tem que fazer pose

eu fiquei meio estranha, quase triste, com um pânico de de repente sumir, ir embora, crescer, tudo. um pânico de tudo. abri a gaveta onde mamãe joga as fotos velhas. tem umas fantasias ridículas que usei no carnaval. cigana, mulher gato, baiana, passista, tanta coisa. tem umas risadas que eu só ri naquelas épocas. tem umas poses que eu só sabia fazer antigamente. e, por fim, tem as pessoas. que sumiram. que se foram. que eu vejo quase sempre na praia e no mercado, mas que hoje fingem que não me conhecem. eu tenho fotos da gente abraçado. da gente rindo. da gente fazendo careta. tenho foto da gente estudando ou passeando ou brincando ou inventando ou tudo ao mesmo tempo. tenho foto da gente junto. tenho uns momentos congelados em folha. tá ali. documentado. mas isso não traz de volta ninguém. isso não segura ninguém. tá quase todo mundo longe. vivendo outras coisas agora. fazendo outras fotografias com outras pessoas. não dá ciúme, não dá raiva, não dá mágoa. longe disso. dá uma saudade triste sem cura, sem jeito, sem explicação. é horrível. é pior do que ódio, ciúme, raiva. é pior do que tudo.
é coisa de criança isso. esperar, querer, desejar, pedir que todo mundo fique. mas eu queria. um mundo onde as pessoas não sumissem. um mundo onde eu pudesse fuçar as pessoas na internet e mandar uma mensagem, fazer uma ligação. “ei, achei uma foto sua, de quando a gente ainda dividia alguma coisa, algum pedaço de vida. era bom. o que houve? onde a gente se separou tão feio? tem jeito? tem conserto?”. mesmo que fosse pra ouvir um baita não. mas não é assim. a gente não procura mais. a gente deixa na gaveta e vai dormir. triste pra caramba. mas a gente vai dormir com a saudade entalada, sonhando com um tempo quando a gente tirava foto espontânea sem planejar, sem pedir, sem fazer pose. e era bom aquele tempo.
tal qual rio que corre, o tempo não volta atrás.
e a gente não faz questão também.
a gente olha pra frente e segue a corrente. até topar com a felicidade de novo. e tirar outras fotos.