rita silva

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“O absurdo é o divino. Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas. Comprar livros, para não os ler. Ir a concertos nem para ouvir música nem para ver quem lá está. Dar longos passeios por estar farto de andar. Ir passar os dias ao campo só porque o campo nos aborrece. Encontrar a personalidade na perda dela. Mesmo a fé abona esse destino. 

Busco e não encontro. Quero e não posso. Sem mim o sol nasce e se apaga. Sem mim a chuva cai e o vento geme. Não são por mim as estações, nem o curso dos meses, nem a passagem das horas. Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo. 

Que infernos, e purgatórios, e paraísos tenho em mim? E quem me conhece um gesto discordando da vida? A mim? Tão calmo. Tão plácido. Arranco do pescoço uma mão que me sufoca, uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida. Tudo morre em mim, mesmo o saber que posso sonhar. Onde está Deus, mesmo que não exista?”

Filme do Desassossego . João Botelho

[I can’t translate Fernando Pessoa.]