ultimatos

eu disse que eu vou continuar procurando alguém interessante nas ruas da lapa, nas esquinas da zona sul, quando eu sair no baixo gávea, quando eu beber um pouco depois da faculdade. eu disse que vou seguir em frente, supostamente dar meus pulos, não me envolver muito, me apaixonar cada vez que vir alguém bonito no ônibus. mas, pra ser honesta, faz tempo que eu sigo em frente e é puta cansativo. eu já achei alguém, ok? alguém que pode ver quadros do manet e chorar vendo senhor dos anéis comigo. alguém que ri quando eu faço piadas escrotas e que não pega pilha com a minha mania de reclamar de absolutamente tudo. eu achei. e eu não vou fugir disso só porque não é recíproco. eu tô aqui, não tô? não é uma despedida ou um ultimato. só queria dizer que faz muito tempo que eu não tenho vontade de ficar em lugar nenhum, mas contigo eu sinto. e permaneço. e não é eterno e eu também não vejo prazo. só não quero estipular limites agora. quero sentir até se desmanchar. porque eu amo ter encontrado isso contigo. e enfim, eu precisava dizer isso.

O pelotão estava em forma, a voz de comando foi enérgica e a fuzilaria produziu um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soou como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partiria cada um dos projéteis que agora o atingiram no peito, no pescoço e na cara. Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta,coração, traqueia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se um outra vez por dentro das suas pálpebras, em marcha ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui e acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens recocheteando no bojo do seu crânio. O prazo se esgotaria e sobreviveria um ultimato, um apito, um alarme, mas Benjamim os entenderia como ameaça de criança contando até três - um… dois… dois e meio… - e se deteria mais um pouco nos momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar. Aprenderia também a penetrar em espaços que não conhecera, em tempos em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas. E súbito se surpreenderia a caminhar simultaneamente em todas as direções , e tudo alcançaria de um só olhar, e tudo o que ele percebesse jamais cessaria, e mesmo a infinitude caberia numa bolha no interior do sonho de um homem como Benjamim Zambraia, que não se lembra de alguma vez ter morrido em sonho.
—  Chico Buarque, Benjamim.
Confiança é quando você conta um segredo e não precisa pedir para que a pessoa mantenha a boca fechada, ou, em outros termos - mais educados - que ela não conte a ninguém; que, guarde aquilo; que nunca escutou aquilo; algo assim.
—  oneprince.

homo bellicus

este mundo cão não dorme, aqui vive-se
em profunda melancolia, esse lado simpático da dor
nunca se sonhou tanto e no entanto nunca se  
esventraram tantas almas
nunca se apagaram tantas pontas de cigarro nos olhos
na pele  
nunca se morreu tão devagar
deifica-se o desejo em casa depois de o ver na rua
e à hora do jantar em frente ao televisor
frusta-se o peito de não respirar
todo o ar que se quis ter
são insípidos os cenários
porque tudo se acinzenta
e tudo se despurifica  
quando o sonho é visto com a cor das fábricas
entendido como o mesmo quotidiano das  
engrenagens  
que poema haverá então para escrever?
escreve-se este, outro, outro que nada diz
este repetido
em lisboa um poeta virou os olhos para dentro do  
corpo
vive de si  
e não morre
mas para quê?
para quê escrever
se já não há máquina que se humanize?  
apaguem  
apaguem a bondade dos dicionários
assumam que da ponta das canetas só podem sair
cheques carecas
ultimatos para a guerra  
poemas que destruam outros poemas
assumam de vez
que tudo isto é escuro
e que já não é grave
ter-se perdido toda a paixão  
não é grave guerra ter-se tornado substantivo certo
não é grave morrer sem milagres  
nenhum livro pode oferecer a redenção
nenhuma geografia nos salva
quantos povos atravessaram o indu kush  
a caminho da guerra
até alexandre
procurou o sonho guerreando
não havia como não o fazer  
assim é com todos os homens

2

Deixa eu te levar para ver as flores
Colorir nosso jardim de amor
Enquanto o céu vai misturando as cores
A gente ama até o sol se pôr

É você, só você que sabe me fazer feliz
Que chega em meu ouvido e diz:
“Que o meu desejo é desejar você”