sonho cinza

Eu estive a observar as pessoas e seus costumes com frequência. Via suas fortunas, suas penúrias, suas mudanças… tudo. Todas são de fácil leitura, geralmente. Algumas cabisbaixas tentam passar despercebidas e outras de nariz em pé tentam ser evidência. O medo sempre veste seus olhos - ele orquestra a vida. Medo de pressas, medo de chefes, medo de atrasos, pobreza, dívidas. Sentem medo de não manterem a mecânica robótica de seus naturezas artificiais e descartáveis. Alimentam rotinas desesperadas e se escravizam com afazeres frívolos, que virão a ser só perca de tempo, ás vezes, num futuro não muito distante. No fim das contas, acabam por fugirem de si mesmos, de suas vontades que sequer lembram quais são. Sonhos são dobrados e guardados, amarrotados, mofados, esquecidos. Lá no fim, às beiras de morte, o sabor mais amargo aflora o paladar: enquanto suspendem os calcanhares cansados em suas cadeiras de balanço, na velhice, na doença, não sobra nada além de cinzas de sonhos e remorso reprimido.  Morreram há muito tempo, e há muito tempo o plano funeral é mais importante que levar o cachorro pra passear.
—  Yawk
Tuas raízes não significam mais nada e teus sonhos viraram imagens cinzas num livro esquecido, as pessoas passam e você não sente mais o cheiro delas, e o seu dia sempre começa tarde demais. Você tenta. Tenta. Tenta. E parece que vai morrer tentando. Você acha que não tem ninguém. Daí um dia, mexendo nas gavetas procurando por um isqueiro, acha o presente que se deu de aniversário uns anos atrás. Lembra de como se gostava. Vai no espelho, se olha. Presta bem atenção no seu olhar. Ele acende. Ele é teu. Você é sua. Se ama. Porque enquanto você existir, existe alguém que te quer bem.
—  Entre Aspas
Todos os dias quando acordo, me sinto vazio. Abro os olhos e nada. Levanto da cama, vou para o chuveiro e o barulho da água caindo no chão me faz agonizar. O silêncio do vazio me assusta. Quando me olho no espelho quase não consigo me reconhecer. Minhas atitudes me fazem pensar se quem sou é o que quero ser e se o que eu quero ser é que eu realmente deveria ser. Eu espero por um sinal, qualquer que seja, mas nada muda. Nada acontece. Nada me preenche. Me sinto vazio. E sem esperanças. Cheguei a um ponto em que não consigo mais ter fé. Simplesmente não consigo acreditar que as coisas possam ficar melhores. Meus sonhos ficaram cinzas. Minhas feridas parecem nunca sarar. A saudade parece nunca cessar. A dor parece nunca ter fim. Parece drama ou exagero, mas essas são as palavras nessa mesma intensidade que me cabem. Em todas as manhãs possíveis eu agradeço por tudo o que tenho e a única coisa que peço é forças. Às vezes, enquanto estou agradecendo, meus pensamentos tentam gritar e me fazer questionar o que há de errado comigo. Mas eu sei que não se deve questionar Deus e não quero fazer isso, mas admito que gostaria muito de obter respostas. Gostaria de saber o que acontece comigo, com os meus sentimentos, com a minha cabeça, com o meu coração. Gostaria de entender essa bagunça toda que escondo por trás de um sorriso. E todas as noites eu tento não pensar em como foi o meu dia, mesmo quando tenho um dia bom, pois por mais incrível que possa ter sido, sempre encontro algo pelo qual me entristecer. Às vezes, coloco o som no último volume na esperança de que a música abafe os meus pensamentos. E todas as noites eu tento não pensar em como foi o meu dia, mesmo quando eu tenho um dia bom, pois por mais incrível que possa ter sido, sempre encontro algo pelo qual me entristecer. Às vezes, coloco o som no último volume na esperança de que a música abafe os meus pensamentos. Entretanto, no silencio da noite, meu coração chora desesperadamente em busca de respostas ou de amor, o único remédio capaz de curar sentimentos negativos. Mas de vez em quando tudo o que eu ouço são as vozes que me dizem para desistir, para acabar com tudo de uma vez por toda. Medroso demais para fugir de casa. Religioso demais para cometer suicídio. Logo, continuo preso a tudo isso. Me sinto como um leão de circo: enjaulado, condenado a solidão e aos seus próprios pensamentos.  Parece que cresci sonhando que seria um alguém que hoje eu não sou. Isso me frustra um pouco, porém quando eu era criança, não tinha a visão de mundo que tenho agora. Às vezes, desejo nunca ter tido que crescer. Me sinto como um livro que depois de ter duzentas páginas escritas, voltou a ficar em branco. Perder a visão inocente que eu tinha do mundo foi como quando assaltam você e não satisfeitos com os seus pertences, levam sua vida junto. Me sinto um morto vivo nesse mundo cruel, egoísta e desigual. Me sinto vazio. Como se minha alma saísse de pouquinho em pouquinho de dentro de mim e fosse embora, desistindo de habitar o meu corpo, sentindo náuseas do que eu sou por dentro. Cansada de todo sofrimento inexplicável e absurdamente sem sentido. Eu só queria abrir os olhos amanhã e perceber que tudo isso foi um sonho e acordar dez anos mais novo. Talvez eu pudesse fazer escolhas diferentes. Talvez o meu mundo fosse um pouquinho mais amarelado ou esverdeado ou esbranquiçado e não tão cinza. Ou talvez eu faria as mesmas burradas e escolhas erradas e chegaria exatamente onde estou, porque fazer escolhas erradas é um dos meus dons. Eu só gostaria de não ter escolhido o vazio.
—  escritos de um homem.