teledramaturgia

Valéria, você acha que existe preconceito da classe intelectual contra as novelas? Eu estive pensando, será que isso provém do fato de que novela é um produto popular?

Tradicionalmente no Brasil existe (pre) conceito contra tudo o que é popular. Fomos colônia e ao nos tornarmos independentes continuamos sendo colônia em termos culturais. Tudo o que vinha de fora – primeiro da França; depois, também da Inglaterra e da Alemanha; e desde a II Guerra, dos EUA – era melhor, mesmo que você não entendesse a letra da música ou o que os atores de teatro estavam falando. Há, também, o fato da telenovela, assim como o romance Hartlequin, só para citar outro exemplo, ter sido associada ao feminino. E tudo o que tem as mulheres como alvo principal, é depreciado, é tratado como inferior. Quando os homens passaram a admitir que viam novela (*Irmãos Coragem de Janete Clair*), a novela das oito (*nove*) passou a ser vista como “cult”, como palco da discussão dos grandes temas nacionais e subiu no conceito de muita gente. Ainda assim, o preconceito persiste, mas não vejo muita diferença entre os seriados americanos intermináveis ou os mangás e as novelas brasileiras. São material popular e são em grande escala obras abertas, isto é, o público tem muita influência sobre o destino da trama e das personagens.

Isso não quer dizer que tudo o que é popular é bom, ou que se deva gostar de um produto simplesmente para fugir do rótulo de elitista ou preconceituoso. Há quem sinta culpa por não gostar de funk, por exemplo. Mas não é seu direito não gostar? O problema é estigmatizar e rotular quem gosta, veja bem, não criticar o material em si. Ninguém vai, por exemplo, me fazer sair por aí elogiando Valeska Popozuda e Mr. Catra, porque o funk é expressão da música popular brasileira – de origem pobre e nega – e eles são discriminados por causa disso. A música que eles fazem é de baixa qualidade e vulgar (*carregada de estereótipos de gênero, pornografia e palavras de baixo calão*) e eles não são bons exemplos para ninguém, mesmo economicamente bem sucedidos. A telenovela é uma mídia que ganhou contornos nacionais e tem servido para várias coisas:

1. Distrair → seja no sentido literal mesmo, você quer descansar, rir, sonhar, ou para desviar a atenção daquilo que “realmente” é importante. Nas últimas semanas, a atenção de muita gente ficou centrada em Carminha X Nina e todo o rosto parecia irrelevante.

2. Educar → Não deveria, mas como disse a Glória Perez em uma entrevista, as telenovelas acabam ocupando essa função dada a fragilidade do sistema educacional brasileiro. Assim, elas colocam valores em discussão, fazem o chamado merchandising social, e vem ajudando a mudar (*para melhor e para pior*) certos comportamentos.

3. Promover uma agenda política → Sim, porque novelas já ajudaram a eleger candidatos, criticar e elogiar governos. E isso, de novo, para o bem, ou para o mal. Autores de novelas durante a Ditadura usaram a telenovela para criticar o governo, assim como a Globo continua fazendo isso para empurrar seus interesses políticos.

4. Construir uma Identidade Nacional → as telenovelas ajudaram a fazer a transição do Brasil rural para o urbano. Isso é amplamente estudado pelos estudiosos. Houve estudos várias matérias recentes falando da questão do controle de natalidade, a diminuição do número de filhos por família ter sido estimulado pelas telenovelas, assim como a aceitação do divórcio (*a hipocrisia em relação à questão era assustadora*) e outros aspectos sociais mais contemporâneos terem sido impulsionados pela telenovela. É claro, que as novelas também vendem para o Brasil e o mundo, uma imagem de um país mais branco do que é. Além de promover o trinômio carnaval-mulher bonita-futebol ou que o Rio de Janeiro – mais especificamente a Zona Sul do Rio – seria a nossa face genérica com a praia dominando a paisagem.

Agora, isso não quer dizer que eu não perceba uma perda de qualidade na teledramaturgia, uma idiotização, uma repetição de clichês e arranjos, fora o aprisionamento de certos atores e atrizes a alguns personagens-tipo. Isso é péssimo, mas há vários fatores atuando aí, desde a burrice da classificação indicativa até os interesses econômicos que se impõem em alguns momentos. Enfim, há (pre) conceito contra a telenovela? Sim, como contra tudo o que é popular, mas há, também, o reconhecimento desse produto que ganhou contornos genuinamente nacionais. Gosta quem quer, assiste quem quer. E o bom do tempo em que vivemos é que a maioria de nós não precisa ser prisioneiro de nada. Internet está aí para isso mesmo.

Manga, Anime, Cinema, História, Feminismo, etc. Responderei se puder!