ruflar

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Heitor nasceu adornado de pássaros e sua proximidade me cheirava a flores e eternidade. Quando vi seu sorriso pela primeira vez, o lugar parecia emitir raios vermelhos, da cor da força que ele carregava. Hoje ele completa 4 anos e consigo vestir-me vida e pele-poema com este tão belo amor que dá tanta grandeza e graça à minha vida. Caminhar ao lado dele é a silenciosa travessia de uma trilha com manhãs de rosas. Não consigo lembrar o que me era antes dele, precioso. Ontem, precisamente, refleti que dentro de uma numerologia poética, nosso número parece ser quatro. A luz do nascimento dele, do meu, o gerar, o fazer corpo, que se converge em matéria vibrante e torna-se par. O nascer, diz tanto dele, quanto de mim. Uno e duplamente nascidos. Ainda habita-me por dentro a frondosidade lírica do seu surgir e o ruflar de asas de pássaros, que volta e meia, visitam-me sol para lembrar que a fortaleza da armadura de meu filho é feita de plumagem.

Amo-te sempre, meu passarinho.

Feliz aniversário. 

Do dia que morri e renasci

Me despi de toda a angústia que me revestia o coração. Muitas vezes o senti bem pequeno e pesado, cada vez se comprimindo como se fosse esmagado por entre minhas próprias mãos. Esbatendo feito o ruflar das asas de um beija-flor, guardei urgências de viver…
Não há necessidade de urgências, como não posso me permitir cometer a loucura de não viver. Já dizia Saramago, “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” Hoje abri a porta de mim para sair para fora e olhar pela primeira vez tudo em minha volta. Volvi meus olhos para mim como quem olha para outra pessoa diversa. Sou observadora de mim, rainha de mim e é com alegria que me rio de mim! Nesse espanto de descoberta, agora todos os dias saio de mim, me visto de vida, de sol e de luz. Tenho tesouras com que corto as amarras, e chaves que destranco portas, grilhões e prisões. Essa é a maior liberdade que se pode conquistar.

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