solidariasolidao

Tocam-se os lábios. Esconde-se a ternura. Os dias surgem. Amaldiçoam a dor. Selam o destino de corações amantes. Vermelhos. Negros. Sangue derramado. Ao chão a glória inunda as inverdade. Gritando. Chorando. Amando. Tocam-se os lábios. Frios ou quentes. Adormecidos ou despertados. A lastima dividi-se. Pranto ou sorriso. Tocam-se os lábios. Os lábios. Separam-se. (Via Solidária-Solidão)

[…] Ele sentia o pulsar do que chamou um dia de coração. Alma minha a encontrar outra vez o encanto, a aurora acordava de seus pesadelos, o tirava do mundo insano que tomava conta de sua mente ao fechar dos olhos. Pensava em amor. Pensava em carinho. Pensava em tê-la. Tê-la. Nunca conseguiu tal coisa, amar sempre foi mas difícil do que caminhar entre os fragmentos de suas memórias. Queria não mais lembrar. Queria não mais se apaixonar. Queria abandonar sua humanidade. Animal triste, cansado, covarde. Longe desse tempo amargo, a esperar apenas a voz em seu ouvido, sussurrando juras amantes ao entardecer entre as colinas de seu sonho. Mundo irreal. Ele sabia que jamais poderia sentir outra vez junto a um alguém sorridente. Jamais. Talvez. Apenas só. Apenas amando. (Via Solidária Solidão)

[…] Ele sonhava outra vez com sua ilusão mórbida de tê-la distante. Não mais suportava desejar aquele corpo perfeito junto ao dele. Pense em loucura. Pense em insônia. Pense em não pensar. O que sentia se escondia entre véus azuis, véus sem cor, véus de sonho perdido nas lúcidas imagens de teu futuro insano. Passado condenante. Presente medíocre. Sua mentira proclamada ao alto encobria sua verdade inconclusa, seu lábio tremia ao pensar em beijar outra vez tão sublime face, dotada de bela paixão entre sussurros. Os acham os meros humanos sórdidos. Acham o seu impuro céu cinza, o seu impuro amor entre as flores primaveris sendo aos poucos mortas pela chuva negra. Segura as mãos sinceras de quem não amar. Segura firme os lábios que instigam a um beijo. Segura tua vida em olhos que admiram teu viver. Segura teu pranto diante de tamanho desatino. (Via Solidária-Solidão)

Calam-se as vozes, deixam-me pensar no meu destino. Destino. Medo tenho de tal palavra pronunciada entredentes, medo tenho das senhora que carrega o véu vermelho do sangue mortal, medo tenho da rua escura que sigo entre luzes ofuscantes. Devaneio sem fim a insignificância desse que vos fala enquanto tenta chorar entre letras infames. Infundadas memórias as que insisto em relembrar, verdade indizíveis da obscuridade dos lábios amorosos. Amei. Amava. Jamais irei. Tentação de ouvir a melodia suave de tua voz e perder-me entre os risos fracos do teu sussurro amante. Amei. Amava. Jamais irei. (Via Solidária Solidão)

Quero dormir ao teu lado, respirar teu ar puro, abraçar teu corpo pálido, tocar tua face e percorrer teus lábios com minhas mãos cansadas. Desenho então a linha tênue que me separa de ti. Imagino a queda da prisão que me deixa nessas grades de desprezo e intranquilidade. Estou feliz, mas estou sem ti. Estou triste, mas estou sem ti. O silêncio da noite me cansa e os pássaros me deixam apenas com notas desafinadas ao amanhecer, não mais quero uma canção solidária, não mais preciso de um beijo invisível ou de um sussurro sem sentido. Preciso do teu rosto. Do teu corpo. Do teu amor. Quero dormir ao teu lado. Quero ser outra vez um livre amor. (Via Solidária-Solidão)

Amado encontro de linhas infelizes
Triste olhar entre teu cabelo castanho
Cai aos olhos as mechas amarelas
Desse que costumava afagar

Em céu acinzentado a queda se aproxima
Do anjo. Do humano. Do amante
Esperando na última voz
O perdão de seus erros pagãos

Em solo frio deixa tua esperança
Ao som do outono laranja as certezas
Deixadas em folhas secas o som
Das misteriosas inverdades cruéis

Pesadelo deixado entre o fim da vida
E o início do caos
Sonho apagado da memória
Do inglório apaixonado

Então eis que chama meu nome
E sorrio em loucura sã
Mostro assim o rosto vermelho
E odeio em segredo
E mais amo em dissonante som

—  Solidária-Solidão

Indizível

Instante meu sem temor
Consumindo lentamente a coragem
Audacioso desejo de liberdade
Tocado pela confortante indecisão

Escreve em meu corpo os erros cometidos
Desde a declaração do meu amor
Por ti só. Por ti só. Pelo nosso sentimento.
Sagrado e devoto a tua máscara

A curta luz invade a escuridão
Do breu se faz o anoitecer
Deixando mortas as almas
Deixando solitárias as melodias tristes

Acalma meu soneto impreciso
Com teu perdão inaudível
A gritar sem força
-Fica, comigo. Abandone-me. Não. Só.

Rompe meu silêncio com tuas medíocres palavras. Insanidade corrompe meu ser, afasta minha razão. Destrói o que penso. O que pensei. O que sou. Mata-me por dentro com a tua indecisão entre essas mãos cálidas que delicadamente acariciavam meu rosto. Mãos pálidas. Frias. Angustiantes mãos que assustam. Cansado estou do teu descaso, da tua impetuosa paixão que insiste em rasgar minha alma de seda. Por favor. Cala as vozes. Cala-me com teu beijo sem amor. Ainda assim, beija-me. Uma vez mais deixa tua essência em meu rosto, em meus lábios grossos, tua mentira dita em minha face deixa junto aos meus olhos odiosos. (Via Solidária Solidão)

[…] Ele sonhava com mais um dia chuvoso. Ao seu lado as águas se distanciavam dos olhos e inundavam um pouco do caos que assolava seus dias frígidos. Olhos que fitavam os movimentos simples brilhavam aos simples enlace das mãos. Por beijo ele morreria. Por um segundo ao seu lado perambularia pela noite, pelo dia, pelo fim. Assim então sentia adormecido seu corpo e vagante sua mente a enlouquecer entre as sete cores de um arco-íris translúcido. Ele sonhava uma única vez. Ele dormia durante seu único dia de felicidade. Ele definhava. Ele chorava. Não. Ele morria. (Via Solidária-Solidão)

Rouba as cartas que um dia li para teu descanso. Cubro tua inocência com o minha capa negra, a guardar os segredos de uma vida imortal selada na iminência do fim eterno. Eterno. Palavras minha a assustar os sonhos teus, a dar esperança para o amor inacabado nas páginas do velho romance empoeirado. Rasga as cartas. Leva as desgraças de tua infelicidade para longe da tempestade simétrica que molha meus devaneios. Lento. Fraco. Frágil raio que queima meu pesamento hostil, recipiente desonroso de minha alma amantes a tentar permanecer longe da tentação de teus olhos tristes. A lágrima escorre de meus olhos cansados, corre de ti, foge de teu rosto de zinco. Agora se vai e deixa o espírito. Encharca o chão com o pranto transparente de quem amou e foi amado. (Via Solidária Solidão)

[…] Ele continuava deitado naquele chão encoberto de flores. Vermelhas. Amarelas. Violeta. Negras. Brancas. Mortas. Flores que padeciam aos seus olhos assim como sua alma que abandonava seu corpo aos poucos. Jorrava o sangue. Contornavam seus lábios as palavras doces e o medo enquanto o encarava a solidão e o abandono. Vestia sua velha camisa branca, surrada pelo tempo, amargurada pela tristeza das lembranças que um dia o mantiveram em prisão. Estava lúcido e ao mesmo tempo perdido em sua tão impura sanidade, não mais queria ver toda a mágoa que estava em sua frente, o fitando com grandes olhos vazios, órbitas que o chamavam a viver sem o sorriso que ansiava ao amanhecer e se despedia no ápice lunar. Ele sonhava menos. Ele se assustava mais. Ele chorava. As flores definhavam. Mais e mais. Lentamente. (Via Solidária-Solidão)

Rebela-se assim contra o caos. Teu corpo pálido se mistura com meu medo negro enquanto se perde em sombras finitas de um mundo inconquistável. Desejo teus lábios aos meus unidos em beijo ao anoitecer azul celeste contrastando com a aurora viva. Seus olhos fitam meus passos, meus gestos, meu cheiro. Observa. Admira. Chora a minha despedida. O sorriso se desfaz em pranto translúcido e o anseio se transforma em ódio amoroso, em meu corpo o perfume do teu cabelo macio e fino, negro e intacto, reflexo da tua alma a rebelar-se. Sonho. Ao fim, acordo. Desperto-me. E a escuridão se vai. (Via Solidária-Solidão)