seixo

1996 a 2004

Inverno é sinônimo de saudade doída da minha infância na casa de iamã.

as ruas
os cheiros
os moleques

a cor do céu naquela época tinha cor de eternidade.

e todo mundo achava que alcançaria as nuvens se esticasse os braços um pouco mais.

os morros
o rio
argila
betas
aquários
seixos
a pedra gigante que fazia a gente ver o mar ao subir nela

“Não vai lá pro lado do barro vermelho, não, menina. Lá tem raposas.”

história das vizinhas!
tinha nada, não
só tinha liberdade

quem nunca viu aquele mar lá longe, que só Deus sabe onde fica, não possui noção do que é sentir o peito cheio de vontade de explodir numa alegria sem tamanho.

a escola
o cajueiro
o quintal
as lagartixas

flores de maracujá
palhas de coqueiro
o cágado que apareceu na calçada

os carros passando na avenida lá longe
longe
longe
aquele barulhinho de buzinas cortando o silêncio no meu quarto.

nos fins de semana, antes do pôr do sol, meu pai me levava à última rua do loteamento, para ver os carros passando na avenida, como se a gente tivesse no topo de um arranha céu.

parecia ser o melhor lugar do mundo, e talvez até fosse.

tenho gratidão pelo passado quente:
eu tinha sete anos e um coração eterno.

hoje a vida só faz me arrastar.


Anthonieta Gierli, 16 de julho de 2015.

Lugar de vovó é na rua grafitando
Por Estefani Medeiros


Nem tricô, nem bordado. O passatempo que tem conquistado um grupo de senhoras portuguesas é grafitar muros. O projeto Lata65, da arquiteta Lara Seixo Rodrigues, ensina e motiva aposentados de idades entre 64 e 92 anos a encontrar um estímulo criativo na arte de rua, em Portugal. Após três anos de existência, o projeto já formou sua primeira grafiteira: Luísa Cortesão, 64 anos.

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O CONJURO DA QUEIMADA

Mouchos, coruxas, sapos e bruxas. Demos trasgos e dianos, espritos das nevoadas veigas.

Corvos, pintigas e meigas, feitizos daas mancineiras. Pobres canotas fura das, fogar das vermes e alimanas. Lume das Santas Companas, mal de ollo, negros meigallos, cheiro dos mortos, tronos e raios. Oubeo do can, pregon da morte, fucino do satiro e pe do coello. Pecadora lingua da mala muller casada cun home vello.

Averno de Satan e Belcebu, lume dos cadavres ardentes, corpos mutilados dos indecentes, peidos dos infernales cus, muxido da mar andan a xaneira, guedella porca da cabra malparida.

Con este foi levantarei as chamas de este lume que asemella ao do inferno, e fuxiran as bruxas a cabalo das suas escobas, indose bañar na praia das areasgordas. Oide, oide! Os ruxidos que dan as que nos poden deixar de quemarse no agoardente quedando asi purificadas. E cuando este brebaxe baixe polas nosas gorxas,quedaremos libres dos males da nosa ialma e de todo embruxamento.

Forzas do ar, terra, mar e lume, a vos fago esta chamada: si e verdade que tendes mais poder que a humana xente, eiqui e agora, facede cos espritos dos amigos que estan fora, participen con nos desta queimada.

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Los fuegos del Burgo este año brutales (en O Seixo)

Mar e Lua

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

 Chico Buarque