ruby sparks a namorada perfeita

Houve um tempo em que eu achei que tinha te idealizado. Assim como Ruby Sparks, o filme em que um escritor imagina uma namorada perfeita até ela sair da história e se materializar na sua frente. Como quando forçamos muito para que um sonho aconteça e passamos a fazer um compilado de sorrisos bonitos que acumulamos em nossa memória, assim como gestos suaves e gentis de filmes românticos e frases clichês que pareceria incríveis se fosse com você. Eu achei que tinha forçado muito a minha mente a acomodar você. De forma tão invasiva que eu não me permitiria mudar de frequência, supor rompimentos ou imaginar que, assim como em você existem tantas partes boas, também existem partes podres. Somos humanos, não? Mas eu achava que você estava em um plano maior. Eu falava que você era tão humano, mas tão humano que não poderia cometer “x”, você era tão sereno e sincero que não poderia especular qualquer tese contraria. Você era uma versão bonita de todas as projeções que fui construindo com o tempo.

E isso dói para os dois lados. Tanto para aquele que despejou expectativas intensas e, por vezes, até cruéis com o outro, quanto para aquele que foi incumbido de protagonizar a história perfeita, o namorado perfeito ou o filho perfeito. É como se olhar no espelho e se reconhecer através dos desejos alheios, mas nunca os seus.

Bom, a partir disso houve também o grande revertério. Aconteceu que por mero acaso ou obra do destino, você cometeu um erro. Penso que a informação nova correu para alguma parte do meu cérebro com todas as esperas e ilusões, para contar alardemente que aquilo tinha se dissipado. E eu também.

Demorei a entender o quanto de mim estava enraizado em cada expectativa endereçada a você. O quanto do “socialmente aceito” ou das “romantizações midiáticas sobre o relacionamento” estavam cravadas nisso. A culpa, ou o que queria chamar, continua sendo sua pelo erro, mas eu que escolho de que forma isso irá me ferir. O bastante para que eu nunca mais te perdoe ou o suficiente para que eu saiba distinguir o que é meu?

Todas as idealizações se estreitam após um grande ou pequeno erro. Todas as nossas antigas convicções se afastam para dar lugar a novas constatações. Você era humano antes disso, você continua sendo após. Às vezes precisamos conhecer a ferida primeiro para descobrir que ali pulsa. 

Pulsamos.