rua larga

Antes, por uns dias menos frios, ele diria para mim se pudesse e não estivesse tão absorto no não-sofrer-por-amenidades: eu te quero. E andaríamos andaríamos sem controle pelas ruas largas da cidade comprida, cheia de flores e carros, lotada de vozes e gritos, sussurrada entre fumaças de cigarro e maconha e fogueiras feitas para chamar a atenção em meio à desatenção tamanha que nos trouxe o não tão novo século. Entretanto, é novo: é novíssimo, é absurdo, é ainda um ser se redescobrindo enquanto dois prédios tombaram feito palmeira sobre o mar; assim como se redescobrisse em si uma planta, pequena e miúda, apertada no centro, surgindo do meio da terra em direção à superfície clara clara limpa lúcida e amena como era a superfície de Paris quando ainda nem era Paris o espaço público que ainda nem possuía gente que se tornaria depois parisiense feliz parisiense falando falando abertamente e feliz a respeito de Laurent. Antes, por que antes ainda não havia a timidez e não havia a calamidade da dor, ele diria se pudesse e ousasse: há uma fuga. E olharíamos, olharíamos beberíamos, veríamos e enxergaríamos adiante a luz branca que seria, então, a tal fuga, o tal presságio indiscutível de quem tem só medo crispado nos músculos. Tão triste: tem hoje, ele, horror, horror aberto, quase terror, embora não saiba ao certo se há diferença: tem hoje angústia pré-definida em algum tempo tão recente mas que é mesmo assim tão antigo ― porque a vida em absoluto precisa ser vivida nos Minutos Talvez Segundos Detalhes. Repito, falei baixo primariamente, repito: eu, por uns dias quentes e por uma rápida dureza das unhas que se expõem nos bancos, nas filas de padaria, nas poltronas alucinadas dos cinema, eu por uns dias quentes falei batendo de vazios em vazios que tinha um sentimento abissal. Feito aquele lugar mais fundo que existe lá no fundo do mar? ele perguntou, e eu disse: sim, como aquele lugar mais fundo que existe sorrateiro e escondido, cheio de perigos, abrigando criaturas e feras doentias. Bem lá no fundo do mar. Abriu um sorriso frágil, concordando. Depois, a cachorra latindo alto e histérica no portão de casa, depois quando chegasse bêbado das trivialidades e naturalidades juvenis que fazem parte da cidade nua: depois não conseguiria fazer absolutamente nada a não ser se resignar e aceitar, silente, redundante embora silente, que antes ― quando havia a possibilidade de dizer sobre os incríveis sentimentos que não foram ditos ― que antes ficaria mesmo antes e que depois seria esse vazio apertado e denso e cheio de augúrios e fantasmas lisérgicos cantando cantando cantando horrores da guerra na Síria. Depois, a cicatriz risonha fazendo claridade no braço de cor escura, a pele negra, os pelos raríssimos: depois perceberia que o depois era uma coisa agora viva e que respiraria tão fundo e tão complexo, sem nenhum sufoco, sem nenhum desespero, até que chegasse finalmente a morte simples. Antes, se lembraria: aquele conto da flor de lis em que uma velha dá passos e passos por entre gentes e gentes e se deixa sucumbir ao final de tudo debaixo de uma árvore com sombra terna, e de ternura. Antes, quando havia o confranger que ele não entendia e que mesmo assim se colocava dentro, antes quando possuía chances alternadas com tremores involuntários, suores nas mãos, pés cambaleados, orelhas frias, olhos lacrimejantes, unhas roídas, dentes rangidos, coceiras exageradas pela cabeça, disfarces totalmente risíveis, ele, eles, se abdicaram da responsabilidade de encarar um o olho duro do outro ao mesmo tempo em que diziam coisa nenhuma por não saberem e por não terem e por não decidirem coisa de importância verdadeira nenhuma  para ― para abrir a boca e destruir a Babel gigantesca e imposta no meio do mundo ― ao arriscar tentar dizer.

vazio

|  Praça de Luís de Camões ( ant. 1895 )

Fotografo: Francesco Rocchini

in AML

«Existindo o projecto de se erigir n'esta cidade um monumento á memoria de Luiz de Camões, que atteste o reconhecimento da nação ao cantor immortal dos feitos gloriosos dos portuguezes; e havendo a commissão central promotora da subscripção para esta obra patriotica, em requerimento que me dirigiu, manifestado o desejo de que ao largo já destinado para n'elle se elevar o projectado monumento se dê uma denominação indicativa de tão nobre objecto; accedendo a este louvavel pensamento, e depois de ouvir a Camara Municipal de Lisboa, que com elle se conformou; em virtude da auctorisação que a lei me confere, determino o seguinte (…) O largo ultimamente formado pela demolição dos antigos prédios e ruinas comprehendidas entre o largo das Duas Igrejas, as ruas larga de S. Roque e do Loreto, a travessa dos Gatos e a rua da Horta Secca, será designado com a denominação de Praça de Luiz de Camões (…)»

por motivos até agora desconhecidos, eles nunca mais se viram. mudaram de casa, ambos foram para ruas sem saídas, ele morava numa rua larga, ela numa estreita, a casa dela é cinza e a dele fora pintada recentemente. já fazia algum tempo desde do encontro no metrô, quando se olharam nos olhos. ele perguntou sobre os livros, ela quis saber sobre aquele show que ele falou de ir, ele contou que mãe estava doente e ela disse que os pais se separaram. Desceram em estações diferentes. Tentaram não olhar para trás. Mas não conseguiram. nunca mais se viram, nunca mais se falaram. ambos acham que é melhor assim.