se traem

Os homens que conheceram a profundidade da tristeza, se traem quando são felizes, têm um certo modo de compreender a felicidade que parece mostrar que querem comprimi-la e sufocá-la, por ciúmes — porque sabem que, infelizmente, essa logo fugirá.
—  Friedrich Nietzsche.
Gosto de deitar deixando seu espaço na cama, porque quando eu fecho os olhos, você está ali. Não importa aonde você esteja, você está ali, no seu cantinho preferido da cama, comigo. E eu sinto seu cheiro, ouço você suspirando como quem diz: eu estou adorando ficar aqui. Então, meus olhos me traem friamente, se abrem e eu não consigo ver nada além de um grande espaço preenchido pela solidão. Dói. Mas os olhos se desculpam de forma inesperada: eles brilham. E esse brilho é a prova de que eu não estou louco e que tudo isso foi real um dia.
—  Etilismo Abstrato
As palavras saem de minha mente e percorrem um caminho longo até repousarem em teu corpo. Ah, e como eu queria percorrer o teu corpo, tocar de leve, fazer arrepiar, fazer-te sorrir porque apenas a nossa presença é suficiente, é confortável. É deitando em teu peito que criamos intimidades, segredos, sonhos… Mas você fica tão longe, tanto na distância como nas ideias, nos gostos, nos sabores de sorvete, nos gêneros de livro. Opostos não se atraem, se traem. Porque em algum momento as diferenças falarão mais alto. Porque até para ter amigos selecionamos critérios semelhantes para um boa convivência. Claro que é importante se abrir para novas coisas, mas com amor é diferente, amor une o que tende a formar algo inteiro, e peças diferentes não se completam, não criam um forma, um desenho, um sentido. Então te mantenho em meus devaneios, porque ali, no imaginável, você me completa de alguma forma sem sentido, enquanto aqui fora, a realidade nos repele, nos difere, nos afasta naturalmente sem precisar de um longo e doloroso ‘adeus’.
—  Gabriela Giacomini.