rio amazona

Escrevia todo dia. Era como tomar café. Mas nem sempre o café é preto e com açúcar: às vezes é ralo, é amargo, tem gosto de pé. Era como ir na padaria, mas a padaria é longe e eu não tenho carro. Fico sem pão, também não tem manteiga. E sou vegetariano. Sem barba não sou ninguém. Não são afirmações ao acaso, nem um contrassenso, muito menos uma forma apática de autodeterminação: é o meu jeito de ser. Afrodescendente, condescendente, equivalente. Sou o objeto de minha própria ciência criada, a ênfase de minha poesia, sou o leito do Rio Amazonas. Corro todo dia. Não escrevo sobre isso. Os meus passos são fluidos como café. Mas nem sempre é preto, como o rio que não corre sempre para o mar.
—  Theu Souza