roeme

Descanço

A voz dói.
Dói a vida de Afonso
No ruído dos orvalhos verdejantes.
Verde para emergir das cinzas,
Para perder o senso e soltar os ventos trançados,
Fechar as pálpebras no instante do fechar das asas,
(“Não esqueça: seu número é o noventa! ”)
Pois é hora de esconder a graça
E andar nos ladrilhos da Rua N.
(“Nós vamos perder o ônibus! ”)
Andar apressadamente.

O ruído dos pássaros,
O cantar das almas.
Clamam nossas puras almas calmas,
Os lábios sujos de terra
E os pés sujos de rima,
As mãos, de correr em tempo de voar.
Nossos puros corpos de pó
Sujam a areia da viela,
Sopram com as penas.

Roem os olhos,
Os frescos ruídos da voz da minha avó.
Pois temos de cavalgar,
Flutuar até a arvore que nasce na Índia
E morre na Amazônia
Ao chegar Vênus à vista.

É o momento de cheirar o podre espelho de fogo
E deixar queimar as unhas do pé
Até embebedar os cílios congelados da longa noite de sessenta dias,
A pequena viagem de mil quatrocentas e quarenta horas.
Deixar o pescoço cair no olhar do oceano
E viajar por mais mil quatrocentas e quarenta espumas.