sustos

Clara sempre foi apaixonada pelas cores, em especial pelo roxo bebê - cor que ocupa 70% do seu armário. Meiga, delicada e sorridente. Dizem que ela é como uma brisa, leve e calma. Isso, claro, sem perder a compostura de chefe. Bom, pelo menos até às 18h, horário que sai do seu escritório. Ninguém desconfia, mas em casa a vida de Clara é um martírio:
- Clara? Ei, estou com fome. Isso lá são horas de chegar? Estou esperando a janta há 10 minutos, isso não se faz.
Ela sempre fica sem reação e acha que deve obedecer. Com a cabeça baixa, mal consegue olhar para o rosto dele, fala com a voz fraca:
- Hoje o trabalho estava exaustante. O Alexandre, meu melhor funcionário, teve que faltar porqu….
- EU NÃO QUERO SABER, CLARA. Oh Clarinha - diz ironicamente - sua vida não me interessa. Minha fome, sim.. - diz Cláudio, seu marido.
Essa situação era normal para Clara, que com o rabo entre as pernas vai fazer a janta.
- Ele é meu homem, devo satisfazê-lo, eu sei. Mas é que ultimamente…
Marcos, seu filho, chega interrompendo seus pensamentos. Ele tem apenas 16 anos, mas é quase um clone do pai.
- Mãe, a janta já vai sair? Eu estou com fome. - fala grosso, ríspido.
- Está cada vez mais igual o pai - pensa Clara, aflita. Mas responde com tranquilidade:
- Amor, vou fazer a janta agora. Que tal ir para o quarto e chamo quando estiver pronta?
Tudo ocorre normal. Ela está sozinha. Aliás, acompanhada de seus pensamentos que, exatamente nesse dia, começaram a atormentá-la de maneira descomunal.
- CLARA! A janta está pronta? Já disse que estou com fome. - chega Cláudio, mal educado como sempre.
- Está sim. Vai lavando as mãos.
- Você me faz rir, Clara. Lavar a mão é para viadinhos. Vou esperar aqui na mesa já que está quase pronto. - responde em tom intimidador.
Clara serve a mesa e vai chamar Marcos:
- Nossa, mãe, eu estou jogando vídeo game, não está vendo? Que saco! O pai está certo de tratar como te trata. Já vou!
Clara não retruca, seu filho está virando outro monstro.
A janta ocorre tudo normal, a não ser os pensamentos de Clara que começam a crescer cada vez mais na sua cabeça de maneira assustadora e ela não sabe o que fazer. Outro dia começa, mesma rotina, Clara acorda, chama Marcos para ir à escola, local que ele dá trabalho corriqueiramente, e Cláudio continua dormindo, provavelmente até o meio dia. Horário em que acorda e come um Hot Pocket, pra variar.
Chegando no trabalho, ela está deslumbrante vestindo uma saia branca e a blusa roxa clarinha, como de costume. Alexandre chega pedindo mil desculpas pela falta:
- Claaara! Me desculpe ontem. Uma virose me pegou de jeito, hoje já estou melhor. Prometo que vou adiantar tudo e isso não voltará a ocorrer. Tá?
Clara, educada, responde:
- Alexandre, não se preocupe. Só deixe o atestado em cima da minha mesa e, caso não se sinta bem hoje, pode ir para casa. As coisas estão calmas aqui.
O dia corre como de costume. Responsável e dedicada, não para pra nada em seu trabalho, a não ser, de hora em hora, que o pensamento volta a crescer em sua cabeça. Ela tenta evitá-lo, mas é inevitável. Chega 18 horas, hora de ir pra casa - o que de um tempo pra cá não vem sendo sua maior alegria.
Chegando em casa, algo está diferente. Ao estacionar o carro Clara já ouve uns gritos vindo de dentro. Ela abre a porta bem devagar e escuta vindo do quarto de Marcos:
- PAI, VOCÊ É UM OTÁRIO, UM VERME. A MÃE É OUTRA. NÃO SEI O QUE FIZ PARA MERECER VOCÊS COMO PAIS. VAI SE F…
Um barulho imenso se propaga pela casa. Clara leva o maior susto e corre em direção ao quarto. Quando pensa em abrir a porta, ouve o filho mais uma vez:
- PAI, VOCÊ ESTÁ LOUCO. MINHA TELEVISÃO, VOCÊ É DOENTE, SÓ PODE.
- APRENDE A NUNCA MAIS PENSAR EM ME MANDAR PARA AQUELE LUGAR, PIVETE. - responde o pai nervoso.
Agora o som foi diferente, deu para distinguir exatamente. Era um murro. Um murro bem dado. Clara corre para o carro e finge que nada aconteceu, os pensamentos em sua cabeça ficam ainda mais forte, não conseguindo mais evitá-los. Sua casa é um inferno, ela já não sabe o que fazer. Ou melhor, agora, está começando a saber.
- E NÃO OUSE SAIR DO SEU QUARTO TÃO CEDO. - grita Cláudio.
Clara decide esperar 10 minutos e entra em casa como se nada tivesse acontecido. Cláudio é grosso, como sempre, mas ela simplesmente não liga. Vai para o quarto, toma um banho e começa a fazer a janta. Leve e calma, essa era sua marca.
O jantar é servido, a mesa está em silêncio e o clima pesado.
- Vamos, fale algo, Clara. Você sempre tenta me agradar. Agrade. - fala Cláudio, em tom irônico e intimidador.
Clara dá um sorriso amarelo, levanta da mesa e limpa seu prato na pia. Marcos, na velocidade de uma metralhadora começa a falar:
- Vocês dois são loucos. Você, mãe, como pode fingir que está tudo bem? Olha para o meu rosto, OLHA SUA VAGABUNDA! Isso é a marca do que seu marido, meu pai, fez - seu olho estava roxo, inchado. E você aí, com essa cara de tranquila como se nada tivesse acontecido. Isso não vai ficar assim, não não. Terá volta. - levanta nervoso, joga a cadeira no chão, e vai para o seu quarto. Bate a porta tão forte que o som ecoa pela casa toda.
Uma troca de olhares intensa entre Clara e Cláudio, até que ela decide ir para o seu quarto e com um tom leve fala:
- Não ouse entrar no quarto hoje. Obrigado. - e dá um sorriso de canto de boca como se estivesse tudo planejado em sua cabeça.
Cláudio não retruca. Talvez ele tenha consciência de que o que fez foi errado.
Chegando no quarto, os pensamentos de Clara gritam, a incomodam, parecem fazer um barulho fora do comum. Ela decide deitar e dormir, ou pelo menos tentar.
Mais um dia começa. Hoje, Clara está de vermelho. Um vermelho forte, gritante. Ela vai ao trabalho decidida, os pensamentos sumiram de sua cabeça. Alexandre, seu funcionário, chega até sua mesa pedindo o dia de folga.
- Você só pode estar louco. Ontem estava tranquilo e você decidiu ficar, hoje preciso de você aqui, a resposta é não.
Alexandre não retruca. Dava-se para perceber de longe algo diferente em Clara - fora a roupa vermelha, coisa que nunca havia acontecido antes.
Chega 18 horas, hora de ir para embora. Chegando na porta de sua casa, percebe que está cheia de viaturas. Ela dá um sorriso de canto de boca, se sente vitoriosa. Estaciona o carro e vai em direção a sua casa.
- Ei, você não pode entrar aí! É a cena de um crime. - fala um policial
- Essa é a minha casa. - responde Clara, com sua tão conhecida tranquilidade.
Entrando encontra Cláudio morto, uma facada no peito. As mãos de Cláudio estão segurando a faca, uma cena assustadora. Ela vira de costas e pergunta ao policial sobre seu filho:
- O senhor viu um adolescente aqui? Cerca de 16 anos, loiro..
- Oi? Adolescente? Chegamos e não havia ninguém aqui.
- Tudo bem. Onde dou meu depoimento? - responde, com a voz aliviada.
—  Pedro Peixoto.

O peso das coisas não resolvidas.

Dilacera o peito silenciosamente. E não há doses de álcool ou excessos de glicose que diminuam o estrago. A sobriedade do dia seguinte chega e o peso das coisas não resolvidas te arrebenta feito ressaca moral. E não existem fórmulas mágicas, terapias inovadoras ou mantras espirituais capazes de evitar o choque. Em alguns a culpa recaí feito choque térmico. Um susto. Quando você vê está pensando naquilo que não fez. Naquilo que não disse. Naquilo que você não resolveu. E o “deveria ter” parece ter cinco dedos capazes de estapear seu rosto virgem de brigas de rua.

E ai que você quer mandar um e-mail, adicionar novamente, executar um sinal de fogo ou uma corrente que chegue até a coisa não resolvida. E não existe um caminho mais fácil ou quem faça por você. Então você adia. Então coloca na espera. Então toma alguma coisa para dormir antes das neuroses te encontrarem, e os dias passam feito bolhas de sabão quebrando no ar.

O peso das coisas não resolvidas inquieta qualquer corpo estável. Repercute como uma notícia ruim mal digerida. Ou você engole ele ou ele engole você.