stegabriela

- Oi…

- Quem é você?

- Você já me esqueceu?

- Esqueço fácil as pessoas.

- Você dizia que eu era importante.

- E você deve ter brincado com meu coração.

- Como deduz algo tão absurdo?

- Só esqueço quando saem da minha vida, e se você saiu, você brincou com ele.

- Sorte sua.

- Sorte?

- É, esquecer as pessoas tão fácil assim.

- Ah sim, sorte… Acho que não. Aprendi a lidar.

- Mesmo assim.

- Já se passaram sete anos, o tempo ajudou.

- Mas você disse que não lembrava…

- Mas eu lembro. Você foi a única pessoa que eu não esqueci.

- Ah…

- Não fui sutil o bastante? 

- Eu também não esqueci você.

- Isso é fato, afinal, foi você quem veio aqui.

- Só queria botar a conversa em dia, quer um chá gelado? Sei que você gosta.

- Gostava, ficou meio amargo depois de um tempo, assim como você. Licença, você está me atrapalhando a regar as flores.

- Desculpe.

- Tudo bem, é só chegar um pouco para o lado.

- Não, me desculpe por ter partido.

- Você teve que partir… A cidade já não era boa.

- Não, desculpe por ter partido seu coração.

- Ah, isso? Tudo bem, me dê mais sete anos e eu esqueço.

(samesshit)

— Café?

— O que?

— Café.

— Morno? 

— Escaldante, por favor.

— Fraco?

— Forte, potencialmente.

— Você tem um gosto meio estranho para uma menina tão nova.

— Já me disseram. Amargo.

— O que disse?

— Quero amargo, também.

— Você gosta assim?

— É pra dar aquela chacoalhada no estômago. Ver se o amargo acaba adocicando a vida; ver se a escaldação esquenta toda essa frieza.

—  Sinto rancor aí.

— Sorte sua, moço.

— Por que sorte?

— Pelo menos você sente alguma coisa.

— E você não? Nada?

— Sinto frio, agora.

— Só?

— É, acho que sim.

— Posso lhe oferecer um casaco?

— Não, obrigada.

— Gosta do frio?

— O problema não é o clima.

— E qual é, então?

— Sou eu, moço.

(samesshit)

- Você ama?

- Amo não.

- Nem um pouquinho? 

- Nem.

- Como não?

- Não amando, agora pare de me fazer essas perguntas confusas.

- Tudo bem, então. Quer dar uma volta?

- Dou voltas em mim todo dia, então, não.

- De onde vem tanta frieza, menina?

- Você sabe.

- Por que diz isso?

- Quem constrói, sabe de onde vem, não é?

(samesshit)

- Eu não entendo…

- O que?

- Você.

- Ah, normal.

- Normal?

- É, você é apenas mais um.

- Sou tão insignificante assim?

- Achei que você já sabia.

- Tu nunca me disse.

- É notável.

- Mas… Por que eu não valho nada para ti? Nem um tiquinho?

- Ninguém é importante para mim. Só eu.

- Não é difícil? Digo…

- Não, é até melhor.

- Como pode ser melhor viver sem ninguém para amar?

- Quem disse que eu não tenho ninguém? Eu poderia amar você, só não quero.

- Quer dizer que… Não é involuntário? Você consegue escolher quem amar?

- Sim… Meio estranho, né não? Também escolho quem permanece e quem vai.

- Como?

- Eu não posso fugir de mim, então permaneço.

- Por que você escolheu ser assim?

- É mais fácil guardar…

- Guardar?

- É, o que eu sinto.

- O que você sente? Me diz, descarrega isso que te implode toda a noite.

- Não, eu me acostumei. O que antes machucava, hoje só faz cócegas.

- Por que você não conta para as pessoas o que tu sente? 

- Elas não entendem.

- E pra mim?

- Você é apenas mais um.

(samesshit)

Porque faz tempo, tanto tempo. Faz tempo que as coisas não andam como deveriam andar. Faz tempo que o trêm saiu do trilho e mudou a rota. Faz tempo que a chuva não vence o “limpa-limpa” no parabrisa do carro. Faz tempo que a força da mão na caneta não é suficiente para rabiscar nem o próprio nome, que dirá o que anda acontecendo. Faz tempo que a concentração não é a mesma, muito menos a força de vontade. Faz tempo que a resistência sobre você acabou, e faz tempo, também, que você pressiona meu coração com um ar de “quero mais” e com o ego estabelecidamente elevado. Faz tempo que você bagunçou tudo e a bagunça foi recíproca. Porque, admita, faz tempo que eu mexi com você também. Faz tempo que a coragem de desabar e gritar o que anda preso sumiu, e desde então, faz tempo que eu venho tentando achá-la novamente. Faz tempo que anda tudo sufocado na garganta, faz tempo que eu venho me esforçando para engolir. Faz tempo que tentar dizer o efeito que você causou é tão difícil quanto guardar só para mim. Faz tempo que a vida anda complicada, irrelevante e mentirosa. Faz tempo, pouco tempo, que você chegou. Faz tempo, pouco tempo, mas faz tanto tempo.
—  (samesshit)

— Gosto do seu cabelo preso.

— Mas só ando com ele solto…

— Eu sei, e acho que só faz isso para desconstituir o estereótipo que as pessoas visam em você.

— Não, nada disso.

— Tem outro motivo, então?

— Tudo tem motivo.

— E qual é o seu?

— Você não entenderia, é bobagem; nem eu entendo.

— Gosto do seu cabelo preso.

— Você disse.

— Não quer saber o motivo?

— Na verdade, não. 

— Por quê?

— Porque… É coisa minha, besteira.

— Tudo bem, mas vou dizer assim mesmo. Gosto dele preso porque, usualmente, você só anda com ele solto… Eu gosto de ver a tua diferença. 

(Silêncio)

— Surpresa?

— Nem um pouco.

— Você é… Calma, esqueci a palavra. Acho que… Durona.

— Como pedra.

— Posso saber o motivo de você não querer saber meus motivos?

— Eu não gosto de falar. E toda vez que tento, acabo gaguejando e pigarreando para disfarçar. Gosto de segredos, e acredito que você também. Então, guarda só pra ti, assim como eu.

— Assim como você?

— É, me guarda só pra ti.

(samesshit)

Vai que a gente se esbarra numa avenida impérvia e mal localizada. Vai que você derrama café na minha blusa e vai que você me cede teu casaco rebuscado. Vai que a gente troca uma ou outra palavra torta; um olhar torto, um sorriso torto. Vai que o meu cabelo está emaranhado e você coloca ele atrás da orelha. Vai que depois do café derramado, você me chame para tomar um inteiro na outra esquina. Vai que você pergunta meu nome e vai que você me chama para jantar. Vai que a gente se encontra; vai que você me leva para casa numa noite fria e diz que se eu não usar algum agasalho, eu vou congelar. Vai que eu rebato dizendo que a única hipotermia que eu posso sofrer é no coração. Vai que você não me entende e vai que você gosta disso. Vai que a gente se esbarra de novo em uma cafeteria desleixada e barata. Vai que a gente começa a frequentar os mesmos locais propositalmente. Vai que isso embola e acaba com a nossa vida. Vai que a gente gosta um do outro. Vai que a gente se apaixona. Vai que. (samesshit)

Mas, volta e pega. Não me deixa largada na beira do mar; corre, vem pegar antes que as ondas levem. Volta, é rapidinho. Ei, anjo, vira pra cá, não me deixa falando sozinha. A maré está quase subindo, e eu… Eu vou embora com ela. Vira, vira logo. Ô, anjo, depois não volta para me buscar na profundeza. Lá vai estar escuro e eu provavelmente não estarei mais te dando atenção. Não vou olhar pros teus olhos… Vou sair andando, assim mesmo, que nem você fez. Ah, anjo, agora não adianta. A onda levou; eu deixei levar. Acabei me entorpecendo e me estabilizando aqui. É, aqui mesmo, longe de ti. Bem submersa. Não adianta retrucar, anjo, a maré subiu, desceu; e você… Anjo, você continuou andando. Sabe essa água salgada que martiriza teus olhos? Acabei me acostumando com ela, assim como me acostumei com o martírio que sua ausência me causa. A gente acostuma; é, assim mesmo, contra a nossa vontade. Voltar? Voltar não, anjo. Não com você. Você não levou essa menina aqui a sério. Achou que era de porcelana e… Olha só, você quebrou. Sai, anjo, sai pra lá. Não vem mais aqui não, mantém distância. Não reclama, anjo, eu avisei. A escolha foi sua, você que não quis voltar e pegar.

(samesshit)

- Levei um susto hoje…

- Por quê?

- Um sonho que eu tive.

- Vou precisar de mais detalhes.

- Você estava nele.

- Tudo bem, entendi o porquê do susto.

- Não, não é por isso.

- Por que seria, então?

- Você estava… Você dizia que me amava.

- Ah…

- Susto, né?

- É.

- Foi o que suspeitei.

- O que?

- Você concordou.

- Sim, e qual o problema?

- Nada…

- Anda, me diz.

- Eu… Sei não, esperava que você dissesse que não precisava ser um susto,  eu lhe perguntaria o porquê e você diria para eu me acostumar com o fato de você me amar.

- Isso faz parte do sonho?

- Parece que sim.

- Por quê?

- Porque não aconteceria na vida real.

- É…

- Grande susto.

- Tudo bem, entendi.

- Entendeu?

- Você quer que eu negue.

- E por que você não o faz?

- Porque… Sou fraca para esse tipo de coisa.

- Que tipo de coisa?

- Amor.

- Eu te fortaleço, deixa.

- Não, obrigada.

- Por que não?

- Porque o amor… Amor é um susto, grande susto. 

- E qual o problema com isso?

- Eu não vou poder acordar e dizer que foi um sonho. 

(samesshit)

- Tem certeza que vai partir?

- Tenho, preciso ir embora da cidade.

- Depois não tem mais volta.

- Mas, eu não pretendo voltar.

- Tem certeza que vai partir?

- Tenho, já lhe disse que preciso ir embora.

- Não estou falando da cidade.

- Está falando de quê, então?

- Do meu coração.

- Ah…

- Depois não tem mais volta.

(samesshit)

- Me dá um daqueles, por favor.

- Ali em cima? Qual?

- Pirulito.

- Qual você quer?

- O redondo.

- Você está diferente hoje…

- Por quê?

- Parece mais alegre. Deve ser a música.

- Acho que não.

- Não é a música?

- Não, não estou alegre.

- Ah… Então, napolitano?

- Pode ser.

- Indecisa?

- Não, mas é o único que tem, não é?

- Tem o de coração também… Mas está meio quebrado.

- De coração quebrado já basta o meu.

- É… Esse aqui está  é virando farelo. Acho que está vencido.

- O meu também.

- O que aconteceu?

- Virou pó. Varri e joguei pra debaixo do tapete.

- Não posso soprar embaixo desse tapete, não?

- Pode não.

- Mas eu…

- Você não ama, você só acha. Especula um sentimento que não conhece. Você não gosta, só tem uma sensação; um friozinho na barriga, mas isso não quer dizer nada. Você só vê os olhos brilhando e a mão tremendo, mas isso também acontece quando olha pro sol ou fica com frio. Você acha que me conhece e que tem o direito de me amar por apenas me ver aqui vez ou outra. Como se tudo fosse fácil, como se o meu desligamento do mundo lá fora não interferisse. Como se minha trombada em você pela primeira vez significasse algo. Como se eu também pensasse em você. Eu só ouço minha música e compro pirulito pra molhar no chá de camomila. É gostoso, até. Mas você… Não acha nada.

- Eu amo.

- Vou ter que repetir tudo, menino?

- Você não sabe. Você gosta de lírios e detesta rosa, porque te fazem lembrar da morte da sua mãe. Você gosta de preto porque neutraliza o que está sentindo, absorve o que tem e o que não tem. Prende no moletom o que quer soltar pela boca. Solta pela boca o que devia prender no coração. Anda com um tênis rasgado, com uma meia de ursinho, tentando moralizar o que não é. Botando essa tua máscara fina pra quem não quer te sentir, mas quem quer, também não consegue. Você desconta nas pessoas o que passou quando pequena; tenta evitar coisas que podem te estragar, e também as que podem te preencher. Retalha o que está completo, e completa o que fica perdido. Perda… Você se perdeu naquele teu quarto bagunçado umas trocentas vezes e tropeça no pé frequentemente, de um jeito estranho e que ninguém entende. Desvia o olhar e desiste quando o abismo está abrindo. As cordas são finas demais pra você se segurar, então você pula logo. Pisa no cadarço mas não abaixa pra amarrar, foi por isso que trombou em mim. Me ama e acha que não. Um cara aí, desleixado no banco de uma vendinha te ama e você nega… Eu sei, eu que sei.

- Sei não, viu.

- Você é dura na queda.

- Pode ser.

- Pode te amar, também?

- Pode não.

- Mas… Eu… Qu… Talv… Sei lá, só uma brecha.

- Deveria saber que eu não dou brecha pra ninguém, por que daria pra você?

- Porque o pirulito quebrado vai embora e sempre vem um novo. Porque o pó debaixo do tapete também se desaparece. Porque…

- Eu sei. Ah, e a meia de ursinho que transparece algo feliz… Bom, é porque eu piso neles.

- Me enganei sobre você…

- Dói, não é?

- Continuar amando mesmo assim também dói, não é? 

(samesshit)

Não mente pra mim. Me xinga, usa tua força e tira pedaços físicos meus, mas não destrói o pouco que resta dos meus sentimentos. Me rasga de ponta à ponta, mas faça isso usando algum tipo de arma cortante, não apenas o teu poder persuasivo. Usa tuas palavras mais chulas, mas não me engana. Por obséquio. Vai, tira essa tua personalidade fantasmagórica daqui. Leva ela pra longe. Eu só… Não aguento mais sofrer, não pelo mesmo motivo. Chega pra lá, fica distante. Bate essa tua cabeça dura na minha proteção, e fica aí. (s12-04)