teclei

O que você acha da comunicação no século 21?” – perguntou-me.
“Está a cada dia melhor. As pessoas demonstram muito mais seus sentimentos.” – teclei, e por fim apertei em enviar. Mas lembrei-me de que ironia não é tão perceptível virtualmente.
—  Poetifiquei

WONSAN’S WANTED PLOT. 

Um corpo foi encontrado no Museu de História da Revolução nesta Quinta feira, 15 de Julho. As devidas autoridades foram acionadas e isolaram o local, dando início à perícia criminal. Afim de evitar o pânico na instituição, as atividades curriculares dos docentes foram mantidas e atividades extras foram pensadas, de modo a manter os estudantes longe da área isolada. A tentativa era de abafar o ocorrido, mas boatos correm rápido, até demais.

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6. 

{Já fazia algum tempo desde que havia feito residência em um IML, mas não achava que estava enferrujado devido à minha especialização e doutorado. Aquele chamado havia me tirado da cama às quatro da manhã, mas por ser gravíssima, como um bom médico que era, me pus de pé e fui até o ocorrido mesmo não sendo minha área a perícia. Enquanto me aproximava do grande departamento que servia como museu, teclei para um de meus residentes, afinal seria uma boa forma de aprender sobre anatomia. O local estava com poucas pessoas, o mais discreto possível e fui conversar com o diretor, que parecia um tanto nervoso. Não o julgaria, aquele lugar era um ambiente estranho e se aquilo se espalhasse geraria um pandemônio. Deixei minha maleta no chão, ao que removi meu terno negro e o substitui pelo jaleco branco, que já estava devidamente impresso com o nome da instituição e meu sobrenome. Apenas ajudaria na autópsia inicial, já que era um caso de emergência e logo alunos transitariam pelo local. Como professor, talvez fosse meu dever proteger os mais frágeis. Dobrei as mangas da camisa social para que não as sujassem e coloquei as luvas cirúrgicas, pegando minha maleta e passei a faixa, indo observar o ocorrido}.

¨¨ Os olhos grandes já estavam acostumados a todo tipo de atrocidade, mas ainda se chocava com o fato de ser dentro de um ambiente daqueles. Havia sangue por toda a sala, rastros de mãos que tentaram desesperadamente agarrar o chão e restos mortais em todo o lugar. Alguns respingos estavam batendo em sua altura na parede, o que mostrava que aquela briga não deveria ter sido nada agradável. Abriu a maleta e acenou para um dos legistas que estavam com as bandejas, separando os restos mortais, as roupas e qualquer indício de quem havia sido. Daehyun se abaixou junto a um dos braços do rapaz, pegando a pinça para que o virasse e analisasse bem como estava disposto os ossos. Era por ali que começava. O úmero estava destroçado, como se algo tivesse quebrado e depois pisado em cima; já o cúbito e o radio estavam ainda unidos, o que apenas dizia que o “animal” estava mais atento ao meio do corpo, não os membros. Seja lá o que fosse aquilo, era bem pior que um vampiro. Talvez pior que um lobo. Algum tipo de monstruosidade medonha que fazia os pelos do Doutor Kang se eriçarem só de pensar que esta pessoa estava andando entre eles. Cheirou o sangue do rapaz, gravando-o bem na mente para quando o sentisse nos poros de alguém. Ou desejava não saber quem havia sido. Observou o rastro que vinha do final da sala até onde estava, bem próximo a porta e notou que o animal havia arrastado a vítima por diversas vezes, como uma espécie de diversão sádica. – Leve os restos para o hospital, daqui seguiremos para lá com um aluno meu, va bene? Temos que saber quem foi que morreu, afinal há três alunos desaparecidos.¨¨

Antes do fato, do grande-revertério, do peito dolorido, da mão nervosa, trêmula, perdida, antes do acontecimento eu estava só evitando. Antes disso eu tinha tomado um copo de leite e comido uma torrada integral. Eu tinha trabalhado exausta pelo nada, cansada dos discursos de sempre, as respostas premeditadas, as desculpas gastas, os sorrisos, gestos e posturas padronizadas para se sair bem, mais um dia bem. Antes disso eu tinha contado os minutos para o fim e atravessado a porta com tanta pressa de ir sei lá pra onde. Antes disso eu tinha parado no ponto de ônibus e esperado. De repente uma moto atropelou um cão de rua. Foi isso. O fato. Os dois capotaram diversas vezes até pararem no ponto, quase no meu pé, quase um pedido de socorro, foi isso. Eu lembro de ter escutado uns gritos, não sei se eram meus ou da vizinhança em alerta. O rapaz levantou, sacudiu a roupa cheia de terra, pegou a moto, a mochila, ergueu o rosto pra mim: piedade, fuga, medo, susto. E saiu. 

Os vizinhos levaram o cão para o banco do ponto. Uma menina tentava escutar os batimentos. O cão imóvel. Eu tive tanta vontade de passar a mão sob o peito e sentir o agora, a súplica desesperada de um ser sozinho. ‘Ele se alimentava dos restos do meu bar’ - um senhor de barba branca disse enquanto examinava o cão de longe. E as pessoas passavam e se lamentavam em silêncio. Uma senhora com a cruz no peito. Uma criança perguntava 'existe céu pra cachorro?’. Um aglomerado de gente pela primeira vez notava o cão. 

Pensei em Macabéa, em Deus, em morte, em perdão. Pensei em confessar pra alguém que antes do fato eu só estava evitando pensar e que eu não tinha nojo pelo sangue escuro escorrendo. Eu ligava para todas as emergências e ninguém entendia. Pai, mãe, aquilo lá de ser independente e corajosa e tranquila era tudo mentira. Escrevi uma mensagem, um texto, teclei rápido que eu não sabia o que fazer com aquilo e que eu precisava urgente e desesperado dividir com alguém. Mas logo o ônibus chegou e todos entraram para o seu destino. Fiquei me perguntando se pra mais alguém foi assim.