teclas brancas

A vida é como um piano. Teclas brancas representam a felicidade e as pretas as angústias. Com o passar do tempo você percebe que as teclas pretas também fazem música.
—  A última música.
[minha timidez me obriga a tirar os olhos]

Não sei quando começou esse negócio de não enxergar direito. Fato é que até hoje tenho uma enorme dificuldade em querer ver as coisas com nitidez. Geralmente, o que é muito perfeito me incomoda um pouco. Por isso, mesmo depois de o oftalmologista diagnosticar um grau elevado de miopia, eu sempre usei meus óculos com moderação. Meus motivos? Acho que a timidez é um deles.

Minha primeira lembrança desse isolamento visual data da infância. Eu e a minha querida miopia tentávamos brincar de bolinha de gude com os meninos da vizinhança. A regra era clara (e eu não a enxergava tão bem assim): o jogo consiste em fazer três covinhas em um percurso de ida e volta, no qual o jogador tem que colocar o seu berlinde dentro de cada cova. O chão de terra escura e a luz de final de tarde dificultavam o meu jogo. Eu não sabia onde estava a cova principal, muito menos onde se encontravam os berlindes dos meus adversários, e, envergonhado, queria me esconder nessas covinhas. Eu era o meu maior adversário.

Depois, na adolescência, a minha miopia encontrou um amigo: o astigmatismo. Agora, além da dificuldade de enxergar de longe, também tenho a vista embaçada. Lembro-me do primeiro show com a Brisa, a minha banda de indie rock alternativo. Por medo de encarar a plateia, eu não colocava os meus óculos e abaixava a cabeça. Até hoje não sei se tinha três, 20 ou 100 pessoas naquele pequeno galpão. Minha única obrigação era olhar para as teclas brancas e pretas, pretas e brancas, brancas, brancas, pretas, brancas, pretas… Pânico! Sorte a minha que o meu instrumento era o teclado (santificado seja o seu inventor! Aposto que ele era tímido também e fez da sua invenção uma forma de não enfrentar o mundo à sua frente).

Hoje, já adulto, ainda não me acostumei a ver o mundo certinho. Ainda não me sinto totalmente confortável quando estou de óculos. Sei lá, acho lindo observar as pessoas fora de foco, a paisagem se tornar um imenso borrão multicolor. Isso me tranquiliza um pouco. Algumas situações inusitadas inclusive me ajudaram a ter inspiração. Já saltei na estação errada do metrô. Já abracei desconhecidos na rua achando que eram meus melhores amigos de infância. Já pedi sorvete de creme por não conseguir ler a plaquinha do sabor exótico logo ao lado. Tudo isso me impulsiona a criar. No meu caso, só quero ter visão perfeita em três situações: para enxergar o número do ônibus, para analisar detalhadamente o extrato da conta-corrente e para contemplar os olhos da amada.

Ah, tenho um agravante: sou míope, tenho astigmatismo e ainda ando de fone e música alta. Portanto, se você passar por mim e eu não vir, e se você chamar meu nome e eu não ouvir, pense naquele velho bordão do término dos namoros: o problema sou eu, não você.

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*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado pela Intrínseca.

Que mania feia de culpar o coração

Por que o coração procura amar pessoas que nos fazem sofrer? Será mesmo que foi ele, o mentor de tudo. Já virou moda dizer que não se pode escolher quem amar, porque são coisas do coração. Mas é ele que conversa horas com outra pessoa? É ele que fica observando? É ele que se preocupa e protege? Não, não é ele, somos nós mesmos que brincamos com o coração como se nada pudesse acontecer, o desafiamos, e ele nos responde com amor. De início não é um mal, só se transforma em algo ruim quando o sofrimento começa a acompanhar o amor, e é ai que o culpamos, o danado do coração que de culpa nenhuma tem, mas nós não podemos estar errados, nunca. O ser humano tem um grande defeito que é sempre culpar algo ou alguém, ele não enxerga que talvez o culpado seja ele próprio. É uma judiação culpar o amor ou o coitado do coração que bombeia sangue. Pois o amor é uma música tocada no piano, em que as teclas brancas são os sentimentos, as pretas são a vida o e o instrumento é o coração, caso as teclas não sigam o ritmo igual irá haver um desequilíbrio. E o amor é assim, certos fatos levam o desequilíbrio, levam ao sofrimento, levam a ilusão. A culpa não é do amor e nem sequer do pobre coração, mas sim do humano, pois não sabe seguir o ritmo da música amar.

Cravada and Florejeiras.