubesse o quanto eu fico feliz em ver o seu sorriso, cê não acreditaria. Quer me ver feliz é eu te ver feliz, saber que você tá feliz. Sei lá, só permaneça feliz.Você é linda sorrindo. Na verdade, você é linda de todos os jeitos. Sorrindo, acordando, lavando louça, brigando comigo, bravinha, com ciumes… Linda. LINDA! Gosto quando olha no fundo dos meus olhos e fica quieta por uns segundos, seus olhos verdes sorriem pra mim de volta. Os brilhos deles me mostram o quão reciproco é o nosso amor. Há quem não acredite, há quem pensam que é besteira, há quem diga ‘como podem se amar tanto assim?’ a verdade é que eu não sei, eu apenas te amo. Não só te amo como sou louca por você. Por você toda. Pelo seu toque, seu cheiro, seu beijo, seu olhar, suas mãos, seu calor, seu corpo, tudo.
Por você, Gabi, 
Eu te amo ♥

Sábado Song Harry Styles – Just a Little Bit of Your Heart

*Esse imagine é pedido da Moni, e eu não pude negar, afinal de contas eu amo essa música, amo o Styles e essa música fez parte de um momento bem complicado pra mim, então espero que gostem, sou péssima em songs…

           O barulho das botas batendo contra o assoalho de madeira denunciaram que ele havia acabado de entrar em casa, eu nem sabia onde ele esteve, não o perguntava e sinceramente não precisava saber, bastava eu ter a ideia de que era com ela que ele esteve, o cheiro doce de perfume feminino impregnado no casaco não deixava dúvidas disso… Mas eu continuava sendo boba…

           Assisti a sombra de Harry passar pela sala e ir subir as escadas devagar, ele provavelmente tentaria se livrar de qualquer vestígio dela, ele me daria agora só um pouquinho de seu coração. Subi atrás dele e ao empurrar a porta do quarto o encontrei sentado na cama, ao me notar ali um sorriso curto e simples surgiu em seu rosto me fazendo suspirar e esquecer o que ele estava fazendo algum tempo atrás:

- Como você esta (s/n)? – ele perguntou baixo e foi até mim acariciando meu rosto.

- Eu estou… Bem… - sussurrei omitindo a enorme rachadura que se formava em meu peito.

- Que bom – ele beijou minha testa com calma e se afastou devagar.

- Sabe Harry… Isso não é fácil – eu soltei o ar devagar e mordi o lábio ao ser encarada pelo moreno a minha frente.

- O que não é fácil?

- Nada… Eu só disse, o que todos costumam dizer… - suspirei.

- Só você mesmo (s/a)… - deu uma risada fraca e entrou no banheiro trancando a porta.

- Não é fácil saber que não sou sua única – minha voz saiu falha e eu me deitei encolhida na cama.

Eu continuava sendo tão boba…

           Após alguns minutos, a porta do banheiro se abriu e o cheiro gostoso de quando ele saia do banho invadiu o quarto deixando o ambiente menos torturador, Harry apagou as luzes e se deitou ao meu lado me puxando para perto devagar:

- Boa noite (s/n) – ele sussurrou e me deu um selinho fraco me fazendo suspirar.

- Harry… - chamei baixo e ele fez um som baixo com a boca – Tudo que eu te peço… É um pouquinho do seu coração – os olhos dele se abriram devagar me encarando.

- Por que ta falando isso babe?

- Porque eu sei que não sou sua única… - soltei o ar devagar ele fechou os olhos por uns instantes digerindo a informação – Mas pelo menos, sou alguma… Certo?

- Certo – a voz dele ficou mais rouca e ele me puxou mais colando nossos corpos.

- Ouvi dizer que um pouco de amor é melhor do que nenhum – mordi o lábio fraco e a mão dele começou a subir e descer lentamente por minhas costas – Só um pouquinho do seu coração é o que eu quero… Só um pouquinho do seu coração…

- Ta ok… Você o tem – soltou e eu sorri fraco.

- But I’ll still be a fool… - cantarolei baixo e vi um sorriso curto se formar em seu rosto – ‘Cause i’m a fool for you…

mel/

@afroditeskratch

Depois de terminar todas suas lições do dia, Olivia foi para seu dormitório e tomou um banho morno para relaxar. Saiu do banheiro a procura de Afrodite, sua amiga, de quem a cada dia ficava mais próxima. Como a garota não estava lá, a morena decidiu, então ir para a sala comunal, na esperança de que a outra estivesse lá. Não queria deitar ainda nem nada, estava elétrica e queria uma companhia para poder jogar conversa fora. Esquadrinhou o a sala comum por uns segundos, até seus olhos capturarem o alvo pretendido e, assim, marchou até a Skratch. “Posso saber o que a senhorita está fazendo que não é companhia para mim?” questionou em tom de brincadeira enquanto sentava ao lado da corvina.

Olha para ela. O que vês? Um sorriso bonito, postura, segurança, uma felicidade constante, uma vida perfeita.
Quando estás com ela, ela ri de tudo, bem alto, contagiando todos os que a rodeiam, abraça os amigos sempre que pode, às vezes está no seu canto acompanhada pela sua música e pelos seus pensamentos, não é? Talvez o facto de ela se rir constantemente seja por procurar felicidade nos outros, por não conseguir fazê-lo em si própria. Talvez abrace os amigos sempre que possível por não ter o apoio que precisa, por sofrer sozinha, por guardar tudo para si, por ter medo de falar. E quanto a gostar de estar sozinha? Não a censures, ela acostumou-se à solidão desde muito cedo.
Insegura. Melancólica.
Tenta compreender os seus olhos. Observa-os bem. Fazes ideia do que aqueles olhos já viram? Das histórias que contam?
E aquele coração? Transporta uma saudade enorme. Saudade de tudo. Dos velhos tempos. Das amizades perdidas. De alguns familiares com os quais não tem contacto. De quem teve de deixar para trás.
Nostálgica. Perdida nos seus próprios pensamentos.
Agora olha bem para ela. Repara que ela não precisa de muito para se sentir bem. Só precisa de uns braços que a protejam, de uns olhos que olhem por ela, de um sorriso reconfortante, e de alguém que seja paciente ao ponto de a ouvir. Sim, ela é um ser humano como todos os outros, com medos, inseguranças, saudades guardadas e muitos arrependimentos, e só precisa de alguém que a oiça e que a compreenda.

Eu penso até que fui uma criança normal. Tirando o fato de que eu adorava prender mosquitos dentro de um vidro e colecionar os cadáveres, eu acho que era absolutamente normal. Um dia, eu tava vendo a novela com a mamãe e vi um casal se beijando. Achei aquilo um negócio nojento… Mamãe ignorou, não esboçou nenhuma reação, então deduzi que adultos estavam acostumados a serem nojentos, fosse o sentido que fosse. É difícil dizer a exata fase em que você começa a sentir atração física por alguém, quando você passa temer o “parabéns pra você” porque sabe que depois vem o “com quem será”, quando você começa a matar aula pra brincar de verdade ou desafio, quando você começa a dizer que “gosta” de alguém… Simplesmente acontece e quando você menos imagina também saí por aí achando as nojeiras da vida a coisa mais normal do mundo. Foi assim comigo também. Ao contrário do que muita gente pensa, eu não nasci já programado pra amar as pessoas ao meu redor. Já perto do ensino médio, quando eu achava que nunca ia gostar de ninguém, recebi minha primeira declaração. Foi um choque. Aí achei que as coisas funcionavam meio que assim. Você era escolhido e, num passe de mágica, passava a escolher também. Todo mundo dizia que éramos perfeitos juntos. Eu me perguntava o motivo. Mas o que é que eu poderia esperar? Mamãe me disse que quando os adultos se amam, os adultos se beijam, constroem família, esse tipo de coisa. Não me pareceu muito interessante, mas todo mundo da minha sala já estava na fase de comprar balas de menta e gastar dinheiro com brilhos labiais de sabores diferentes. Eu não tinha nada a perder. Um dia, num passeio da escola, dei meu primeiro beijo. O encontro dos lábios foi mais um esbarrão, e minha língua se recusava a sair do canto dela. Mais do que normal, eu presumo. Gostar de alguém é se esbarrar na estampas das blusas que achamos infantis demais, nos brinquedos jogados no chão, na programação da TV que não é mais a mesma. No ano seguinte, saí do colégio. Conheci o Thiago. Acho que eu podia dizer que ele era meu melhor amigo. Thiago tinha uns olhos verdes tão bonitos que eu não conseguia parar de olhar pra ele. Mas eu não gostava de Thiago, não, eu nunca gostei. Ele era meu melhor amigo de verdade. Mas quando ele falava de garotas, eu me incomodava. “Gostar” parecia ser tão simples pro Thiago, tão bom. E eu me incomodava com aqueles olhos verdes que me puxavam bem pro fundo do poço. Eu vi que meu corpo estava mudando. Eu comecei a perceber que minha voz tinha mudado. E o coração eu nunca entendi porque continuava tão pequeno, tão miúdo, dentro de um corpo tão grande. Quase era possível que ele se perdesse lá dentro. Eu era uma criatura esquisita. Thiago dizia que eu era uma criatura esquisita. Falava sempre que eu precisava encontrar alguém pra mim… Em todas as festas que íamos juntos, ele tentava me arrumar alguém. Até que, no nosso primeiro porre, ele me perguntou de que tipo de pessoa eu gostava. Eu falei que seria fácil se apaixonar por alguém cujos olhos fossem tão lindos quanto os dele. Thiago foi embora e nunca mais falou comigo. Alguns amigos em comum disseram que o Thiago tava com medo de eu estar gostando dele e não queria me magoar, só não tava afim. Foi uma perda difícil de superar. Cheguei em casa e vi no espelho que meus olhos eram lindos, minha boca era linda, meus cabelos, meu tom de pele. E eu não sabia o que merda estava acontecendo comigo. Num acampamento da escola, conheci o Pablo. Ele era uma série mais velho do que eu, e eu só conseguia pensar que ele tinha os olhos mais lindos até do que o otário do Thiago. Eu percebia cada movimento dele tocando a bola no campo de futebol, decorei cada gota de suor que ficava em sua camisa, cada queda que eu me preocupava. Pablo e eu ficamos mais próximos do que nunca. E eu não sabia o que merda estava acontecendo comigo. Então, era isso? Gostar de alguém, era isso? E porque “isso” estava acontecendo justamente comigo? Por que com Pablo? Por que tinha que ser com ele? A gente não escolhe quem é que vai gostar. É normal. Foi o que minha mãe me disse quando eu contei pra ela que estava gostando de algo que eu não poderia gostar. Mamãe me abraçou e disse que eu estava finalmente crescendo. Quando nossos horários eram compatíveis, Pablo arrumava um jeito de me ver. Me arrepiei pela primeira vez quando ele se aproximou de mim e pude sentir de perto o frescor do chiclete de hortelã que ele sempre levava na bolsa. Por que aquilo estava acontecendo comigo? Agora eu entendia cada palavra que o Thiago falava sobre a namoradinha dele. Eu entendia as tremedeiras, a falta de ar, a sensação de que o chão pode desabar a qualquer momento, os choques térmicos… Pablo me contava dos livros que lia, dos filmes que via, das viagens que fazia. Eu sabia que o seu prato preferido era peixe com fritas, eu sabia que ele preferia pizza fria e que por ele a vida só começava após às 11h da manhã. Tomávamos sorvete juntos e ele nunca me deixava pagar. Eu achava bonito quando ele ficava envergonhado por eu dizer que o nome dele era de galã mexicano e que combinava com ele. Eu deixava as jujubas vermelhas pra ele. Sempre. Eram as minhas preferidas, mas eu queria ver Pablo feliz comendo jujubas vermelhas. Eu queria vê-lo sempre bem. E quando alguma coisa ia mal, era no meu colo que ele chorava, e eu passava a mão no cabelo preto dele, assim como mamãe passava no meu quando eu ainda estava me perguntando o motivo… Até que Pablo me beijou pela primeira vez. Eu sempre rio lendo isso, porque nossas testas trombaram e eu lembro o quanto ele ficou nervoso. E lindo. E todos os beijos treinados em travesseiros e cubos de gelo foram por água abaixo. Eu podia sentir as minhas artérias se fechando. Naquele minuto, eu coloquei a minha mão no peito de Pablo e percebi que era igual ao meu. Exatamente igual. Foi o encontro mais fantástico que tive com a minha própria alma. Não dissemos mais nada. Apenas ficamos ali, abraçados, um corpo pedindo perdão ao outro e o amor pedindo perdão ao mundo. Pablo nunca fez um pedido oficial, mas estávamos namorando. O primeiro namoro de alguém… Mamãe me peguntava quando é que eu ia levar Pablo pra casa. Ela ia fazer a lasanha de frango famosa dela. Teve uma conversa séria sobre sexo comigo. Minhas bochechas ficavam vermelhas só de pensar. Mamãe, eu disse, vamos com calma. Eu lembro que guardei o bilhete do cinema na primeira vez em que fui com Pablo ao cinema. Uma idiotice… Mas era idiotice adolescente. Então era normal. Todos da escola comentavam. Perdi alguns amigos por causa de Pablo. Mas tudo bem… Aprendi a não ligar muito pra essas coisas. Eu não sabia o motivo de ter acontecido comigo, mas se aconteceu, e eu conheci o Pablo, acho que valia a pena. Doeu quando tive vergonha de beijar ele de novo. Não que já não tivéssemos nos beijado outras vezes, é claro, éramos namorados. Mas eu evitava beijar ele em público e, às vezes, ele notava. O transporte público é público e eu pago. O amor não é público, pensei. Eu entendia, sério, mas era dolorido. Eu só fechava os olhos e lembrava da sensação que tive quando vi aquele beijo de novela e quando percebi que mamãe não se importava com ele. Quando beijei a primeira pessoa que disse que gostava de mim. Eu lembro que senti nojo, vergonha e revolta, tudo ao mesmo tempo. Eu pensei que nunca deixamos de ser pequenos, todos, assustados com a vida, com as crianças rosas e azuis, com a cruz, a seta e o círculo, com esse tipo de coisa. Eu também já senti nojo de mim. Por ser um ser humano e participar de todos esses medos. Talvez não os mesmos, claro, mas mesmo assim, eu também tinha meus medos. Medo, principalmente, de não ser capaz de impedir Pablo de ir embora. De não ser suficiente. Eu e ele terminamos quando passou um grupo de conhecidos do curso de inglês e eu disse que ele era só um amigo. Pablo me acusou de imaturidade… Concordei com ele. Fui pra casa chorando e me sentindo a pior pessoa do mundo. Lembrei de tudo o que ele fez por mim e me senti um lixo. Mamãe disse que era normal… Já que o seu amor é tão especial, mamãe disse, prove-o. E eu pensei: Como vou provar que amo Pablo? Aí eu comprei um livro do Leminski (Pablo adorava poesia, eu achava uma bobagem), e escrevi na contracapa:
“ISTO DE QUERER SER EXATAMENTE O QUE A GENTE É AINDA VAI NOS LEVAR ALÉM”. Pablo, eu te amo além do que sou.
Não tive coragem de levar o maldito livro pra escola. Deixei em cima da minha escrivaninha… Quando eu voltei, mamãe estava sentada no sofá, com os seus olhos de abismo, seu cabelo desgrenhado, e com o vestido que ganhou de mim todo manchado de lágrimas.
Eu disse: Mãe, o que houve?
Aí vi. O livro na mão dela. Era isso o que tinha havido.
Olhei pro outro lado e vi que minha mala estava arrumada. Mamãe se virou pra mim e disse: “Eu quero que você suma da minha frente em menos de 24h. Eu quero que você saia e esqueça que um dia teve mãe. Quero que você engula essa sua safadeza, sua promiscuidade de merda, quero que você se dane! Ouviu? Quero que você vá pro inferno, você e seu prostituto de merda, seu veado!”
Não me sustentei em pé. Não senti quando caí e abracei meus joelhos. Lembrei do riso do Pablo. Lembrei das cantigas que mamãe cantava pra mim, das minhas fotos de crisma. Lembrei de como o Pablo ficava bonito naquela camiseta azul que eu dei pra ele. Lembrei das vezes em que mamãe deixou o maior pedaço de bolo pra mim. Pablo também fazia isso. Lembrei do carinho que ela fazia no meu cabelo. Lembrei de como eu adorava ver Pablo desenhar. Lembrei do acampamento em que o vi pela primeira vez. E me vi. Me vi em seu corpo. Me amei porque o amei. Lembrei do porta-joias que dei pra minha mãe no Dia das Mães e ela dizia que eu era o melhor presente dela. Lembrei de quando choveu no meu aniversário de seis ano, estragando a decoração, e lembro de como a mamãe pintou as paredes da casa pra ficar mais ou menos parecido com o mini picadeiro encharcado lá fora. Lembrei do maldito ingresso do cinema guardado no fundo do meu armário.
Por que comigo?
Lembrei também das vezes em que o Pablo chorou por minha causa. E agora mamãe chorava também. Pablo sabia que eu não era só dele. Ele sabia que eu também pertencia ao universo que eu fingia que não me ignorava. Eu pertencia também ao pecado que eu não acreditava ser verdade. Eu também pertencia ao inferno, à doença, a vida nos guetos, nos boeiros. E Pablo chorava porque sabia que eu nunca sairia de lá completamente curado pra poder amá-lo da forma certa. Se é que existe uma forma certa.
Levantei do chão duas horas depois. Minha mãe continuava imóvel. Chorando em silêncio. Silêncio era tudo o que ela poderia me oferecer agora.
Recebi uma mensagem no celular… Era da irmã de Pablo. Ele estava num hospital. Foi atacado na praça por um grupo enquanto jogava bola. Pablo, eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Por nós dois. Eu também não sei o que merda foi que aconteceu.
E agora, na cobertura do prédio, as sirenes da polícia ficam cada vez mais distantes. Minha mãe está lá embaixo. Rezando por mim. Ela me odeia.
Agora, na cobertura do prédio, quando toda essa porcaria está prestes a acabar… No meu último suspiro, eu percebo que tentei amar pela primeira vez e não consegui.
E, também pela primeira vez, eu era igual a todo mundo.
Ninguém sabia amar.
Era normal. Infelizmente, era normal.
—  Cinzentos, “Mamãe disse que era normal”.

“tinha uns olhos de uma tal profundidade que, a princípio, uma pessoa sentia que podia cair lá dentro como num mar, um mar de sentimento. e em seguida, deixavam de ser um mar absorvente para se transformarem em faróis dotados de uma extraordinária intensidade de visão, de consciência e de percepção. onde pousassem aqueles olhos, todos os objectos adquiriam significado. eram ao mesmo tempo tão vulneráveis e tão sensíveis que tremiam como a chama delicada de uma vela ou como o diafragma de uma lente fotográfica muito sensível, que se fecha subitamente quando a luz do dia é intensa demais. percebia-se que havia dentro dela uma câmara escura, tal como num laboratório de fotografia, na qual a exposição à luz do dia, à crueza e à brutalidade causava o aniquilamento instantâneo da imagem. aqueles olhos davam a impressão de terem uma visão do mundo mais apurada. se a sensibilidade os levava a retraírem-se, a contraírem-se rapidamente, isso não acontecia porque se protegessem cegamente, mas para poderem regressar a essa câmara interior onde se desenrolava a metamorfose, através da qual a dor pessoal se transformava na do mundo todo, e a experiência pessoal da fealdade se transformava na experiência que o mundo dela tem. ao aumentar e situar o acontecimento insuportável na totalidade do sonho, transformavam-no numa compreensão da vida, ampla e arejada, e era isso que lhe dava aos olhos um poder essencialmente triunfante, que as pessoas tomavam erradamente por força, e que era na realidade coragem.”

anaïs nin, escadas de incêndio