rita

Estou há vários capítulos olhando o nada. E o nada acontece. E o nada responde. E o nada floresce em amarelos invisíveis. Estas flores que não existem devem ter sido plantadas por algumas sementes do nada. Se você soubesse a dimensão das coisas que ainda não existem e que estão, no exato momento, amontoadas ao seu redor, você não conseguiria dar sequer um passo adiante. Às vezes, eu penso que Deus criou o mundo pelo mesmo motivo: sufocado por um vazio suplicante. Ou então, Deus criou os outros homens por não suportar as histórias em primeira pessoa. Mas o narrador foi embora e essa pessoa foi tudo o que sobrei agora…
—  Rita Apoena.
Eu gosto das cidades em terceira pessoa do plural, e vou me mudar para a cidade de Somos Paulo, onde todos têm o mesmo nome e todos se dizem bom dia. O menino veste uma calça comprida, um olhar esmurrado e traz uma maldade no peito, como um broche de flores feridas e pétalas não cicatrizadas. Disse o pingüim dessa casa que o medo guardado fora da geladeira apodrecia em maldade de medo. A maldade de medo é aquela que vai se espalhando pelo seu corpo, sem que você perceba, e faz com que você se afaste das outras pessoas. Longe, você não consegue entender o coração delas. E nem elas, o seu. Mas o seu coração continua numa bondade que ninguém mais entende e, então, eles chamam aquilo de maldade. Assim era a maldade no coração do menino.
—  Rita Apoena.