soseforadois

Pra não dizerem que não refleti

A minha geração
Muito se perde
Pouco se mede.
A minha geração
Muito falta,
Pouco preenche.
A minha geração
Muito diz,
Pouco faz.
A minha geração
É o amor em telas de vidro.
A minha geração
É a paixão oral,
O físico ela passa mal.
A minha geração
Tem sede de copo cheio.
A minha geração
Tem fome estando farta.
A minha geração quer calor
Sendo fria.
A minha geração
Quer vida
Cheirando morte.

Rafael Liguili

Intocável

Teu olhar me condenava.
Eu dei a face,
Vocifera teu ódio,
Sou teu mártir
E você o luxo do lixo,
A beleza que ninguém vê
Mas, mergulhar
Em areia movediça
É pra quem tem poder
De sair.
Ás vezes penso
Comigo mesmo
Que tua pira,
Teu ódio incompreensível,
É por que eu consigo entrar
E sair desse teu mundinho
Escuro e escorregadio,
Não tem essa de me manipular,
Eu sei até onde posso provar
Desse teu veneno doce
Só pro meu prazer,
Não sei…
Infla teu ego aí,
Sigo o meu caminho
Longe do teu abismo.

Rafael Liguili

Não é e nunca será

Eu detesto essa sua 

Sede por atenção

Sua cópia mal feita

Suas verdades inventadas 

Sua moral não praticada,

Seu julgamento desmedido 

Dos que não tem lar

Seu riso

Mordaz e fugitivo

Procurando abrigo

Sem se perguntar, 

E você não percebe

Que é só uma chata 

Borbulhando inveja 

A caça de um cara

Pra te desprezar. 


Rafael Liguili

Par

Pra onde foi meu par?
Que me delirava
Pele e palavra
Sem me saturar
Pra onde foi meu par?
Que me vertia,
Me dilapidava em sua retina
Sem nunca me visitar
Pra onde foi meu par?
Que achei sem pretensão
Borrada em seu batom
Na contramão do luar
Pra onde foi meu par?
Já não consigo achar
Seu rosto se perdeu
Em meio a multidão
De amores que esqueci de enterrar
Pra onde foi meu par?

Rafael Liguili

Distorção

Não volto cedo
Marco o desprezo
No canto do olhar,
Não adianta a espera
Quem segue em ritmo
De tabuleiro
Dados e a sorte
Sem se entregar,
Noite adentro
Bolando paliativos
Seja lá qual for o tipo
Longe de intrigas
E quem nasceu pra te drenar,
Melancolia rasa
Sorriso sem controle
Meu amor é uma garrafa
Que eu to pronto pra quebrar.

Rafael Liguili

Duff

Ela curtia
Frida
Audrey
E outras marias,
Colagem,
Tinta,
Tela,
Arte na avenida…

Tinha um sonho
De sair da cidade,
Recomeçar a vida
Em um campo florido
De girassóis, ela dizia…

Feita de amor e ódio intenso,
Cortes e cicatrizes
Puxando a ficha de
Um passado
Encharcado
De crimes passionais,
Ela sofria
E sorria,
Porque ninguém a entendia…

Admirava
Raábe,
Bruxas queimadas,
Prostitutas Incompreendidas
Por uma sociedade machista,
Ego,
Império
E uma teoria
Psicanalista
De que toda menina,
Desde a infância,
Quer ter um pênis
Mas, ninguém compreende…

Certa vez ela conheceu
Um poetinha,
Diz que se apaixonou.
Era trevo,
Mistério, calor,
Suicídio, suplício,
Ressurreição,
Amor,
Mas acabou rápido
Como começou.
Justificou
Que não conseguia
Levar em banho maria,
O escritor era mais dividido
Que Cazuza em ideologia
E, de cima do muro ele não saía…

Hoje sei não
O que se passa,
Sumiu,
Foi supor o céu
Em outras bandas,
Brilhar em outra escuridão,
Ver Los Hermanos
Fora de estação…

Rafael Liguili

Trindade

Os laços estavam lá
No coração,
Com nó de marinheiro.
Invisíveis,
Inviáveis,
Sofrendo
A ação do desprezo
E do tempo.
Mar calmo,
Brisa leve,
Sol quente
Dourando a pele.
Em silêncio
A mente vagava
Junto com as ondas do mar,
Como se assim
Fosse ao teu encontro
Matar as saudades
Antes que se afogasse
No esquecimento…

Rafael Liguili