rolandinhobr

Eu lembro do dia em que te vi pela primeira vez, passando através de um portal de desembarque do aeroporto. Lembro que quando chegamos ao restaurante você fez questão de me dizer que sabia fazer seu próprio pedido. Lembro do nosso primeiro beijo, eu estava no canto da cama e você estava com o rosto apoiado em meu peito, foi você que me beijou. Teve aquele dia que você sorriu para mim de uma maneira diferente, me olhando nos olhos como se tivesse alguma curiosidade imediata. Recordo aquela noite que eu te abracei e te disse ao pé do ouvido que você era capaz de fazer tudo que quisesse. Você chorou no meu ombro. Eu lembro da primeira vez que você partiu. Lembro de como doeu. Lembro da madrugada que adentramos discutindo a natureza finita e infinita dos números. Tenho a lembrança de te assistir dormindo, te assistir acordando, abrindo os olhos mais azuis que existem e me dando um sorriso. Eu lembro daquele dia no chalé. Lembrei agora que cantamos 505 juntos no carro. Eu lembro de todas as frases de desenhos que nós usamos de brincadeira. Eu lembro do paradoxo do hotel de Hilbert. Eu lembro de fazer tudo aquilo que você disse que não gostava que caras fizessem. Lembro que você gostou de tudo. Eu lembro todas as palavras de cada carta que eu já te escrevi. Eu recordo de todas as horas de sono que deixei de sonhar para pensar em você. Lembro bem do dia em que eu mais me senti triste na vida e você me consolou. E apesar de ser simples, complicado, amargamente doloroso e incalculavelmente feliz, de ser díspar, porém tão uníssono, cúmplice porém dissonante, puro e belo mas eivado, nosso amor é inexoravelmente inevitável.
—  Bruno Marchese.