sala jantar

Eu mantenho tudo intocado, tudo em seu devido lugar assim como você deixou. Os quadros ainda estão pendurados nas paredes, as cadeiras fora do lugar na sala de jantar, o filme pausado na televisão, sua escova de dentes e a toalha ainda molhadas no banheiro, o pacote de doces sobre a escrivaninha ao lado dos cadernos, e as portas dos armários ainda entreabertas, viu só? Nada mudou. Talvez algumas lâmpadas tenham sido trocadas, as teias de aranha se acumularam em alguns cantos, mas a plaquinha escrita “lar doce lar” ainda está na porta, o endereço também é o mesmo, você não iria esquecê-lo, porque afinal, eu sou a sua casa e você precisa voltar algum dia. Então, eu espero, espero sentada na varanda com o café feito e seu livro preferido em cima da mesa. Espero ouvindo a sua banda preferida para quando chegar, se sentir em casa e feliz. Eu espero, um mês, um ano, uma década, uma vida, eu estarei te esperando.
—  Capacitou em companhia de Vireipassaro.
Ela me olhou diretamente, não hesitou nem por um instante e ali eu já sabia o que aconteceria, mas nós nunca queremos enfrentar as coisas como elas realmente são. Tentamos criar um futuro paradoxo onde tudo termine bem. Eu até tentei me convencer de que ela voltaria, ela não iria e nem poderia me deixar assim. Depois de tantos planos, tantos sorrisos, tantos momentos juntos, como ela teria coragem de jogar tudo isso no lixo? Ela me quebrou cara, de tantas maneiras e jeitos que ainda não sei por onde começar a catar os meus cacos que estão espalhados ao lado do nosso retrato na sala de jantar onde sonhamos com um futuro que não faz mais sentido. Até agora pensei que fosse ela no interfone, arrependida por ter tentado matar o que imaginávamos ser eterno. Imaginei que ela chegaria com aquele jeitinho dela, com um tom de voz rouca dizendo que foi só uma briga típica de casal e que a gente já se entendeu antes mesmo desse desentendimento acontecer, que tudo não passou de um equivoco ocasionado pelas três taças de vinho e ciúmes da morena do bar. Continuo aqui, ao lado do telefone, esperando uma ligação dela, mas acho que não vai acontecer…
—  Euduardo e seus caos.

Algumas informações durante a vida deveriam ser guardadas apenas para si, como certos segredos, manias, mentiras e vergonhas. E eu adicionaria na lista com uma clara seta de neon: “detalhes malucos da família Dalton”, talvez com uma nota de rodapé dando pequenos exemplos práticos para manter qualquer ser humano com um mínimo de juízo a um continente de distância.

Devia bastar.

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Ao mesmo tempo que deslizava a ponta dos dedos sobre a toalha de linho branca estendida impecavelmente sobre a mesa, uma doce melodia escalava minha coluna cervical até a ponta dos olhos. Era como um bailar de notas agudas, um piano de lembranças debruçado à beira mar. Da grande janela lateral da suntuosa sala de jantar, uma forte rajada de vento interrompe o silêncio provocando a quebra instantânea do pensamento, uma onda esquecida dizendo que tudo acabou. Eu sabia que não o veria mais sentado na cabeceira daquela mesa, tomando seu café amargo e saboreando seu bolo de passas predileto com aquele ar de felicidade. Foram dois segundos de nostalgia, o passado trazendo o perfume da lembrança, o presente vago, amplo, de costas para o mundo. Sim, a minha solidão guardava aquele amor.
—  Elisa Bartlett, Outras Vidas.
Tag: A rotina de um escritor

Vejamos… Eu não sou muito de rotina ou rituais. Uma coisa que 99% das vezes não falta é música, eu costumo sempre escrever com música, porque é uma coisa que me ajuda a isolar o mundo em volta, eu coloco os fones de ouvido e a música me deixa focada ali no que tenho que escrever. 

Bom, quanto a horário, eu gosto muito de escrever de manhã e de madrugada, especialmente de madrugada. Tudo fica tão silencioso, é um delícia de hora para se escrever, sem contar que parece que tem alguma magia muito incrível, que de madrugada eu pareço mais inspirada, focada, viro a louca da escrita. 

E eu gosto de ficar variando os lugares onde paro pra escrever, as vezes é no sofá da sala, outras vezes na mesa da sala de jantar, na minha cama, no escritório… Sempre que eu vejo que não estou conseguindo ir muito adiante com a cena, mudo de lugar e parece que a coisa se renova, aí volto a escrever numa boa. É bem estranho. 

Cara, eu acho que é isso… Não tenho muito ritual não, nem manias super diferentonas. 

Originally posted by haidaspicciare

Acordar de madrugada chamando pelo seu nome já virou rotina. Te imaginar ali, do meu ladinho com os pés entrelaçados ao meus, e minha mão em seu cabelo, é tão… Repugnante. Sim, repugnante. Eu não queria imaginar, eu queria te ter ali. Realidade, garota. Mas, se eu passo pelo corredor, te vejo na sala de jantar, com a cara enfiada em um livro qualquer. Se vou pela cozinha, quem sabe, você estaria lá, procurando algo na geladeira. Eu imagino cada coisinha, cada momento que queria passar com você. A imaginação é tão forte que estou te fazendo presente. Se estou ficando louca? Talvez. Mas o amor é louco. Te amar é loucura. Realidade, garota. E lucidez também.
—  Nice Rodrigues.
Eu já tinha te esquecido quando li aqueles versos que me fizeram lembrar você. Era uma daquelas tardes quentes, um mormaço de embranquecer o céu. E lá estava o poema, na mira dos meus olhos, trazendo tudo à tona como um soco no estômago. E na boca veio o gosto e um turbilhão de cenas subiram pela espinha feito um tiro do avesso. O nosso amor bipolar, tão doce e desprendido, tão doido varrido, um abcesso de estrelas cadentes. E tudo veio à mente, os leros absurdos, o humor na sala de jantar, uma visão utópica do que não existe mais. De fato, eu nunca senti algo assim, uma saudade física que te faz tremer inteira, corrói os dedos, os olhos, os pensamentos, te faz querer morrer diante daquele clarão. Eu tinha enterrado tudo no meu peito, me esquecido de como você era e de como o nosso amor era bom. E agora o que eu faço? Maldita hora que fui abrir aquele livro.
—  Elisa Bartlett

Tchau, tio, pode deixar. – Fechou a porta e jogou a mochila sobre o sofá, seguindo para a sala de jantar e abaixando próxima à mesa. – Charles, vem cá. Por acaso vai ficar escondido até seus pais voltarem? 

Somos uma geração que come de pé, que trocou os doces ritos que cercavam o nobre ato de alimentar-se, por uma apressada ingestão de calorias. Já não comemos, abastecemo-nos como um veículo, como um automóvel encostado à sua bomba. Trocamos as velhas salas de jantar por mesas de abas, que se improvisam, às pressas, de um consolo exíguo encostado a uma parede. E o que sabe de um lar uma criança que não foi chamada, na doçura da tarde, do fundo de um quintal, para interromper as correrias, lavar mal-e-mal as mãos e vir sentar-se à mesa posta para o lanche, com mansas senhoras gordas que vieram visitar a mamãe? É a hora dos quitutes, das ingênuas vaidades doceiras, da exibição das velhas receitas, copiadas em letra bonita de um caderno ornado de cromos. Somos uma geração que perdeu o privilégio de não fazer nada, aquele doce não-fazer-nada que é a mansa hora do repouso, o embalo da rede na frescura de uma varanda, a quietude ensolarada de um pomar em que o sono da tarde nos pegou de repente, a hora de armar brinquedos para as crianças, das visitas que chegam sem se fazer anunciar, pois na certa estaremos em casa para uma conversa despreocupada e sem objetivo. Somos uma geração de mulheres que saem demais de casa, para trabalhar ou para se divertir, e perde metade da vida indo ou vindo para não se sabe onde, fazendo fila para comprar, tomar condução ou assistir a um cinema. Perdemos o abençoado tempo de perder tempo, de não fazer nada, a única hora em que a gente se sente viver. O mais é canseira e aflição de espírito.
—  Elsie Lessa.
Vácuo

Ninguém olhando o noticiário. Só a poeira come na sala de jantar. No banheiro, o banho é frio e vazio. Nem os pássaros voam no meu quintal. Durmo comigo mesmo, a cama é de solteiro. O telefone não toca, o celular não vibra, nunca se ouve o som da campainha. Nunca temi o isolamento, assim o aceitando. Meus olhos não veem ninguém, meus ouvidos não ouvem nenhuma voz, não sinto o toque, muito menos o beijo de alguém à meses, talvez anos. Peço desculpas à todos que magoei mas não quero que me perdoem. Não voltem atrás, não sintam minha falta, não me procurem. Minha solidão é o resultado de uma vida descuidada. Minha solidão é o reflexo das minhas atitudes. A solidão; de tanto procurá-la, achei.

Bárbara Xavier

gesto mudo

o silêncio se projeta em meu
olhar como a paisagem
   num retrato
velho e esquecido,
levemente caído na sala de jantar,
esperando a poeira.
o que há em mim é sobretudo o silêncio.
sou a fotografia do silêncio,
a cena,
  o gesto.

Por tudo que é mais sagrado pras pessoas oriundas dessa terra. Não joga comigo. Não se faz de difícil. Por favor. Eu te imploro. Não me deixa ir embora por um vacilo seu. Não arrisca me perder por medo de tentar. Em mais da metade do meu tempo, eu faço coisas sem pensar direito. Eu faço loucuras, eu penso asneiras, eu quebro a cara demais. Admito isso. Mas depois que você chegou o meu mundo ficou mais bonito. Tudo pareceu estar mais próximo de se encaixar, do que já esteve em toda minha vida. Por favor. Não quero deixar isso passar. Eu sei que não existe um vazio tão grande aí dentro. Posso sentir seu coração pulsando acelerado quando você percebe que o impossível pode ser possível e que eu posso sim ser sua. Eu queria te dizer que também estou partilhando desse sentimento. Queria poder pôr todas as minhas coisas em uma mochila, fugir enquanto a casa estiver em sono, deixar um bilhete colado no espelho da sala de jantar com as palavras “Mãe, fui encontrar minha felicidade”, e assim poder pegar um ônibus na rodoviária com destino à sua casa. Eu faço isso por você. Mas não desperdiça. Se você não sentir nada por mim, eu vou entender e vou seguir em frente como sempre tento fazer. Mas se você sentir um friozinho na barriga ou um batimento cardíaco mais acelerado que o normal. Por favor. Não esconde, não. Tudo parece ser tão bonito quando eu penso em encontrar você. Não quero procurar felicidade nos braços de outro alguém e morro por dentro de pensar que você possa estar fazendo isso nesse exato momento, enquanto eu escrevo sobre você. Não há nada que eu possa fazer, além de me lamentar e de suplicar que sua percepção sobre isso seja otimista. Eu te daria o mundo se você me pedisse, mas como isso não é possível eu só consigo te dar palavras chorosas e cheias de promessas que provavelmente não vão te comover. Sinto-me incapaz sozinha, mas se você entrelaçar sua mão na minha, podemos fazer tudo ser possível. E quer saber? Não importa de estou sendo clichê ou se possa estar me precipitando. Posso estar sendo ingênua e uma porra louca, sei disso. Como sei que isso parece a coisa mais estúpida do universo vista de longe. Me perdoe, mas eu sou assim. Quando eu quero eu não nego. E eu quero você. Muito. Não como um troféu pra minha sala ou um alguém pra poder chamar de meu, mas sim como alguém que eu me disponibilizo a amar e amar e amar. Porque você é incrível. Porque você é amável. Porque você é tudo o que eu sempre procurei em lugares errados e por uma obra perfeita do acaso, quem te achou não fui eu, quem me achou foi você. E quando você me achou eu me achei também.
—  Desiludiste
Cap 11 - Dia a Dia parte 2

 Subiram e a DJ mostrou orgulhosa paraa senhora, quem tinha convencido a subir.

- Olha que veio comer!

- Finalmente menina, te juro que minha comida é maravilhosa e não vai se arrepender.

- Tenho certeza que sim - disse Vanessa com certa vergonha.

Optaram por comer na pequena mesa da cozinha ao invés da sala de jantar, Conca praticamente obrigou a segurança a colocar mais comida quando percebeu que havia colocado pouco por pura vergonha.  Almoçaram enquanto Max pintava seu caderno de desenho e a empregada terminava de arrumar a cozinha. Clara achou divertido o jeito de a segurança comer, não comentou nada até que Conca também notou.  

- Benza Deus, dá gosto ver cê comendo menina - sorriu

- Eu estava me segurando para não dizer nada –  deu uma risada longa - mas é mó bonitinho você comendo, parece um menininho de rua com fome.

Vanessa ficou vermelha e a DJ acho ainda mais adorável aquela cena.

- Ai mano que vergonha, mas é que tava muito bom dona Conca, muito mesmo - disse feliz.

- Que bom que gostou minha filha, agora vou pode cozinhar com vontade, porque essa outra ai come que nem passarinho - apontou para Clara.

- Não começa - riu.

Daquele dia em diante a segurança passou a almoçar na casa com Clara e a DJ por sua vez não tinha, em uma semana, ido almoçar fora, gostava da companhia da morena, ficavam ali conversa trivialidades do dia a dia e se conhecendo aos poucos. A loirinha parecia se interessar em descobrir mais sobre a vida da outra mulher, percebi Vanessa deixando a formalidade de lado e cada dia descobria uma coisa nova sobre a segurança.

- Mulher… eu sempre me assusto com o tamanho do seu prato, fico me perguntando como você pode comer tanto e te um corpão desses –  falou divertida meio sem pensar e depois se arrependeu, tinha deixado nas entrelinhas que reparava no corpo da outra mulher.

- Ah mano, minha refeições são certinhas e não como besteiras, além de treinar quase todo dia e praticar esportes.

- ODEIO academia – se coçou – ó to até me coçando – fez graça e a morena riu – mas sério, você não come nenhuma besteirinha?

- Ah tem o dia do lixo uma vez por sua semana. Ai eu como um doce  mas mano eu que eu amo comer no dia do lixo é miojo – disse quase salivando de vontade.

- Hãm?

- Miojo!

- Miojo? Essa é boa, ô eu tem uma receita mó boa, qualquer dia eu faço pra nós.

Outra semana. Outro dia. Outra novidade. Na quinta enquanto se arrumava para tocar Clara escutou uma voz conhecida vinda da televisão, aumentou o volume e fico surpresa com o que via. Vanessa participava da um programa muito famoso na tv por contar o dia a dia de vários profissionais, naquela semana o tema era sobre protetores animais e ONGs, a segurança explicava como funcionava sua clinica e a ONG.

- Que foda! – disse sozinha completamente encantada em ver o trabalho maravilhoso que Vanessa fazia.

No dia seguinte assim que acordou foi atrás da segurança comentar da reportagem.

- Ei famosa?! Te vi ontem na Tv – sorriu.

- Ah, como segurança eu nem deveria aparecer na Tv mas Tadeu ainda não tinha falado comigo quando gravei, foi mal.

- Para né… deixa disso, você faz um trabalho maravilhoso, quando você disse que era protetora nunca imaginei que era assim, tipo é muito foda, tipo eu amei o programa, a clinica é linda, a ONG também, e aquele labrador? Uma graça! – desandou a falar de tanta animação.

- Nossa que legal que gostou – Vanessa ficou extremamente feliz com a reação e não se conteve – bom se um dia, quando toda essa bagunça na sua vida  acabar, se você quiser conhecer eu… eu posso te levar.. . se você quiser, claro – colocou as mãos nos bolsos.

- Sério? – bateu palmas – Claro que quero, olha que eu vou cobrar.

Ficaram se encarando até Vanessa se lembrar que queria lhe fazer um pedido.

- Ah, antes que eu esqueça, queria passar a noite aqui trabalhando, poderia?

- Lógico, bom, não irei dormir em casa essa noite, vou tocar e depois sair com uns amigos, mas fique a vontade para subir. Na verdade não vai ter ninguém em casa, Tadeu vai jantar com a gente hoje e depois levar Max e Paula pra casa dele. Espero que não tenha medo de dormir sozinha – riu – é que eu tenho um pouco.

De noite depois do almoço Tadeu conversou brevemente com Vanessa queria saber da investigação e de como estava sendo seu convívio com Clara, se deu por satisfeito com as respostas e agradeceu novamente a segurança por aceitar esse caso.

Vanessa tinha decidido ficar na casa naquela sexta para acelerar as investigações, estava preocupada com o final do mês se aproximando e com o fato de nenhuma nova carta ter sido enviada, queria ter o perfil de cada pessoa naquelas listas antes da próxima carta. Faziam 2 semana que tinha as listas de Clara e já tinha investigado a fundo mais da metade. Excluiu alguns e separou outros com mais potencial  para fazer perguntas a Clara. Montou um quadro e nos mais suspeitos colocava um lembrete colorido com a pergunta “Por que?”  na tentativa de entender se aquela pessoa teria algum motivo para ameaçar Clara.

Como a DJ não voltaria para casa, naquele dia, a morena colocou um roupa mais confortável,  um conjunto de moletom preto da Kings e ficou ali a madrugada toda trabalhando. Por volta das 3 da manha decidiu subir para buscar um pedaço do bolo integral de banana que Conca tinha feito especialmente para ela, acabou comendo, e bebendo seu café, ali no sofá da sala onde os gatinhos estavam deitados. Ficou no escuro mesmo, apenas com as luzes do jardim iluminando o ambiente, através dos grandes janelões de vidros da sala. Se perdeu em pensamentos por uns bons minutos até o barulho de um carro parando na rua em frente a casa lhe chamar atenção.