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O relógio marca o tempo das horas perdidas, o eco dos ponteiros e todo aquele silêncio cômodo dos dias. Me vejo na mesma situação, é tragicamente cômico como o cenário continua o mesmo. Os azulejos brancos, os livros gastos, fotografias. Até o peso de papel insiste em me acompanhar. Meu eu-lírico é uma farsa ou anda mal acostumado com bobagens textuais. Nada do que é meu e tudo que me resta. Eu nunca vi essa casa de paredes frias e não recordo absolutamente de pisar nesse chão de madeira gasta. Um punhado de coisas repletas de pessoas e, ainda assim, sem nada que identifico como meu. 

Penso frequentemente na efemeridade, em como é fácil se desprender dos meus dedos, esquecer cada palavra escolhida pensando no afago, visando o afeto. O esquecimento é tão cruel quanto o que sobra após a partida, unilateral. Nada parte completamente, algo fica, atrás da porta, nos batentes, nas frestas das janelas. O caminho do perfume colocado metodicamente. A louça recém usada. Porta-retratos contém tantas histórias que mesmo quem viveu não é capaz de recorda completamente. Os lençóis, ah, esses são os mais tristes. Há um quê extremamente melancólico em quartos recém desocupados. As histórias contadas nas paredes, os fios presos no pente, os travesseiros amassados e atirados ao chão. A janela aberta para o dia entrar é quase um grito de socorro. 

Se observar atentamente, poderá ouvir os pensamentos de quem andou sobre o assoalho. A TV continua ligada num programa que ninguém deu a menor atenção. Olho para as casas e imagino todas as vidas que passaram por elas e as marcaram sem que se dessem conta. Quantas pessoas passaram pelos portões desoladas, monótonas e belamente eufóricas. Quantas crianças desenharam com os dedos pelas fachadas e quantos correram apressados sem notar onde estavam. Quantos fizeram o mesmo com outros iguais a eles. Por quantas pessoas você passou e tocou com dedos de criança para logo após correr sem notar? 

Sinto vontade de rasgar esse papel e esquecer cada palavra. Tudo soa tão banal que me enoja. O cenário, as pessoas, o final esperado que contém alguma conclusão. A verdade é que não sei sobre as pessoas, elas apenas partem, propositalmente ou não. Quem sabe um compromisso de última hora, quem sabe medo de ser tocado de volta. É fácil partir, você só precisa abrir a porta e descer as escadas. Quem parte não precisa varrer o chão, recolher a sujeira da cozinha e trancar a entrada impregnada com todo o cheiro de quem se foi. A dor se contenta apenas em conviver com os detalhes de quem foi embora e não teve a ousadia - quem sabe até a decência - de olhar para trás.

G.