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Mô, sabe aquele amor bem grandão? Daqueles que não se mede, não se entende, que a gente apenas sente? Daqueles que a gente quer escutar a voz da pessoa e se sentir bem, abraçar e se sentir protegido… Aquele amor de julho, ah, no friozinho. Brigadeiro, pipoquinha, mordidas, beijos… Vem cá que eu te mostro tudo, ser feliz e te fazer feliz, é tudo o que eu mais quero. Vem cá me mostrar que agora só existe nosso amor, e que nada vai nos derrubar. Vem, mô.
—  Friozinho de julho, intercalado.
Essa semana um amigo tentou tirar sua própria vida - disse ele que não aguentava mais sofrer com tantos problemas. Tomou remédios e cortou seu pulso. Começou a sentir dores e viu que estava fazendo tudo do jeito que planejava, mas desistiu daquilo e foi ao hospital. Porém, de que valeu sofrer tanto se não conseguiu resolver o que lhe causava tanta dor? Confesso que eu já tentei tirar minha vida. Achamos fácil assim tentar resolver os problemas das outras pessoas. Já é tão repugnante pensar em matar alguém, imagina matar você mesmo? Só que chega uma hora que você não está mais vivo.
—  Respirar ainda bastaria? Luc.
Não quero tentar esquecer o que me faz mal às vezes. Já dizia a mamãe: dores enganadas com remédios voltam mais fortes. Não. Eu não quero isso para mim. Não quero que minha felicidade dependa dos outros e que um dia eu tenha que perdê-los. E quem precisa saber? Porque ninguém vai me ajudar. Quero vida de volta, só isso.
—  Traga-me de volta, Luc.
Muito barulho me dá náuseas. Prefiro o silêncio, a calmaria. Prefiro parecer errado do que implorar pelo meu reconhecimento e pela minha razão. Se no fundo eu sei o que faço, para quê ter que provar que estou certo? Tenho essa mania de permanecer calado. De não contar nada pra ninguém. Me faz bem porque, de bagunça, já basta a minha vida.
—  A calma, Luc.
O outono já se foi, mas as folhas não pararam de cair
O inverno se foi também, mas não parou de chover
A primavera se foi, mesmo sem ter florescido
O verão chegou, mas o sol ainda não apareceu
Quero voltar pra casa, quero abrigo
Me desligar de tudo, ficar apenas com a tristeza.
—  As quatro estações, Luc.
Será que eu sou alguém? Olhar para dentro de mim e não enxergar absolutamente nada dói tanto que, pouco a pouco, vou perdendo as esperanças de que um dia eu possa ser feliz. Tenho medo que o meu valor esteja sendo abafado pelas pessoas que querem ser mais que eu. O quão o mundo fica feliz em ver minha desgraça? As pessoas vão e vêm, passam, vivem, enquanto eu não sou notado, não importa o lugar que eu esteja. É tanta gente. As ruas são lotadas, será que há alguém como eu? Será que só eu vivo assim? São tantas perguntas… Às vezes eu penso que o mundo é uma mentira. Meu mundo é uma mentira. Eu não tenho ninguém para compartilhar, não tenho mais espaço para guardar dentro de mim. Essa confusão é tão grande, que não cabe aqui. Escrever foi a única forma que eu encontrei de tirar isso de mim, uma forma de ver o que eu sinto. Estou falando em silêncio. Estou morrendo em silêncio. A minha vontade é abrir a janela e gritar para o mundo que eu também preciso de atenção, que ninguém nunca vai conseguir ser feliz ou sorrir verdadeiramente, se estiver sozinho. São tantos sorrisos cheios de mágoas, tristezas, sofrimentos, angústias… É isso que eu carrego. Aliás, isso é o que me carrega pela “vida”.
—  E se um dia eu pusesse fim nessa vida, um fim no meu sofrimento? Talvez fosse melhor, porque talvez eu seja só uma faísca que não atingiu o pavio, uma chama invisível ou um ponto de interrogação em um livro sem perguntas. Luc (intercalado)
As pessoas brincam paradas, falam caladas, sentem sem sentir, riem sem sorrir, choram sem lágrimas, contam histórias sem verdade e mentiras sem invenção. Amam sem amor, sofrem sem dor e falam sem temor. Ler, reler não importa, elas não sentem, não fazem questão de sentir, em um mundo onde o ouvir vira baderna e o falar vira silêncio. As palavras já não soam e os gritos não se escutam. O você vira eu e o eu vira nós, o nós vira todos e o todos no fim são quase nada.
—  Anne Kelly