rodrigo

este texto não é sobre você.
é sobre mim.
é sobre a minha força de permanecer ileso, intransponível e apaixonado pela vida aos 21 anos. é sobre mim, que não me suicidei embora tivesse querido muitas vezes. é pela força que resgatei de dentro do meu peito todos os dias infernais depois que o trauma me atingiu em cheio feito esses acidentes que acontecem nos grandes centros e que desaparecem, junto à paisagem.
é sobre mim, que consegui sobreviver ao estorvo que foi todos os dias pós-trauma, pois no meu âmago habitava resiliência suficiente que encheria 10 Maracanãs inteiros. é sobre mim, que permaneço amando viver, amando me doar, amando queimar minha pele no sol enquanto as pessoas preferem o vazio dos corações ingratos.
é sobre mim, que decidi ser ainda mais forte e abraçar toda a essência do amor. porque acredito que depois do trauma (e virão outros) vem o amor-próprio, a vontade de ser melhor (pra si), o desejo inerente de continuar, não importa como.

esse texto é sobre mim e a minha força. porque consegui me levantar da cama sem me sentir vazio, inescrupuloso, infeliz. porque tô aprendendo a me encher de mim mesmo feito água em poço que dá em agreste: aos poucos, vou me descobrindo líquido, amoroso, bom.

eu sou bom. muito bom.

esse texto é sobre como eu consigo andar pela cidade sem medo ou receio ou magoa ou dor ou ressentimento ou qualquer dessas coisas que ficam depois do atrito. agora, eu ando por mim, pela vontade de me jogar das pontes, prédios e ruas para virar poesia. porque eu sou uma poesia. viva, inexorável e consciente de si. eu não preciso de olhos que me leiam quando minha linguagem já é uma boca gritando no mundo.

a partir de ontem, é tudo sobre mim.

A gente finge que não doeu. A gente finge que não arrancou um pedaço da pele. A gente corre para os banheiros das estações de metrô. Ninguém merece nossa dor. A gente finge que tá tudo bem acordar apressado, com o coração febril, aturdidos pelo sistema. A gente finge que não há nada demais em ser frios a ponto de congelar o ártico. A gente finge que não dilacerou todas as expectativas. A gente finge que continuar é sempre a melhor alternativa porque, ora, ninguém deve se dar ao luxo de respirar na cidade grande. A gente finge que não arde aquele amor que obrigou o peito a sair do lugar. A gente finge que não queima aquela vez que o espinho entrou na vértebra e assassinou uma esperança. A gente finge que não se importa porque o telefonema não veio. Afinal, quem precisava dele mesmo? Eu não. A gente finge que é normal esbarrar no outro sem pedir perdão. A gente finge que esconder - por suposição, por medo, por covardia - não trará danos maiores. A gente finge que está tudo bem cavar um poço no outro sem colocar a água nele. A gente finge que o cansaço não vai tomando conta até chegar segunda-feira para que reclamemos de tudo. A gente finge muito mal.