tombado

não lhes dêem asas, recusariam-nas. são como os gatos e como todos os gatos, não têm vertigens. não receiam a queda, desejam-na como algo que se quer muito, que se quer tanto. não pela satisfação do tombo mas pelo simples acto do mesmo, ir tombado até tombar. com os pés a balançar frente, trás, trás, frente, o balanço nasce-lhes a partir da essência do que são. falta-lhes o impulso. não a coragem, só o impulso. contemplam as luzes da cidade cá de cima, entre a brisa que lhes toca em cada segmento de pele e o movimento pavoroso das rotinas alheias. são meros observadores num plano de fundo vasto, grandioso, que inevitavelmente os faz sentir pequeninos. uma pequeneza que os atinge de tal forma que acaba por lhes impulsionar o balanço. mal eles sabem que os observo deste lado e a enormidade com que os meus olhos os vêem

madrugada,
um colapso que me envolve as entranhas.
envolve.
não devolve.

arrepios que me percorrem a espinha,
num corpo gasto e tombado.
um corpo que já tombou,
sem tombar.

a cabeça a latejar.
vozes estranhas,
vozes de quem não conheço.
desconheço.

madrugada,
um corpo colapsado.
e uma alma,
a minha,
de caminho ao precipício.

morta.
já morri tantas vezes e,
tantas vezes,
sem morrer.

se colapsa,
deixa colapsar.
se for o fim,
estende-lhe os braços e,
deixa ser.

Então certo dia você abre os olhos com 48 anos, numa casa estranha, com uma mulher semi-nua ao lado. Olha na mesa de canto e em cima dela o despertador indica 09:00 horas. A luz do sol oferece ao quarto um pouco de vida pelas frestas da janela. Você toca o rosto e a barba esconde sua juventude, algumas rugas cortam sua testa de forma sutil. Ao levantar-se, percebe ao olhar o chão que a noite foi boa (peças de roupas pra todo lado). Dois copos de Whisky sobre mesa (um semi cheio e o outro tombado) trás na mente um feixe de lembrança, que o leva para o momento em que virou o copo para criar coragem e fazer algo que o permitisse sentir-se vivo. Volta a olhar a moça semi-nua, desfalecida de barriga pra baixo e coberta até a cintura. Os cabelos loiros sobre as costas tiveram o trabalho de aquecer o resto do corpo. Tenta puxar na memoria seu nome (sem sucesso). Recolhe suas roupas do chão e as veste com o maior cuidado possível, evitando deslocar uma quantidade de ar capaz de acordá-la. Se pega pensado se estaria fazendo o correto enquanto anda na ponta do pé até a porta (tarde demais pra chegar a uma conclusão). Na sua mente só uma frase ecoa: Nada pode me deixar vivo por muito tempo depois que a perdi.
—  Jonatan Reis, compostos.