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Ser uma catástrofe

Eu sei que não sou tão boa assim. Eu mexo com o tempo que eu não tenho e tento encarar os dias como se não fossem tão caros. As músicas que escuto não me agradam, e as que agradam eu não escuto. Não gosto de me acostumar com ter o que quero. Dá medo, sufoca. E, além disso, as coisas sempre pioram num ciclo super viciante. Chega um momento na sua vida em que ver a desgraça te dá prazer, porque se torna um hábito. Daí em diante, todos os dias você acorda preparando-se para o pior da semana, para o pior do mês. Mesmo que algumas noites vá chorando, rastejando os pés sobre o atrito do chão, até chegar na sua cama que não troca de lençol há semanas, você consegue dormir. E sonha gostoso, com tudo o que não consegue ter da vida terrena. No trabalho, arrepende-se, mais uma vez, revendo por dias e dias, suas escolhas passadas para o futuro. Dá aquele frio na barriga, aquela tontura por pensar que, comumente, terá que fazer o que não gosta pelo resto de sua vida. Mas passa, tudo passa. Não o arrependimento, não a ausência de orgulho que vai sentir quando olhar para trás e enxergar sua história, mas o sufoco momentâneo. Porque as coisas pequenas passam mas as grandes atolam e te fixam no mesmo lugar até que você mude a direção. Nada gigantesco, sem abismos dos quais você tenha que pular. Eu decidi pular. Numa vida desgraçada, quando você não enxerga mais caminho nenhum para os lados, e como não se tem asas para voar, para baixo é a única saída. Ainda bem que fungos sabem transformar, me transformar, em algo útil. Dou um novo sentido para minha vida: dar vida a algo novo. Serei eternamente feliz por não ter usado o tempo que tinha para desgraçar mais minha existência. Quer dizer, eu ainda existo. Só que em outro alguém.