simetria celestial

sinto a necessidade de navegar em teus olhos celestes feito buraco negro me puxando e me arrastando onde o tempo não existe. às vezes os observo atentamente na tentativa de me encontrar dentro deles, o reflexo da pupila lustrada me faz crer que eu existo dentro de você. as tuas pálpebras guardam galhos roxos e dormindo ao meu lado você é ainda mais bonito. penso que quando se dorme do lado de alguém, a nossa vulnerabilidade é infinda e a alma se revela ultrapassando todos os níveis da nudez. as nossas risadas unidas em sincronia dá uma música, o nosso abraço atemporal dá um tango, e dos bons. busco sempre te procurar nos detalhes inimagináveis da realidade, da vida e do cotidiano. te encontro nas molduras sofisticadas das pinturas renascentistas, como quem nota o que é visível mas não é à mostra. nossas conversas são cruas, os meus átomos se conectam com os teus e eu posso ouvir a tua voz dizendo que tudo bem me mostrar para você, tudo bem ser o que sou e quem eu sou quando estou com você, pois se exige coragem para se despir-de-alma para alguém assim. os feitos rotineiros dessa vida exaustiva não parecem tão ruins vistos de tua óptica. até te espionar tomando café no Braz é louvável e o teu sorriso de canto formado por cafeína é de natureza celestial. as simetrias existentes em nós me fazem crer que as partículas que há em mim possuem a mesma origem que as tuas. diálogos que fazem conexões tão sutis quanto profundas como dois mais dois são quatro. você, terra, eu, água. esse contato não físico, de âmago para âmago, é cósmico e entendo que os nossos átomos não se encostem, mas sei que existe algo incrível dentro da invisibilidade dos seres que se acoplam no momento em que te vejo em sintonia comigo. você é do tipo de pessoa que transcende a arte e qualquer palavra que esvai da tua boca é uma poesia marcada em tinta azul no universo. você é como o fauno e eu sou a ofélia, órfã de zelo, desprotegida e perdida no teu labirinto enfeitado e enfeitiçado. você, um alquimista que busca a harmonia dos contrários e a tua pedra filosofal transformou meu coração ateu em ouro e o meu interior em pura luminescência. agradeço por me ensinar o que é ser de luz. o teu eu é como um sol que nunca precisou de nada para se irradiar em todas as entranhas e frestas do mundo caótico que somos por dentro, de dentro. te amo impreterivelmente sem pedir algo em troca e sem hesitar pelos remorsos de acidentes futuros. porque o amor é a porta da alma que se abre sem cobrar do hóspede.