socam

Certas madrugadas destroçam.
Te queimam a alma, comprimem o pulmão, socam o estômago, brincam de comprimir e soltar com a mão na tua garganta. Não há fármacos, música ou choro que desate o nó que se deu. Não há.

Dói pensar que eu sou como um degrau para as pessoas, uma forma delas se sentirem melhor. Ignoram minhas lágrimas, tapam os ouvidos para os meus soluços e socam meu coração com toques suaves.
—  Vomitei Borboletas Mortas.

Me mostra algum caminho, qualquer um. Qualquer pouso desenfreado e dança no meio do escuro na avenida paulista. Qualquer terremoto desde que nele haja seu brilho e sua boca estarrecida, intransigente, cálida como as noites que esqueci de dormir. As veredas da justiça como está nos salmos. Qualquer súplica de alguém que quer muito tanto em excesso, sobreviver. Porque quero tanto. Ser em outro o que não consigo ser em mim mesmo, mergulhado nas entranhas de que me perco e não me acho. Nos poréns e nas dúvidas tão impertinentes que socam e derrubam dente por dente. Mostra que há uma luz no meio do caminho e não somente uma pedra, muito embora ela seja um ponto importante para se enxergar, enxergar-se. Eu sei, sei que drummond diz que ela existe. Mas e se existir outras coisas como suspeito que existam? Por exemplo, um túnel? E se existir uma rosa no meio do asfalto surrado e dos olhos cor-de-mel tão tristes, tão sós, tão eus? Me mostra alguma vida que valha a pena viver, algum porto para atracar e ficar lá para sempre, recebendo no rosto a calma dos dias perdoados. Dias em que deus diria “filho, hoje não”. Hoje não há culpas, nem remorsos, nem pensamentos suicidas. Hoje te libero dos traumas e das infelicidades todas. Das mortes e dos surtos, dos sustos. Qualquer coisa que me faça respirar novamente, me traga à tona e me entenda, me faça entender. Porque preciso tanto, muito, demais. De forças para caminhar enquanto chove e enquanto a luz é pouca e não existe paz. Para entender os caminhos que dão a lugar algum e os que trazem mais espinhos do que rosas. Me mostra os becos da cidade e ali, neles, que entranhemo-nos nas nossas próprias imensidões desesperadas, indesejadas. Ali, para que nossas bocas fluam e atinjam outras muitas invisíveis, cobertas. Digo assim, tão por cima, para não perder o compasso das palavras que vêm e não sei aonde pôr. Então só vou escrevendo desesperadamente pois quero me salvar livrando-me. Atirando-as para todos os lados, todos os olhos, todos os céus. Me mostra qualquer luz que apareça de repente e capte, socorra, abra o peito e despeje tudo que eu não soube pronunciar; uma luz que abraça a agonia enterrada e que sufoca a ponto de sangrar. E sangra a ponto de impedir a respiração. E que causa asfixia e morte. Me mostra qualquer saída, qualquer adeus que possa ser reverberado sem doer, qualquer dor que não doa, qualquer amor que possa ser desmedido e imensurável, qualquer culpa perdoada, qualquer deus que me aceite nos aceite aceite a gente, nosso amor, nosso impuro escroto e insondável amor.

Qualquer coisa que salva nossas noites acabadas.

—  Igor Pires.
Eu escrevo para que a dor passe. Cada um de nós, tem um jeito de lidar com a dor. Alguns bebem, fumam, choram até dormir, socam paredes, gritam, ocupam seu tempo com algo, substituem a pessoa que lhes causou a dor, saem para festas, passam horas na frente do computador, se mutilam, alguns até acabam com essa dor para sempre, por não conseguir suportar. Todos querem dar um jeito dessa dor passar rápido, que ela não seja presente. Mas não entendem, que toda dor, precisa e deve ser sentida. Vocês devem estar cansados de ler que vai passar, mas eu lhes garanto: Dói, mas passa. A vida é assim, acontece e passa. Nada fica. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos, essa é a triste verdade. Eu sei como é aquela vontade de abrir o zíper do corpo, sair e encarnar em um objeto inanimado qualquer, mas não existe uma maneira menos dolorosa de lidar com a dor, ela, infelizmente, precisa ser sentida. Precisa ser levada como aprendizado. Em todas as fases da nossa vida, sempre terá algo que irá nos ferir, machucar, fazer doer novamente, reabrir a ferida, e precisamos aprender á sentir a dor, para lidar com ela depois. Todo mundo sofre continuamente, incluindo aqueles que fingem não sofrer. - Amanda Brandão.