telespectador

hoje decidi que quero ser tudo e nada. 

quero ter tudo e não ter nada.

quero a calmaria de uma noite agitada,

quero respirar fundo embaixo d’água,

quero me permitir sentir tudo

sem sentir nada

quero ter asas e correr,

quero ser o protagonista e o telespectador,

quero rir e chorar e me sentir tranquila, 

quero ser tudo e não ser nada. 

quero escrever de olhos fechados e com um sorriso no rosto 

que a minha instabilidade também pode ser poesia.

Eu imagino você lendo nossa história escrita por mim. Eu imagino seus pensamentos correndo pela sua mente ao olhar atentamente para cada letra gravada no papel. Você riria, eu acho. Você pensaria que talvez nunca saberia disso se não tivesse descido naquela tarde e conversado comigo. O que ficará mais explícito em cada trecho são meus olhos sorrindo pra você de tanta saudade e felicidade que eu senti naquele momento. Você vai se lembrar disso e vai ser por essa razão que acreditará em nós como eu acreditei durante todos esses anos. Você visualizará cada cena com total clareza e vai sentir alguma coisa. O seu coração, talvez, se encherá de “queria ter visto com os olhos dela” e finalmente você entenderá que está vendo, porém não será o bastante, pois em seguida saberá que gostaria de ter vivido nossa história como eu. O tempo se foi e você vai ser mais um telespectador de nós, por mais que você seja o protagonista pra mim.
—  Beatriz Pontes.

E aquela moça ali sentada, aquela que dizem que não tem coração, que não sabe amar. Mal sabem os seus telespectadores que naquele coração amargurado já morou tantas dores, por conta de amores passados. Aquele coração que amava sem medo, agora anda aprisionado na gaiola da solidão. Muitos dizem que não, que na verdade ela ama em segredo. Na minha opinião ela amava com a imensidão do verbo amar, mas de tanto apanhar, aquele coração começou a lutar para se defender. Cansada de tanto apanhar ela começou a bater.

kgs

A beleza falsa da Lua

como boa ladra dos raios de luz que emanam do sol, está fadada às sombras. não dá conta de produzir suas fases tão inconstantes e distintas que lhe garantem um pouco de “personalidade”, tampouco seus fenômenos mais conhecidos como a lua vermelha e a super lua. não passa de um grande pedaço de rocha bem localizado e estabilizado no véu negro desta galáxia. é a mais bela farsa dos céus que brilha intensamente e gasta a luz alheia sem pudores ou preocupações; hipnotizando os olhos ávidos de seus telespectadores que espantados perante ao vislumbre, quase verdadeiro, de sua graciosidade, aplaudem e comentam; sustentam a fraude mais bem construída do universo, esquecendo-se que por trás de toda beleza que a lua esbanja há uma estrela de quinta grandeza que ofusca-se e entrega seu palco de mão beijada à coadjuvante que jamais aprendeu a ser estrela.

r-etalho

Senhoras e senhores, é um dia muito triste para todos nós. O mais triste de todos, eu diria. Os deuses choram, os anjos choram, até os demônios choram, meus caros. Eu choro e acredito que o telespectador de casa também chora. Hoje, meus queridos, é o fim de uma era. Hoje, os céus ganham sua mais nova estrela, a que mais brilhará no céu. É com uma dor no coração, com lágrimas nos olhos e tremor em todas as partes do corpo que eu venho anunciar a morte da Madame Deveraux. Não, eu não estou brincando, meus amores. Nossa querida, doce, gentil Madame morreu nessa última quarta-feira, às onze e quarenta e cinco da manhã. Estamos todos de luto. O mundo perdeu sua mais brilhante e amada pessoa. Não só pessoa, meus caros, nossa Madame era muito mais. Ela era arte. Hoje, eu peço, lembrem-se dela em suas orações. Eu sou seu apresentador, Troye, e o show deve continuar. Sejam muito bem-vindos à vigésima quinta edição do Leilão da Virgindade da Madame Deveraux.

              ( C E N T R A LN O V A T R A M A )