stegabriela

Porque faz tempo, tanto tempo. Faz tempo que as coisas não andam como deveriam andar. Faz tempo que o trêm saiu do trilho e mudou a rota. Faz tempo que a chuva não vence o “limpa-limpa” no parabrisa do carro. Faz tempo que a força da mão na caneta não é suficiente para rabiscar nem o próprio nome, que dirá o que anda acontecendo. Faz tempo que a concentração não é a mesma, muito menos a força de vontade. Faz tempo que a resistência sobre você acabou, e faz tempo, também, que você pressiona meu coração com um ar de “quero mais” e com o ego estabelecidamente elevado. Faz tempo que você bagunçou tudo e a bagunça foi recíproca. Porque, admita, faz tempo que eu mexi com você também. Faz tempo que a coragem de desabar e gritar o que anda preso sumiu, e desde então, faz tempo que eu venho tentando achá-la novamente. Faz tempo que anda tudo sufocado na garganta, faz tempo que eu venho me esforçando para engolir. Faz tempo que tentar dizer o efeito que você causou é tão difícil quanto guardar só para mim. Faz tempo que a vida anda complicada, irrelevante e mentirosa. Faz tempo, pouco tempo, que você chegou. Faz tempo, pouco tempo, mas faz tanto tempo.
—  (samesshit)

— Gosto do seu cabelo preso.

— Mas só ando com ele solto…

— Eu sei, e acho que só faz isso para desconstituir o estereótipo que as pessoas visam em você.

— Não, nada disso.

— Tem outro motivo, então?

— Tudo tem motivo.

— E qual é o seu?

— Você não entenderia, é bobagem; nem eu entendo.

— Gosto do seu cabelo preso.

— Você disse.

— Não quer saber o motivo?

— Na verdade, não. 

— Por quê?

— Porque… É coisa minha, besteira.

— Tudo bem, mas vou dizer assim mesmo. Gosto dele preso porque, usualmente, você só anda com ele solto… Eu gosto de ver a tua diferença. 

(Silêncio)

— Surpresa?

— Nem um pouco.

— Você é… Calma, esqueci a palavra. Acho que… Durona.

— Como pedra.

— Posso saber o motivo de você não querer saber meus motivos?

— Eu não gosto de falar. E toda vez que tento, acabo gaguejando e pigarreando para disfarçar. Gosto de segredos, e acredito que você também. Então, guarda só pra ti, assim como eu.

— Assim como você?

— É, me guarda só pra ti.

(samesshit)

— Que estranho.

— Estranho, mesmo. Mesmo, mesmo, mesmo. 

— Você sabe do que eu estou falando?

— Sei, eu sempre sei. Sempre sei.

— Essa sua mania de repetir as coisas para fazer você acreditar nas palavras que diz… Essa mania também é estranha.

— É que fica mais fácil, já que tudo anda de cabeça pra baixo. E, eu sei que é estranha. Sempre sei.

— Ficou complicado. Parece que quanto mais o tempo passa, as coisas só ficam piores, e… Fica estranho.

— Muito complicado, muito estranho.

— Por que você acha que tudo começou a ficar assim?

— Eu.

— Você?

— Eu sou assim; complico, reviro, repito.

— Não é, você sabe que não.

— Na verdade, dessa vez eu… Não sei.

— Doeu?

— Ficar sem saber? Só um pouco, eu aguento mais que isso.

— Ninguém aguenta tanto, uma hora você…

— Acaba desistindo.

— Você desistiu.

— Você também.

— Doeu?

(samesshit)