represa

14. Na Represa dos Manequins

 

        É quando o trânsito está lento. É quando não há mais lugares para sentar. É quando ninguém se conhece. Eu te explico como é.

        As pessoas vão entrando e vão se organizando no fundo do ônibus, todas de pé. E de lá, a visão que se tem é de que as mãos se agarram nas barras e alças do jeito que podem. Um mar de cabeças até a catraca. As bolsas e mochilas são divisórias que ninguém quer segurar, que ninguém quer largar. E se ali as divisórias fossem tomates, o silêncio seria o molho. Estáticos. Muitos já estão acostumados com a aparente apatia fúnebre dos passageiros mais cansados. Há quem tenha a cabeça escorada no vidro. E olhares vagos apenas registram os novos, mas sempre acabam se voltando para as janelas.

        Eu mal sabia quais rostos estavam a minha volta. Eu mal podia escutar o motor do ônibus. Disperso. Eu ouvia “If I Had A Boat” de James Vincent McMorrow olhando para janela e mais nada. No momento seguinte olhei sem propósito para as cabeças no corredor. Fones de ouvido. Expressões vazias. É como estar em filme mudo e preto-e-branco.

        Até que, da minha divisória, os meus olhos pescaram algo de uma outra divisória.

        Aproximadamente a minha idade, 65kg, aparentemente estudante, rabo de cavalo, uma camisa quadriculada e olhos fechados. Eu a vi antes falando no celular, mas isso não era nada. Até agora. Ela estava com os olhos fechados agora. Seriamente fechados. Uma de suas mãos ainda sustentava sobre a orelha o aparelho que lhe injetava palavras de alguém da terra firme. Mas o cuidado que ela tinha em ouvi-las parecia ser tanto, que era possível acreditar que aquela pessoa do outro lado tinha cada pedaço dos sonhos da garota na palma da mão. Palavras cabais haviam de ser ditas. Seu dedo indicador deslizava sobre o botão de sinal do ônibus, como se acariciá-lo pudesse amansar o seu destino ou tornar o seu peito mais macio para o impacto. Parecia uma garotinha tentando convencer seus pais a não fazer exame de sangue por ter medo da agulha. Eram os segundos mais longos e preciosos do seu dia, e eu fiz parte disso. Eu pude senti-la temer o disparo. Eu pude sentir seus ossos a abraçando firme. Eu pude sentir o seu desejo se agarrar à beira do precipício. Ela coloriu o meu quadro branco ao transbordar seus sentimentos.

 

        Quatro segundos em quarenta páginas de pensamentos.

 

        Não houve choque.

        Ela simplesmente abriu os olhos cabisbaixos. Levantou-os ocos para a janela e os escorou por lá. No final, ouviu algo que a fez sorrir serenamente. Desligou. Eu a admirei. Algo me dizia que ali o medo havia sido expulso por uma generosa dose de esperança. Os riscos foram corridos em justa censura e o resultado foi satisfatório.

 

        Fizemos um filme com trilha sonora e um belo colorido.

        Ela no bote dela, e eu no meu.

 

                                                                                                  Diego Neves Cotta – 04/10/11.